Crítica | A Hora do Lobisomem, de Stephen King

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A Hora do Lobisomem é o resultado de um pedido/desafio literário proposto a Stephen King por Christopher Zavisa, editor da Land of Enchantment, em 1979. Basicamente, o acordo era que o autor escrevesse um conto dividido em doze partes de 500 palavras, cada parte correspondendo ao um mês do calendário. Com pequenas adaptações na proposta e uma observação de que ele não era estúpido e sabia que a Lua Cheia não poderia cair em dias tão específicos como Dia dos Namorados, Dia de São Patrício, Dia da Mentira, Dia do Trabalhador, 4 de Julho, etc, etc., King realizou uma jornada de medo e tensão ao longo de um ano inteiro, assumindo caraterísticas literárias que se afastam, de maneira muito curiosa, de sua produção habitual.

Para começar, os “contos mensais” seriam acompanhados pelas ilustrações do grande Bernie Wrightson, cocriador do Monstro do Pântano, da DC Comics. Mais para frente vou abordar isso a partir de um ponto de vista narrativo, mas por agora é importante destacar que as ilustrações + a proposta de concepção menor dos capítulos do livro forçavam Stephen King a seguir um caminho do qual ele nunca foi muito fã: escrever pouco. Mas como sempre gostou de um bom desafio literário — e porque queria muito escrever sobre lobisomem — ele seguiu em frente e criou essa aventura de medo que se passa em Tarker’s Mills, no Maine (claro!), onde alguma coisa começa a matar violentamente as pessoas, sempre em noites de Lua Cheia, o que inicialmente passa despercebido pela população, mas ao longo dos meses as fofocas da pequena cidade dão conta do que realmente pode ser a verdade: existe uma besta (um lobisomem?) atacando as pessoas.

Como não há espaço, o autor não consegue desenvolver bem os personagens e nem explorar o espaço geográfico como ele normalmente faria, o que me causou uma certa estranheza durante a leitura, às vezes pendendo para o lado positivo, às vezes pelo lado negativo. E só para constar, eu faço parte do grupo de leitores que pensam que ele deveria sim ter dado indícios de como a contaminação de quem realmente era o lobisomem aconteceu. Evidente que não é algo que impeça que se aproveite de verdade a saga, mas é uma falta considerável — ao menos na minha leitura.

Para “compensar” essa falta de informações, temos as artes de Bernie Wrightson fazendo o papel de observador do percurso. Confesso que achei a combinação perfeita aqui, com uma narrativa mais ágil, às vezes com pontas demais deixadas à nossa imaginação, mas nada grave, algo que os desenhos ajudam a amarrar. Nesse jogo entre imagens e texto é que se faz o bom resultado final de A Hora do Lobisomem, especialmente porque em cada mês chegamos a um estágio emocional (por parte dos habitantes da cidade) e atmosférico (considerando as estações do ano, que cumprem um grande papel de contexto do ambiente) trazendo à tona diferentes punições, pensamentos e até expectativas para quem deveria ou não ser morto. Mesmo sem trabalhar muito bem os personagens, como lhe é de praxe, o autor consegue sustentar algumas personalidades de apreensão fácil, que marcam consideravelmente a nossa atenção no decorrer da leitura.

Assim acontece com o homem que espanca a mulher, com o reverendo de sonhos estranhos e, claro, com o mais bem desenvolvido aqui, o garoto paraplégico de 10 anos chamado Marty Coslaw. King quebra as nossas expectativas, desvia a nossa atenção sobre quem pode ou não deter o bicho e entrega um final poderoso, bem ao sabor de seus suspenses macabros, onde o acontecimento está envolto em emoções humanas que impressionam o público, seja por satisfazê-lo com algo positivo para personagens queridos, seja por enraivecê-lo. Aqui, o resultado não poderia ser outro. Mesmo com blocos vagos e algo que eu realmente senti falta (a colocação da origem do lobisomem), Cycle of the Werewolf termina muito bem, em um encontro inesperado entre caça e caçador, numa gélida noite de réveillon. Uma maneira inusitada e, como ele mesmo diz no livro, histórica de comemorar o Ano-Novo.

A Hora do Lobisomem (Cycle of the Werewolf) — EUA, novembro de 1983
Autor: Stephen King
Editora original: Land of Enchantment
Ilustrações originais de: Bernie Wrightson
No Brasil: Suma de Letras, 2017
Tradução: Regiane Winarski
152 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.