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Crítica | A Identidade Bourne

por Ritter Fan
465 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 4,5

Obs: Leia a crítica de todos os demais filmes da série: franquia Bourne. Crítica originalmente publicada em 03 de setembro de 2012.

Em 2002, dois importantes filmes de espião foram lançados: 007 – Um Novo Dia Para Morrer e A Identidade Bourne. O primeiro, a 20ª edição da franquia 007 e, o segundo, o primeiro filme de uma nova série, baseada livremente no livro homônimo do autor norte-americano Robert Ludlum.

Enquanto o que vimos em 007 foram os efeitos especiais sufocando os personagens e a história, em Bourne testemunhamos o contrário: os efeitos especiais foram esparsos, com muito destaque para efeitos práticos e a história e personagens ficaram em primeiro plano. É como se Bourne representasse – e, na verdade, representou – uma volta à forma do filme de espião que até a franquia de 007 havia perdido. A Identidade Bourne, como defendem alguns, talvez tenha sido uma das principais razões para a mudança de tom na série do espião britânico, com a escalação de um ator atípico (Daniel Craig) e roteiros mais humanizados.

A Identidade Bourne, por si só, foi uma aposta interessante da Universal Studios. O diretor, Doug Liman, à época, não tinha um currículo muito extenso e, dos três longas que havia dirigido, nenhum era realmente filme de ação. Matt Damon, apesar de vários papéis anteriores interessantes, nenhum se encaixava no perfil bastante peculiar de “herói de ação”. Nem mesmo o físico do ator era muito relacionado com as exigências do protagonista que viria a encarnar.

Mas a Universal jogou os dados e, com um roteiro bem amarrado escrito por Tony Gilroy (que havia feito Advogado do Diabo, Armaggedon, Prova de Vida e outros) e W. Blake Herron, iniciou uma consistente e excitante nova franquia que viria a ser adorada pelo público. Saem os gadgets, roupas bem cortadas e tramas mirabolantes e entram as habilidades físicas, roupas comuns e tramas bem desenvolvidas, sem apelo para tentativas de “dominação do mundo”.

O filme abre com uma breve tomada subaquática (que viria a se tornar uma imagem recorrente na franquia) em que vemos um corpo de um homem boiando na água. Resgatado por pescadores franceses, balas são retiradas de suas costas e um chip contendo informações de um banco suíço é extraído de seu quadril. Quando o homem acorda, descobrimos que ele não tem memórias de quem é e sua única conexão com o passado é o tal chip. Com trocados no bolso e roupas rasgadas no corpo, o homem parte para descobrir quem ele é e nós vamos juntos, jogados no mistério cegamente assim como o personagem.

A progressão das descobertas que Jason Bourne (Matt Damon) faz é parte integral da estrutura do filme. Tudo vai acontecendo de maneira lógica, sem desnecessários saltos imaginativos. É bem verdade que, com a presença de Conklin (Chris Cooper) e Ward Abbott (Brian Cox) logo no início da trama, sabemos o que esperar das investigações do desmemoriado Bourne, mas esse processo de autodescoberta, que ele faz junto com a desavisada Marie (Franka Potente), aliciada logo no início de sua fuga pelo mundo, é muito bem conduzido por Liman em uma narrativa clara que não depende de explicações verbais detalhadas.

Mas talvez o aspecto mais intrigante do roteiro seja a filosofia que o perpassa. Quem é Jason Bourne? Uma máquina de matar sob o comando da CIA ou um ser humano comum, com aspirações de encontrar amor e ter uma família? Será que Bourne (nós, na verdade) pode rejeitar quem é ou reverter para uma versão sua anterior a determinados eventos traumáticos? Essas perguntas, que são efetiva e satisfatoriamente abordadas no filme, podem gerar profícuas discussões intermináveis. E essas mesmas perguntas dão uma profundidade à Bourne que não estamos acostumados a ver neste tipo de filme. Lidamos com um personagem perturbado, conflituoso ao extremo, sem saber se ele realmente quer descobrir quem ele é, apesar da cadeia de eventos que o envolve ser inevitável. Jason Bourne está preso em sua própria existência, mas quer loucamente escapar e ser livre para viver sua vida da maneira que bem entender.

E todas essas questões, que são bem presentes na película, estão lado-a-lado com a ação frenética, bem escrita por Gilroy e magistralmente executada por Liman com cortes rápidos, mas claros e uma câmera que, quando está com Bourne, só nos revela aquilo que é mostrado ao personagem, deixando-nos às escuras como o protagonista. Isso serve para mostrar que filmes de ação não precisam ser só ação. Podem ter cérebro também.

As atuações dos atores que formam o par principal são perfeitas para o que se exige de papéis assim. Matt Damon é um herói falho, relutante e, principalmente, angustiado. É visível a exasperação no rosto do ator a cada nova descoberta e é fantástico ver sua evolução de um completo “zé ninguém” até um eficiente agente secreto em plena forma. Damon nos convence que essa conversão é realmente possível e até provável. Franka Potente, cuja personagem que vive é envolvida no tsunami da vida de Jason Bourne, também nos brinda com uma atuação evolutiva muito natural, mesmo quando lida com a inevitável conexão amorosa que ocorre em menos de 24 horas de quando eles se conhecem. Aceitamos o que vemos porque entendemos que tanto Bourne quanto Marie querem ser pessoas comuns, como todos nós e, dessa forma, são falhos e caem em tentação. Além disso, eles verdadeiramente precisam um do outro.

A Identidade Bourne, de certa forma, ajudou a reinventar e revitalizar o gênero de espionagem galgando os passos de seus antecessores, mas construindo uma linguagem própria, com personagens e tramas inteligentes que são muito mais do que parecem ser em uma primeira análise.

A Identidade Bourne (The Bourne Identity, Estados Unidos/Alemanha/República Tcheca, 2002)
Direção: Doug Liman
Roteiro: Tony Gilroy, W. Blake Herron
Elenco: Matt Damon, Franka Potente, Chris Cooper, Clive Owen, Brian Cox, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Gabriel Mann, Walton Goggins, Josh Hamilton, Julia Stiles, Orso Maria Guerrini, Tim Dutton, Denis Braccini, Nicky Naudé
Duração:  119 min.

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23 comentários

Diego/SM 15 de abril de 2019 - 14:19

Filmaço (curiosamente, a primeira vez que vi acho que ainda era juvenil, meio idiotinha, pois lembro que não curti muito…rs) – aliás, trilogiaça! (acho que inigualável no quesito “ação inteligente” – aqui, no caso, só considero a trilogia mesmo: não vi o quarto filme, aquele com o Gavião Arqueiro – rs – , e achei, por outro lado, “Jason Bourne” bem medíocre, um filme “sem alma”, bem caça-níqueis)…

Mas este primeiro, “Identidade Bourne”, é um filme que se ficasse por si só já fechava redondinho – mas ao mesmo tempo deu também uma brecha pra (igualmente ótima) sequência…

Talvez, em termos de “filmes de espionagem”, esteja no meu top 3 juntamente com Missão Impossível (o primeiro e imbatível) e Casino Royale… – e isso apesar da fria master (digna de “True Lies”, o campeão do quesito!): aquela sequência do Bourne caindo pelo vão das escadas (acho que de algo tipo quarto ou quinto andar), se esborrachando lá embaixo e (apesar de cair em cima de um cadáver, ok, mas pô, naquela velocidade, e do quinto andar!!?? hehe), saindo ileso… (só um filme muito bom mesmo pra sobreviver também a essa sequência rsss)

Mas acho muito legal mesmo, especialmente, a “construção” (ou “reconstrução”) do personagem, se redescobrindo, redescobrindo suas habilidades pouco a pouco (como no primeiro aperitivo de cena de ação, quando dá um pau nos dois guardinhas suíços – e repentinamente, quase sem perceber, se vê com uma arma na mão…).

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planocritico 15 de abril de 2019 - 17:11

Essa trilogia é realmente quase irretocável. Mudou a forma como filmes de espião são feitos!

Abs,
Ritter.

Responder
Daniel 16 de outubro de 2017 - 21:46

Verdade

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JC 1 de agosto de 2016 - 12:42

Uma coisa que não entendi….com ele conseguiu entrar num cofre de um banco….sem documentos?

Responder
planocritico 1 de agosto de 2016 - 15:25

@JCnaWEB:disqus , ele tem o número da conta e a palma da mão dele por inteiro é escaneada e confirmada como legítima. A biometria nesse nível bate qualquer tipo de documento em papel que possa ser apresentado.

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 1 de agosto de 2016 - 15:25

@JCnaWEB:disqus , ele tem o número da conta e a palma da mão dele por inteiro é escaneada e confirmada como legítima. A biometria nesse nível bate qualquer tipo de documento em papel que possa ser apresentado.

Abs,
Ritter.

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JC 1 de agosto de 2016 - 18:11

Me passei totalmente…devo ter virado o rosto nessa hora.

Responder
JC 1 de agosto de 2016 - 18:11

Me passei totalmente…devo ter virado o rosto nessa hora.

Responder
planocritico 1 de agosto de 2016 - 18:27

Nesse filme, se você pisca você perde alguma coisa! He, he, he…

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 1 de agosto de 2016 - 18:27

Nesse filme, se você pisca você perde alguma coisa! He, he, he…

Abs,
Ritter.

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JC 1 de agosto de 2016 - 12:42

Uma coisa que não entendi….com ele conseguiu entrar num cofre de um banco….sem documentos?

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Nicolas Dias 27 de julho de 2016 - 00:56

Meu filme favorito de ação, na real é o meu parâmetro para filme de ação. Eu não gosto daqueles filmes que é só tiro, porrada e bomba com enredo raso, e motivações dos personagens fracas. Bourne para mim é uma obra prima do gênero, excelentes cenas de ação, uma narrativa frenética, mas com conteúdo, com uma trama bem amarrada e com personagens marcantes.

Responder
planocritico 27 de julho de 2016 - 15:38

@ni_forlan:disqus , é realmente um grande filme. Consegue reunir pancadaria com cérebro, coisa realmente rara hoje em dia. Um exemplo a ser seguido que, infelizmente, não foi seguido…

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 27 de julho de 2016 - 15:38

@ni_forlan:disqus , é realmente um grande filme. Consegue reunir pancadaria com cérebro, coisa realmente rara hoje em dia. Um exemplo a ser seguido que, infelizmente, não foi seguido…

Abs,
Ritter.

Responder
Nicolas Dias 27 de julho de 2016 - 00:56

Meu filme favorito de ação, na real é o meu parâmetro para filme de ação. Eu não gosto daqueles filmes que é só tiro, porrada e bomba com enredo raso, e motivações dos personagens fracas. Bourne para mim é uma obra prima do gênero, excelentes cenas de ação, uma narrativa frenética, mas com conteúdo, com uma trama bem amarrada e com personagens marcantes.

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Diogo Amorim 25 de julho de 2016 - 19:39

Eu assisti esse filme novamente um dia desses em uma maratona da série Bourne que eu decidi fazer em preparação para o novo filme que está perto de estrear(menos o Legado Bourne, que é totalmente dispensável) e quando procurei as críticas aqui no site estranhei porque não tinham estrelas na avaliação.

Mas agora, com a crítica sendo atualizada, posso dizer que concordo plenamente, filme sensacional assim como a franquia, e o Matt Damon já é definitivamente o Jason Bourne, espero que nunca mais cometam o erro de trocá-lo como fizeram em o Legado Bourne, que não ficou bom. Estou aguardando ansiosamente o novo filme, não perco por nada.

Responder
planocritico 26 de julho de 2016 - 16:14

@disqus_DYY1j6PAkX:disqus , as críticas de Bourne sofreram um pouco pelas mudanças que o site estava passando na época. Por essa semana, todas estarão corrigidas!

Abs,
Ritter.

Responder
planocritico 26 de julho de 2016 - 16:14

@disqus_DYY1j6PAkX:disqus , as críticas de Bourne sofreram um pouco pelas mudanças que o site estava passando na época. Por essa semana, todas estarão corrigidas!

Abs,
Ritter.

Responder
Diogo Amorim 25 de julho de 2016 - 19:39

Eu assisti esse filme novamente um dia desses em uma maratona da série Bourne que eu decidi fazer em preparação para o novo filme que está perto de estrear(menos o Legado Bourne, que é totalmente dispensável) e quando procurei as críticas aqui no site estranhei porque não tinham estrelas na avaliação.

Mas agora, com a crítica sendo atualizada, posso dizer que concordo plenamente, filme sensacional assim como a franquia, e o Matt Damon já é definitivamente o Jason Bourne, espero que nunca mais cometam o erro de trocá-lo como fizeram em o Legado Bourne, que não ficou bom. Estou aguardando ansiosamente o novo filme, não perco por nada.

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lauraatanasio 5 de setembro de 2012 - 00:27

Pooo! Eh bom ressaltar que eh o romance menos de mulherzinha e mais fera desse tipo de filme. Até 007 nessa fase nova todo com pinta de machao pecou nesse aspecto.
Franka potente faz uma namorada de filme de acao pra homem nenhum reclamar de frescurices femininas. E fez o favor de nao prolongar desnecessariamente a sua existencia no filme dois, de modo a desvirtar o proposito da coisa toda.

Responder
Ritter Fan 5 de setembro de 2012 - 02:04

Já vi que, com você, não tem frescura. É “pa-pum”. Mas concordo com esse aspecto do romance. A Franka Potente está ótima no primeiro filme e cumpre sua função de “iniciar” a sana vingativa de Bourne no segundo. Nem mais, nem menos. Essa trilogia é demais, uma das mais consistentes do cinema.

Responder
Leandro 4 de setembro de 2012 - 08:19

Primeiro, parabéns pelo texto, muito bom. E quanto ao filme,sem dúvidas é um dos melhores qe já assisti. Lembro qe dá primeira vez qe vi o filme – e issofaz uns 2 anos apenas -, tentei até trocar de canal, mas não consegui. Muito envolvente e com um excelente roteiro. Tenho uma dúvida: fiquei sabendo qe tá pra ser lançado um novo filme da série, oquarto senão me engano, isso procede?

Responder
Ritter Fan 4 de setembro de 2012 - 13:48

Fico feliz que tenha gostado da crítica. Respondendo sua pergunta, sim, o quarto filme será lançado no Brasil agora, nessa sexta-feira e você já pode ler nossas primeiras impressões aqui: https://planocritico.com/primeiro-plano-o-legado-bourne/

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