Crítica | A Ilha da Fantasia

Um ano atrás (2019), dois documentários foram realizados sobre o Fyre Festival, fraude histórica que levou milhares de pessoas a comprarem passagem para uma ilha que prometia ser o maior festival de música já feito. O que seria a realização de um sonho, para tal classe alta que pode adquirir os caríssimos ingressos, logo se tornou um pesadelo. De certa forma, A Ilha da Fantasia (versão de uma série de TV homônima, exibida entre 1977 e 1984) é o mais próximo da versão fictícia de tais acontecimentos. Por outro lado, o longa da Blumhouse Productions — especializada no terror — também reflete sobre a própria relação do espectador com o cinema. 

A premissa é simples: 5 pessoas são selecionadas para uma Ilha e, após uma experiência transformadora nela, deverão avaliar a estadia em um aplicativo de celular. O que faz este lugar tão especial, segundo seu anfitrião, Rourke (Michael Peña), é que ele realiza o desejo mais profundo de seus participantes, literalmente criando momentos que nunca aconteceram ou reencenando acontecimentos passados. Elena (Maggie Q) revive o pedido de casamento negado por ela que gera arrependimento até hoje. Melanie (Lucy Hale) tem a oportunidade de torturar a menina que fez bullying com ela na escola. Randall (Austin Stowell) quer ser soldado, sonho nunca concretizado a pedido de sua mãe. Por fim, os irmãos Bradley (Ryan Hansen) e Brax (Jimmy O. Yang) se entregam à luxúria de uma festa com sexo, drogas e bebidas. 

Na ordem dos desejos mencionados acima, temos situações que refletem os gêneros do romance, ação, terror e (uma derivação da) comédia. Ora, os protagonistas não são como nós, espectadores, que desejamos consumir tais perfis específicos de filmes? Bem, até aí, o que há demais? Antes das aventuras individuais começarem, Rourke alerta sobre uma regra: “Você deve ver a sua fantasia chegar na sua conclusão natural, não importa qual. As fantasias não funcionam como eu ou você podemos imaginar, mas elas sempre se exaurem exatamente como devem”. Novamente, não é mais uma frase sobre o público geral e que reafirma uma das máximas no cinema, na qual o espectador deve ser sempre passivo diante da obra, conforme Mauerhofer? Nós não interferimos no resultado dela, simplesmente nos entregamos diante daquela situação como reféns e aceitamos o que acontecerá diante de nossos olhos. Apenas para citar um exemplo popular e recente, muitas pessoas ficaram frustradas com o final agridoce de La La Land, mesmo sabendo que aquele era o mais coerente diante de tudo apresentado na obra. 

Obviamente, o que acontece em A Ilha da Fantasia é que cada sonho perfeito vai sendo totalmente destruído, fazendo com que os protagonistas descubram que, na verdade, aqueles desejos eram apenas uma primeira camada de pensamentos muito mais íntimos e escondidos de seus subconscientes. O personagem que queria “brincar de Call of Duty”, por exemplo, queria seguir os passos do pai, herói morto em uma operação militar. De mesmo modo, o filme também traz um convite para a reflexão sobre porque procuramos o cinema. Queremos ligar um romance perfeito para esquecermos de uma decepção amorosa no mundo real; gostamos da ação porque nos transportamos para dentro da tela e nos sentimos como heróis e etc. Porém, acima de tudo, o principal enfoque é no questionamento sobre nosso fascínio em ver o sofrimento das pessoas dentro do horror. Não é como se o diretor Jeff Wadlow estivesse fazendo moralismo ou uma cruzada contra o gênero, mas minimamente questionando sobre o sadismo que nunca se justifica certas obras.  

Ainda nessa lógica de destruição da experiência fílmica, Amos Vogel, em Film as Subversive Art, afirma que, para uma imersão completa, o espectador não pode ser distraído, uma vez que isto acabaria com a ilusão na qual ele se submeteu a participar. Por isso, é curioso como que, paulatinamente, algumas falhas vão sendo reveladas na estrutura das fantasias, como os aparecimentos de sangue pingando na parede, vultos de pessoas, justamente fazendo com que os personagens não sejam totalmente levados pela imersividade, criando um mínimo de desconfiança.

Até por isso, A Ilha da Fantasia parece entrar em uma temática importante que é a preocupação com o hiperrealismo de novas tecnologias, como as realidades virtuais. Usando de uma hipérbole narrativa, a morte de um daqueles personagens representa uma possível indicação de que há um limite para até aonde pode ir a experiência do espectador. Parafraseando Elick Felinto, em “História do Cinema Mundial”: “Tal desejo extremo de realismo e imediatez provavelmente representaria, caso realizado, a morte do cinema. Sem nenhuma espécie de distância, sem qualquer dimensão de materialidade, o cinema deixaria de existir em benefício de um desdobramento tecnológico da realidade, pois é na ambiguidade da imagem, na sua potência de pôr em questão o estatuto da realidade, que tem residido a força do cinema”. 

Antes das histórias se encontrarem, Wadlow aproveita para brincar ao máximo com os clichês de cada gênero proposto. Na comédia, a festa à la Projeto X marcada por cores vivas, a câmera que busca a sexualização do corpo e as piadas de stoners. No romance, a trilha melancólica, a opção por planos médios e close-ups que extraem sentimentalidade do rosto. No terror, os jumpscares, a trilha intrusiva, o celular usado como found-footage e a iluminação escura. Na ação, a câmera frenética, o slow-motion como recurso dramático e a tendência pelas brigas corporais. 

Assim, tudo vai se reunindo em prol de uma chocante descoberta para aquelas pessoas: no fundo, não eram elas que controlavam seus sonhos, mas havia alguém por trás daquilo tudo, manipulando suas emoções, induzindo-lhes a acreditar que elas detinham o poder. Por tudo que foi dito acima, nem preciso dizer que essa é a representação de um diretor. No fim, quando os protagonistas vão embora no avião, é como o espectador indo embora da sessão, transformado pelos minutos em que se deixou levar pelo poder da imagem, destrancando o peso guardado em seu subconsciente.

A Ilha da Fantasia (Fantasy Island) – Estados Unidos, 2020
Direção: Jeff Wadlow
Roteiro: Jillian Jacobs, Christoper Roach, Jeff Wadlow
Elenco: Michael Peña, Maggie Q, Lucy Hale, Austin Stowell, Jimmy O. Yang, Portia Doubleday, Ryan Hansen, Michael Rooker, Parisa Fitz-Henley, Mike Vogel, Kim Coates, Robbie Jones, Jeriya Benn
Duração: 109 min.  

MICHEL GUTWILEN . . . Entusiasta da política dos autores. Antes de se preocupar com o tema do filme, sempre atento a maneira como o diretor articula o mesmo através de uma unidade estilística. Acredita que há coisas muito mais interessantes na arte a se falar do que furos de roteiros. Prefere que suas críticas sejam vistas como uma extensão a obra, ajudando a sua discussão após a sessão e propondo novas ideias, ao invés que sejam usadas como recomendação para ir ao cinema. Se inspira muito na Cahiers du Cinema. Admira muito o cinema de Alfred Hitchcock, Robert Bresson, Fritz Lang, James Gray, Naomi Kawase, Orson Welles e Pedro Costa. Reconhece Jean Gabin como maior galã do cinema.