Crítica | A Hora do Show

A mídia televisiva já foi criticada em diversas produções cinematográficas, do excepcional Rede de Intrigas aos absurdos do recente O Show – Esta É A Sua Morte. No começo dos anos 2000, Spike Lee investiu mais uma vez em suas tramas ácidas sobre o racismo enraizado numa sociedade cada vez mais conflituosa. A Hora do Show, parte importante de sua filmografia, não teve a devida circulação em território brasileiro, mas se pesquisado com afinco e paciência pode ser encontrado e analisado para complementar mais uma reflexão ao estilo incendiário do cineasta.

O tema da vez é o famigerado “blackface”. O grande problema é que a representação caricatural é realizada por negros. Com direção e roteiro de Spike Lee, inspirado num livro de Donald Boogle, o filme trafega pela indigesta via do racismo cotidiano, institucionalizado pelas práticas ramificadas há eras. Em meio às imagens de arquivo da TV, a narrativa beira ao docudrama, numa crítica incisiva aos brinquedos racistas produzidos por uma indústria manipuladora, negros sem base ideológica, brancos preconceituosos e representantes da comunidade negra que se vendem em meio ao futuro com muitas expectativas, mas galgados numa “realidade” que impõe cotidianamente os assentos pelo qual cada cidadão assistirá a passagem da vida. Importante observar que para a população negra, o camarote e a pista VIP não são opções desejáveis para a elite branca que domina o poder.

Polêmico na temática, mas esteticamente simples, A Hora do Show retrata um produtor de televisão entediado que decide realizar um programa de cunho politicamente incorreto. O conteúdo do show é baseado nos estereótipos racistas difundidos historicamente ao longo da trajetória conflitante que demarca a diáspora africana, isto é, os Coons, palhaços de olhos esbugalhados, os Bucks, negros brutais e exageradamente sexualizados; os Mullattoes, homens que buscam relações inter-raciais para ocultar as suas origens negras, dentre outros. Spike Lee aproveita o espaço estabelecido para criticar o comportamento wigger, marcado por pessoas brancas dizem compreender os dilemas raciais de pessoas negras.

Irritado com o chefe branco que o hostiliza cotidianamente, Pierre Delacroix (Marlon Wayans) venda os olhos para a realidade da sua comunidade e entrega aos superiores hierárquicos o que eles desejam, o tal programa racista e preconceituoso. Casado com uma mulher negra, o chefe de Delacroix acha que cumpre a parte dele, ou seja, não é mais um perpetuador do racismo. Surpreso com o estouro do programa nos índices de audiência, os envolvidos no projeto sequer imaginam o desfecho trágico da situação. Revoltado com a opressão e se sentido humilhado diariamente, o produtor do show precisa encarar a negação de sua mãe, indignada com o destino tomado pelo filho.

Para aumentar os conflitos, há ainda o seu pai, vítima de alcoolismo, celeuma que trinca as suas frágeis bases estruturais familiares. Em meio ao dilema sobre a continuidade ou interrupção de sua participação no programa, Delacroix conhece a jovem Sloan (Jada Pinkett Smith), uma das pessoas catalisadoras do seu próximo ato: produzir um último show, extremamente polêmico e racista, muito além do que já fora realizado nos anteriores. Com uma apresentação de blackface, tendo como cenário uma plantação de melancias, a dupla esperava indignação e revolta, mas ao contrário, a plateia acha extremamente divertido e sequer se ofende, alegoria de Spike Lee para as pessoas alienadas e sem construção crítica de base para compreender as situações racistas que gravitam em torno de suas respectivas existências.

O movimento das ruas, por sua vez, é intimidador. Diferente das pessoas acomodadas diante da diversão barata na televisão, os manifestantes demonstram revolta diante de tantos absurdos. Delacroix reflete que seu pai é um homem fiel aos ideais do movimento negro, mas não teve sucesso algum em vida. Diante da possibilidade de continuar sendo uma pessoa comum e militante, em contraponto ao sucesso, dinheiro e fama, o personagem escolhe o caminho dos holofotes, mas sequer imagina que uma gangue planeja mata-lo em protesto ao programa. Com ascensão meteórica, Delacroix passa a se distanciar vertiginosamente de qualquer bom senso, tal como as empresas que descobrem os planos da gangue e conseguem uma liminar para a exibição do espetáculo de horror, próprio para um público cativo ávido por novidades.

Ao longo de seus 135 minutos, os recursos estilísticos cumprem as suas funções básicas, mantendo o padrão do cineasta em suas produções de menor orçamento. A condução musical de Terence Blanchard acompanha os absurdos apresentados ao público e orquestra as cenas captadas pela direção de fotografia de Ellen Kuras, departamento que enquadra bem os elementos que compõem o design de produção de Victor Kempter, profissional responsável pelo mergulho na atmosfera de bastidores que determina a temática central do filme.

Por fim, próximo ao desfecho, a polícia descobre o local da execução e tal como Faça a Coisa Certa, entre brancos, negros, mortos e feridos, a população negra é o grupo que se vê mais uma vez oprimida por questões seculares que alguns ainda insistem em dizer que é “mi-mi-mi”. Uma das principais discussões empreendias em A Hora do Show é a descolonização. Numa linha similar às reflexões de Franz Fanon e Stuart Hall, Spike Lee deixa em alerta que é preciso não descolonizar apenas as nações, mas os seres humanos, isto é, promover ações que os transformem em atores de suas histórias, não apenas espectadores passivos.

Neste processo de descolonização, mapeada pelas orientações do que apregoa o materialismo histórico, precisamos levar em consideração que uma revolução não se faz apenas através da cultura, mas por meio da transformação das condições materiais que permitem a cultura ser uma manifestação possível de ser executada. Como apontam os filósofos dos Estudos Culturais, corrente que de certa maneira encontra ressonâncias em algumas produções do cineasta estadunidense, o racismo impõe aos homens negros os problemáticos desvios existenciais, num exercício de extirpação de qualquer valor que lhe atribua originalidade.

Deste modo, o racismo se coloca como um mecanismo responsável por engendrar a exclusão social do povo negro. Assim, estabelece o complexo de inferioridade que anula o passado histórico deste povo que vê as suas “origens” solapadas, embaçadas e sepultadas em meio ao ambiente de dominação branca. Um dos mecanismos mais perigosos é a língua, espaço que funciona como a entrada para os valores transmitidos pelo colonizador, isto é, a sua filosofia, os seus clássicos literários, os seus conhecimentos científicos e os feitos históricos, tido como heroicos e justificados por meio de condutas e decisões questionáveis. A Hora do Show veicula todas essas questões, nos levando a refletir sobre a necessidade de “fazer a coisa certa”.

A Hora do Show (Bamboozled, Estados Unidos – 2000)
Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee, Donald Boogle
Elenco: Damon Wayans, Jada Pinkett Smith, Michael Rapaport, Mira Sorvino, Savion Glover, Thomas Jefferson Byrd, Tommy Davidson
Duração: 135 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.