Crítica | A Hora do Pesadelo (2010)

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Na fila das refilmagens e reboots slashers realizados entre 2003 e 2010, A Hora do Pesadelo foi o último dos investimentos na seara dos medalhões que fizeram carreira desde a década de 1980. O retorno, como já era de esperar, é tomado por muitas inconsistências do projeto, menor que as retomadas de O Massacre da Serra Elétrica, Halloween e Sexta-Feira 13. Freddy Krueger, um dos antagonistas da era de ouro dos slashers, concebido por meio de um roteiro desafiador, escrito cuidadosamente por Wes Craven, ganhou nesta refilmagem, o sabor amargo da perda de rumo e da falta de habilidade dos envolvidos em construir algo substancial e que se ao menos não estivesse exatamente no mesmo patamar do ponto de partida de 1984, ao menos chegasse um pouco perto. Isso não aconteceu e o público e a crítica deram a resposta.

Apesar de Leatherface e Michael Myers também gozarem do prestígio diante dos cinéfilos consumidores de filmes slashers, Jason e Freddy são criaturas mais massificadas dentro do esquema de globalização do terror. Ícones dos anos 1980, os personagens são facilmente reconhecíveis por pessoas de fora do circuito, haja vista a máscara de hóquei e o figurino especifico do assassino que ataca as pessoas em seus pesadelos. Dito isso, a tarefa de reintroduzir Freddy Krueger na cultura dos anos 2000 era desafiadora, pois os realizadores tinham em mãos um projeto que dificilmente teria o mesmo magnetismo diante do desempenho dramático de outro ator que não fosse Robert Englund, no traje desde o primeiro filme.

Diante do exposto, os produtores tomaram alguns rumos que acreditavam ser as escolhas adequadas para a franquia. Eis alguns apontamentos. Freddy é sádico no roteiro assinado por Eric Heisserer e Wesley Strick, mas falta impacto, mesmo que Jackie Earle Haley honre o figurino e a história do antagonista dos pesadelos. Samuel Bayer, conhecido pela direção de Smell Like Teen Spirit, do Nirvana, um “clássico” do videoclipe, entende de linguagem audiovisual, mas não sabemos exatamente se a má condução de A Hora do Pesadelo é justificada por sua ineficácia ou pela interferência dos produtores da Platinum Dunes, companhia responsável pelo resgate dos slashers na época, capitaneados pelo frenético e intenso Michael Bay, o “cineasta das explosões” no cinema hollywoodiano.

Bay é o mestre da falta de sutileza e isso até diverte em certos momentos, mas alguém precisava ter dito ao animado produtor e seus gerenciados que a falta de alguns limites pode por as coisas a perder. A falta de sugestão que descamba no excesso de explicações é outra necessidade do texto de tornar Freddy Krueger uma criatura apresentada ao público pelo didatismo, o que deixa qualquer parcela de dubiedade do personagem escapar, algo que fica ainda pior quando o filme decide humanizar demais o seu monstro e até despistar o público com a possibilidade de Krueger ter sido inocente. Se juntarmos tudo isso ao fato de termos uma final girl apática, sem o carisma e garra da versão antecessora de A Hora do Pesadelo, a refilmagem se torna, de fato, um pesadelo de quase 100 minutos, com uma figura macabra que apesar do excelente desempenho dramático do ator que lhe fornece vida, é genérica demais enquanto construção ainda no roteiro.

Dos males, a música é o menor. Obviamente, o filme bebe em algumas notas da trilha sonora original, mas Steve Jablonsky consegue conduzir musicalmente a refilmagem com o tom atmosférico também adotado com qualidade nos filmes de Leatherface e Jason. O choque entre metais e o uso de MIDI tornam a empreitada carregada sonoramente, algo somado ao design de som supervisionado por Andrew DeCristofaro, nada delicado quando as garras de Freddy assumem o controle de algumas cenas e ganham faíscas não apenas visuais, mas sonoras ao arranhar paredes, portas, quadros e outros pormenores da cenografia de Karen Frick, eficaz, em diálogo com todo o design de produção assinado por Patrick Lumb, base para os efeitos visuais de Mark Kobbe, também eficientes, mas usados sem parcimônia numa narrativa que cede totalmente aos mecanismos das necessidades industrias no campo do cinema e deixa a qualidade artística do produto adentrar na zona do resultado insatisfatório.

A paleta de cores, modificada entre os momentos de sonho e realidade, transforma a nossa dúvida noutro problema narrativo. Se a ideia era manter uma proximidade entre os dois terrenos e confundir os personagens e seu público diante do horror de se encontrar num ambiente incerto, isto é, o da realidade ou o mundo onírico horripilante de Freddy Krueger, aqui fica tudo muito óbvio. A realidade é tomada por uma paleta de cores tomadas por um tom nublado, pouco estourado, diferente do clima “musgo” dos pesadelos asquerosos, bem realizados, mas que infelizmente perdem impacto com a falta de sutileza desta refilmagem ofertada pelo mestre nessa questão, Michael Bay, ocupante de um lugar privilegiado na cadeira de produtor, não apenas quem dá sugestões e controla gastos, mas quem de fato libera a grana do orçamento.

Antes do desfecho, creio ser relevante expor a história do filme em questão. A Hora do Pesadelo, versão 2010, ousou descrever em sua ficha que é inspirado nos personagens de Wes Craven, quando de fato as suas melhores cenas são oriundas do filme de 1984, além de algumas modificações numa estrutura já pronta. A final girl interpretada por Rooney Mara tem o seu sobrenome modificado, a história de Freddy tem a mitologia esmiuçada, a famosa morte similar ao fim do personagem de Johhny Depp no original é abandonada e a Elm Street, localização que dá nome ao filme, malmente é abordada na história. Fora isso, a refilmagem não fez mais que acrescentar um pouco ali e excluir aqui, o que faz da ficha técnica uma vergonha, um plágio quando não assume que tem muito mais a ver com o seu ponto de partida do que meramente uma repescagem de personagens.

Ah, sim, a história, não é mesmo? O que o leitor que nunca sequer ouviu o nome de Freddy Krueger precisa saber é que ele era um pedófilo que abusou de algumas crianças no passado e teve um destino trágico quando os pais se juntaram e decidiram não envolver a polícia nos fatos. Tomaram, por conta própria, a decisão de ceifar a vida do criminoso, sem o interesse de expor midiaticamente as crianças. A única que parece não concordar com a ação plenamente é Gwen (Connie Britton), mãe de Nancy. A sua incerteza, por sua vez, não a permite agir diante da situação. O resultado é o assassinato de Krueger numa região industrial. Ele morre queimado e se torna um monstro que anos mais tarde, assombra os jovens de Elm Street, matando-os em seus pesadelos. Agora, Nancy, Quentin (Kyle Gallner), Kris (Katie Cassidy), Jesse (Thomas Dekker) e Dean (Kellan Lutz) precisam lutar para sobreviver ao império de horror e vingança.

A Hora do Pesadelo (A Nightmare on Elm Street, EUA – 2010)
Direção:
Samuel Bayer
Roteiro: Wesley Strick e Eric Heisserer
Elenco: Jackie Earle Haley, Rooney Mara, Kyle Gallner, Katie Cassidy, Thomas Dekker, Kellan Lutz, Clancy Brown, Connie Britton.
Duração: 95 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.