Crítica | A Hora do Pesadelo – Never Sleep Again, de Thommy Huston

Como sempre digo em ocasiões cinéfilas, seja em palestras ou encontros com pessoas que compartilham do mesmo interesse cultural, Freddy Krueger é um grandioso ponto semiótico na história do cinema, a arte visual por excelência. Mesmo para aqueles que não conhecem nenhum dos filmes, a imagem do personagem é icônica. Impossível não saber ao menos que ali está uma figura originada do terror, acompanhada por suas luvas com lâminas afiadas, chapéu peculiar e suéter listrado, com o corpo tomado por queimaduras terríveis. Em A Hora do Pesadelo – Never Sleep Again foi traduzido, Thommy Huston traça um painel detalhado da história prévia e sucessora ao surgimento do maníaco dos pesadelos em Elm Street. Conta a aterrorizante jornada no cinema ao assistir Krueger em ação e pedir ao pai para ir embora, mas receber um suntuoso “não”, pois havia consumido a sua família por dias para conseguir ser levado ao cinema e finalmente assistir ao macabro clássico do terror comentado “por todos”.

Com o livro, somos informados milimetricamente sobre os acontecimentos em torno de A Hora do Pesadelo. A cena da morte de Tina é uma referência ao clássico musical com Fred Astaire dançando num cenário giratório? Não no tema, mas na estratégia de filmagem utilizada. O maquiador buscava encontrar um formato definitivo para Freddy em vários livros sobre vítimas de queimaduras, mas foi durante uma pausa para o lanche que a ideia lhe chegou, por meio de uma epifania enquanto comia uma pizza de calabresa, visual que lhe remeteu ao rosto do antagonista. Krueger se manteve firme na memória cultural com posto mais privilegiado por causa da estrutura de seu roteiro, mais amarrado e com desenvolvimento de uma história menos convencional que os modelos da década de 1980? Sim, quando comparado aos tantos mascarados do período.

O clássico do terror biografado é oriundo de uma época onde os filmes ganhavam o termo “A Hora” para quase tudo: A Hora do Espanto, A Hora do Lobisomem (no anuncio de sua pré-estreia), A Hora da Zona Morta, e até mesmo o brasileiro A Hora do Medo, dirigido por Francisco Cavalcanti, com apoio de José Mojica Marins, o eterno Zé do Caixão. Foi neste momento que os pesadelos perpetrados por Krueger marcaram para sempre a história de uma geração e ganhou outros espaços no âmbito da cultura. E assim, ao ganhar a simpatia e fidelizar seu público próprio, Freddy Krueger se tornou um fenômeno, na mesma linha de Jason Voorhees e a “mania” Sexta-Feira 13, já em algum desgaste quando Krueger se tornou industrialmente famoso. Isso é o que compõe “A Hora da Verdade”, um dos textos antecipadores do capítulo 1, intitulado “Artesão de Sonhos – Wes Craven: O Criador”, estudo biográfico de Craven, com ênfase em sua formação acadêmica e histórias da infância, germinadas em suas produções cinematográficas sempre muito intensas. É neste mesmo capítulo que conhecemos uma prévia de outros bastidores do cineasta, de Aniversário Macabro ao clã de Quadrilha de Sádicos, dos menos intensos Benção Mortal e Verão do Medo ao processo de adaptação de O Monstro do Pântano.

A jornada seguinte é uma exposição das dificuldades de Robert Shaye na fundação da New Line Cinema, um império dos sonhos para um microempresário que se viu afortunado diante do sucesso, após muita luta, do filme que assumiu ao lado de Wes Craven. Nos capítulos 3 (Um, Dois, Freddy Vem Te Pegar: Pré-produção), 4 (Três, Quatro, Feche Bem o Quarto: Produção) e 5 (Cinco, Seis, Segure a Sua Cruz: Pós-Produção), acompanhamos os temas já esperados. A busca pelo elenco, a escalação de Johnny Depp, jovem aspirante a ator que andava pelo meio hollywoodiano junto ao amigo Nicolas Cage; a seleção da final girl, interpretada por Heather Langenkamp, personagem que se diferenciava do arquétipo da época; a dificuldade em filmar a cena da morte de Tina, o adolescente sugado pela cama, até mesmo o enforcamento de um dos jovens na prisão, dentre outras passagens emblemáticas, tais como os enormes braços de Krueger na cena de abertura, num dos pesadelos mais humorados, etc. Há uma quantidade enorme de informações expostas numa estratégia de apresentação didática (cronológica) de Huston, sempre a comentar fotografia, design de produção, maquiagem, trilha, dentre outros.

O esquema de lançamento e o legado da franquia é comentado, mas com os olhos voltados sempre ao seu ponto de partida. A trajetória de cada membro do elenco é tratada com o devido respeito, os desdobramentos do filme em suas carreiras também, com posfácio assinado pela atriz Heather Langenkamp, franca ao dizer, em suas breves palavras, que no papel de interprete do personagem, não conseguiu viver a intensidade que a sua figura ficcional teve na vida dos cinéfilos que acompanharam a produção e suas continuações com tanta fidelidade. Antes do trecho que encerra a publicação, ainda há o capítulo 6 (Sete, Oito, Fique Acordado: O Lançamento) e  7 (Nove, Dez, Não Durma Nem Uma Vez: O Legado do Pesadelo), além dos extras, agradecimentos e bibliografia, trechos cheios de detalhes mapeados para os interessados em ir adiante, na busca por complemento diante de um livro já farto de tanta informação organizada de maneira organizada a fazer o leitor não perder o interesse em momento algum da jornada em torno das curiosidades e simbologias em A Hora do Pesadelo.

Ler o material com grandiosa qualidade jornalística é um prazer para as pessoas que admiram o legado de Freddy Krueger e também gostam de compreender como funcionam os mecanismos que engendram uma realização cinematográfica. Para isso, temos como suporte, uma edição formidável lançada pelo selo Darkside Books, um volumoso livro voltado para parte do público que não se sente intimidado pelas 528 páginas recheadas de textos e imagens valiosas. Mais intensa que as crítica genéticas de David Groove em Sexta-Feira 13 – Arquivos de Crystal Lake e Stefan Jaworzyn em Arquivos Sangrentos – O Massacre da Serra Elétrica, ambos já muito bons em seus propósitos, Thommy Huston eleva o seu livro ao pico das informações do universo slasher, com um cuidadoso estudo de perfis biográficos, sem parecer que o texto se ancora no jornalismo de celebridades, preso aos pormenores fúteis e que em nada acrescentam na qualidade de pesquisa apresentada pela publicação. Huston foge desse risco e entrega uma dedicada análise histórica de personagens, movimentos cinematográficos e os detalhes que costuraram o amplo tecido do legado de Krueger na memória cultural.

Originalmente publicado em 2010, a edição chegou ao Brasil em 2016, com design da Retina 78, grupo que teve como designers assessores, Marco Luiz, Pauline Qui e Paulo Caetano, responsáveis por emoldurar cada página com elementos remissivos ao universo criado por Wes Craven e analisado por Thommy Huston. Revisado por Marlon Magno e alguns membros da equipe técnica da Retina Conteúdo, A Hora do Pesadelo – Never Sleep Again foi traduzido por Carlos Primati e traz as fichas técnicas de todos os filmes da franquia, juntamente com os seus cartazes oficiais e algumas ilustrações adicionais (frames dos respectivos filmes). Há também bastante uso de storyboards com as descrições das cenas que representam, num material que vai além do interesse diante do legado da série para versar sobre elementos muito próprios do cinema enquanto arte industrializada. Thommy Huston nos permite passear pelos bastidores, ler curiosidades do universo amado por muitos, mas também não deixa de dar uma panorâmica aula, algo equivalente ao módulo de um componente integrante de um curso de cinema.

Quem sela a abertura é o produtor Robert Shaye, o homem que detinha os artifícios financeiros para a realização do filme tão suado de Wes Craven. Ambos tiveram as suas diferenças criativas e pessoais, supostamente resolvidas com o lançamento de O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger, lançado em 1994, um exercício brilhante de metalinguagem próprio do estilo de Craven. Era uma antecipação da franquia Pânico. Shaye conta que não foi fácil mergulhar neste projeto que tal como ocorreu com Hitchcock em Psicose, envolveu casas hipotecadas, falta de dinheiro, sorte lançada ao ar e outras inseguranças. Em sua apresentação, Wes Craven conta como tinha pesadelos na infância. Fala do homem que viu em sua janela uma vez, bem grudado em sua janela, algo que ficou marcado para a vida toda. Além disso, reforça o apoio que os estudos acadêmicos lhe deram na estruturação da história de Freddy Krueger, mais firme em termos dramáticos que os demais slashers da época.

Para conceber a sua história, Craven também traz elementos de uma reportagem sobre um rapaz que teria morrido enquanto dormia, há dias sofrendo com a sua privação de sono. A junção de todos esses elementos e outros ingredientes permitiram a existência de A Hora do Pesadelo, filme que segundo as informações colhidas por Huston nas entrevistas com Craven, não havia pretensão de ganhar continuidade. A vulgarização de Freddy e sua cristalização na cultura pop foi uma consequência, incongruente dramaticamente em alguns aspectos, mas favorável para todos os envolvidos. O livro é a base para o documentário homônimo, produção de longas e excepcionais quatro horas de duração, com olhar voltado para toda a franquia, diferente da publicação em questão, mergulhada na volumosa história do filme de 1984, o estabelecedor de toda a história de Freddy, da sua concepção visual, aos compositores que resgataram a música tema em todas as trilhas da série entre 1985 e 2003. Em suma, um livro inesquecível.

A Hora do Pesadelo – Never Sleep Again (Never Sleep Again, EUA)
Autor: Thommy Huston
Tradução: Carlo Primati,
Data original de publicação: 2010
Editora no Brasil: Darkside Books (Coleção Dissecando)
Data de publicação no Brasil: 2016 (edição nacional atual)
Páginas: 528 (edição nacional atual)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.