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Crítica | A Ilha da Fantasia

por Michel Gutwilen
657 views (a partir de agosto de 2020)

Um ano atrás (2019), dois documentários foram realizados sobre o Fyre Festival, fraude histórica que levou milhares de pessoas a comprarem passagem para uma ilha que prometia ser o maior festival de música já feito. O que seria a realização de um sonho, para tal classe alta que pode adquirir os caríssimos ingressos, logo se tornou um pesadelo. De certa forma, A Ilha da Fantasia (versão de uma série de TV homônima, exibida entre 1977 e 1984) é o mais próximo da versão fictícia de tais acontecimentos. Por outro lado, o longa da Blumhouse Productions — especializada no terror — também reflete sobre a própria relação do espectador com o cinema. 

A premissa é simples: 5 pessoas são selecionadas para uma Ilha e, após uma experiência transformadora nela, deverão avaliar a estadia em um aplicativo de celular. O que faz este lugar tão especial, segundo seu anfitrião, Rourke (Michael Peña), é que ele realiza o desejo mais profundo de seus participantes, literalmente criando momentos que nunca aconteceram ou reencenando acontecimentos passados. Elena (Maggie Q) revive o pedido de casamento negado por ela que gera arrependimento até hoje. Melanie (Lucy Hale) tem a oportunidade de torturar a menina que fez bullying com ela na escola. Randall (Austin Stowell) quer ser soldado, sonho nunca concretizado a pedido de sua mãe. Por fim, os irmãos Bradley (Ryan Hansen) e Brax (Jimmy O. Yang) se entregam à luxúria de uma festa com sexo, drogas e bebidas. 

Na ordem dos desejos mencionados acima, temos situações que refletem os gêneros do romance, ação, terror e (uma derivação da) comédia. Ora, os protagonistas não são como nós, espectadores, que desejamos consumir tais perfis específicos de filmes? Bem, até aí, o que há demais? Antes das aventuras individuais começarem, Rourke alerta sobre uma regra: “Você deve ver a sua fantasia chegar na sua conclusão natural, não importa qual. As fantasias não funcionam como eu ou você podemos imaginar, mas elas sempre se exaurem exatamente como devem”. Novamente, não é mais uma frase sobre o público geral e que reafirma uma das máximas no cinema, na qual o espectador deve ser sempre passivo diante da obra, conforme Mauerhofer? Nós não interferimos no resultado dela, simplesmente nos entregamos diante daquela situação como reféns e aceitamos o que acontecerá diante de nossos olhos. Apenas para citar um exemplo popular e recente, muitas pessoas ficaram frustradas com o final agridoce de La La Land, mesmo sabendo que aquele era o mais coerente diante de tudo apresentado na obra. 

Obviamente, o que acontece em A Ilha da Fantasia é que cada sonho perfeito vai sendo totalmente destruído, fazendo com que os protagonistas descubram que, na verdade, aqueles desejos eram apenas uma primeira camada de pensamentos muito mais íntimos e escondidos de seus subconscientes. O personagem que queria “brincar de Call of Duty”, por exemplo, queria seguir os passos do pai, herói morto em uma operação militar. De mesmo modo, o filme também traz um convite para a reflexão sobre porque procuramos o cinema. Queremos ligar um romance perfeito para esquecermos de uma decepção amorosa no mundo real; gostamos da ação porque nos transportamos para dentro da tela e nos sentimos como heróis e etc. Porém, acima de tudo, o principal enfoque é no questionamento sobre nosso fascínio em ver o sofrimento das pessoas dentro do horror. Não é como se o diretor Jeff Wadlow estivesse fazendo moralismo ou uma cruzada contra o gênero, mas minimamente questionando sobre o sadismo que nunca se justifica certas obras.  

Ainda nessa lógica de destruição da experiência fílmica, Amos Vogel, em Film as Subversive Art, afirma que, para uma imersão completa, o espectador não pode ser distraído, uma vez que isto acabaria com a ilusão na qual ele se submeteu a participar. Por isso, é curioso como que, paulatinamente, algumas falhas vão sendo reveladas na estrutura das fantasias, como os aparecimentos de sangue pingando na parede, vultos de pessoas, justamente fazendo com que os personagens não sejam totalmente levados pela imersividade, criando um mínimo de desconfiança.

Até por isso, A Ilha da Fantasia parece entrar em uma temática importante que é a preocupação com o hiperrealismo de novas tecnologias, como as realidades virtuais. Usando de uma hipérbole narrativa, a morte de um daqueles personagens representa uma possível indicação de que há um limite para até aonde pode ir a experiência do espectador. Parafraseando Elick Felinto, em “História do Cinema Mundial”: “Tal desejo extremo de realismo e imediatez provavelmente representaria, caso realizado, a morte do cinema. Sem nenhuma espécie de distância, sem qualquer dimensão de materialidade, o cinema deixaria de existir em benefício de um desdobramento tecnológico da realidade, pois é na ambiguidade da imagem, na sua potência de pôr em questão o estatuto da realidade, que tem residido a força do cinema”. 

Antes das histórias se encontrarem, Wadlow aproveita para brincar ao máximo com os clichês de cada gênero proposto. Na comédia, a festa à la Projeto X marcada por cores vivas, a câmera que busca a sexualização do corpo e as piadas de stoners. No romance, a trilha melancólica, a opção por planos médios e close-ups que extraem sentimentalidade do rosto. No terror, os jumpscares, a trilha intrusiva, o celular usado como found-footage e a iluminação escura. Na ação, a câmera frenética, o slow-motion como recurso dramático e a tendência pelas brigas corporais. 

Assim, tudo vai se reunindo em prol de uma chocante descoberta para aquelas pessoas: no fundo, não eram elas que controlavam seus sonhos, mas havia alguém por trás daquilo tudo, manipulando suas emoções, induzindo-lhes a acreditar que elas detinham o poder. Por tudo que foi dito acima, nem preciso dizer que essa é a representação de um diretor. No fim, quando os protagonistas vão embora no avião, é como o espectador indo embora da sessão, transformado pelos minutos em que se deixou levar pelo poder da imagem, destrancando o peso guardado em seu subconsciente.

A Ilha da Fantasia (Fantasy Island) – Estados Unidos, 2020
Direção: Jeff Wadlow
Roteiro: Jillian Jacobs, Christoper Roach, Jeff Wadlow
Elenco: Michael Peña, Maggie Q, Lucy Hale, Austin Stowell, Jimmy O. Yang, Portia Doubleday, Ryan Hansen, Michael Rooker, Parisa Fitz-Henley, Mike Vogel, Kim Coates, Robbie Jones, Jeriya Benn
Duração: 109 min.  

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9 comentários

Fernando BEzerra 3 de outubro de 2020 - 15:29

Essa foi a primeira resenha “positiva” do filme que li. Vou esperar para ver em casa, não era fã da série.

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Wagner Farias 13 de julho de 2020 - 13:57

Quando via a classificação, juro que não entendi nada, daria no máximo duas estrelas, mas depois lendo a crítica, entendi a sua visão do filme, e justifica sua classificação, tomando como base seus argumentos. Dito isso, digo que achei esse filme péssimo de todos aspectos. Principalmente pra mim que era fã da serie (a original, com Ricardo Montalban. A refilmagem com Malcom Macdowwel, não assisti), achei esse filme totalmente sem propósito. Nem sei por onde começar enumerar o que não gostei. Talvez o principal seja a necessidade de explicar o segredo da ilha (plagio de lost???), coisa que , ao que me lembro, nunca aconteceu na serie, até por que não era esse o foco, e sim as “fantasias”, dos hospedes, que serviam como uma jornada de auto conhecimento. O roteiro, tão cheio de furos que mais parece uma peneira. prupunha “regras para logo em seguida, quebra-las (as fantasias só poderiam se realizar na ilha, mas no final, não foi isso que aconteceu. A “água negra”, se transformava em todos os elementos da fantasia, mas tiveram que sequestrar uma `pessoa real” para realizar uma das fantasias). Era uma mistura de drama, ação, comédia, terror, tudo mal abordado e costurado de uma maneira que parecia um Frankenstein (o monstro). A comédia não dava graça, o terror não dava medo, o drama não era dramático, enfim, uma sucessão de clichês que não combinavam entre si. Vilanizaram o Sr. Roarke, (na serie ele não era vilão, ajudava as pessoas no processo de autoconhecimento que eram as fantasias, embora eslas tivessem sim, como no filme, consequencias que poderiam ser boas ou más) e, no final quiseram fazer uma redenção dele, Nem uma coisa nem outra funcionou. A cereja do bolo foi o Tatoo no final. Enfim, vendo bem, acho que na verdade, daria uma estrela pra esse filme. Mas talvez seja pela nostalgia da serie original, vai saber. Abraço a todos.

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Michel Gutwilen 13 de julho de 2020 - 15:53

Olá, Wagner. Primeiramente, obrigado pela compreensão. Acho que considero uma crítica bem sucedida quando o leitor, mesmo não concordando, entende a interpretação daquele que escreveu. Infelizmente, há muitos que ficam até revoltados quando um crítico ama/odeio um filme que eles odiaram/amaram. Um rapaz que odiou esse filme me xingou por ter dado essa nota.

Quanto as suas comparações com o seriado original, são muito interessantes, agradeço os seus comentários. Apenas para deixar claro porque eu não abordei na minha crítica: eu e muitos colegas de profissão seguimos uma ideologia de que um filme sempre funciona por si só, então nunca comparo um filme que se originou de uma série/livro/video game com o conteúdo original. Digo, claro que trazer paralelos pode ser interessante no texto, mas apenas como complemento, e nunca como algo qualitativo. Ainda não vi os 2 filmes que citarei a seguir, mas conheço colegas críticos que adoram O Último Mestre do Ar (Shaymalan) e Death Note (Adam Wingard) justamente porque não se prendem a comparação com os animes originais e adoram eles como filmes, enquanto boa parte do público odeia por fazerem comparação. (OBS: Eu posso vir a não gostar desses filmes quando assistí-los, mas certamente será por razões cinematográficas).

Outra coisa que também não é algo de meu feitio comentar são furos de roteiro. Sempre achei isso algo muito limitador na crítica, há colegas que só se prendem a isso e não analisam nenhuma escolha estilística do diretor, que é o principal. Para mim cinema, é a arte de COMO contar uma história visualmente (claro que depois veio o áudio e ele se tornou integrante da maneira de como contar histórias), e é nisso que eu me foco na crítica. Se for pegar filmes de diretores como Dario Argento, certamente haverá “furos”, mas imagina abordar uma obra prima como Suspiria através dessa ótica.

Abs, valeu pelo papo.

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Lavínia F. Santana 27 de maio de 2020 - 15:36

E n tinha costume d ler críticas e fazer interação, mas desde q recentemente descobri esse site mudei mto. Eu vi essa nota e n entendi nada. Daí li o texto e fiquei pasma como vc consegue explicar pq acha o filme bom assim. Msm eu n tendo gostado, seu texto me fez ver coisas q nunca teria pensado do filme. Parabéns viu.

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Michel Gutwilen 28 de maio de 2020 - 14:20

É muito gratificante ouvir um comentário desses, Lavínia. Nosso objetivo com a crítica cinematográfica nunca é impor verdades absolutas ou convencer pessoas, mas apenas o nosso ponto de vista sobre o filme e nossos sentimentos com ele (claro, isso aliado ao conhecimento técnico de linguagem cinematográfica). Quando alguém não concorda com nossa opinião, mas consegue entendê-lá, é o maior sinal de que estamos no caminho certo. Por isso, eu sou contra as pessoas usarem a crítica como “guia de consumo”, ou seja, procurar críticas para saber se vale a pena ou não ver um filme, porque aí se elas não gostam do filme que o crítico elogiou, elas vão culpá-lo. Meu tipo de texto é muito mais propício para ser lido por alguém que já assistiu ao filme. Até por tudo que eu falei, eu acredito que notas são coisas superestimadas demais pelo público no geral. Tem gente que nem lê texto e só olha as estrelinhas. Sobre A Ilha da Fantasia mais especificamente, eu acho que de todas as críticas que já fiz até hoje, esta foi a que mais remei contra a maré, tanto de público quanto dos próprios colegas críticos. Toda essa questão de passividade do espectador e a influência psicológica do cinema nas pessoas é um tema que venho estudado recentemente, então quando vi o filme, essa camada metalinguística surgiu de forma muito natural para mim. Muito legal toda essa sua interação com a equipe do Plano Crítico nas nossas postagens, é sempre muito proveitoso trocar ideia com os leitores, abs.

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nuwgott 8 de maio de 2020 - 00:03

“Porém, acima de tudo, o principal enfoque é no questionamento sobre nosso fascínio em ver o sofrimento das pessoas dentro do horror.”

Na minha opinião, quem assiste Jogos Mortais ou coisas do tipo, precisa de tratamento psiquiátrico. Nada justifica.

Um ex-amigo meu já assistiu três vezes The Servian Movie e foi no momento que ele me contou que eu percebi que havia se tornado um ex-amigo.

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Beatriz Lynch 8 de maio de 2020 - 11:11

Eu diria que o primeiro Jogos Mortais até tinha uma trama bem interessante, e diria até com um dos melhores plot twists da historia do cinema, e que merece reconhecimento até pelo baixo orçamento. Ja os seguintes virou uma loucura exagerada de muito mal gosto, que realmente não da pra levar a serio, infelizmente a saida de James Whan matou a franquia (apesar de gostar um pouco do segundo, mesmo com muitos exageros).

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Lara Loira 8 de maio de 2020 - 23:36

odeio esses tipos de filmes

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Michel Gutwilen 15 de maio de 2020 - 11:50

Olha, eu não condeno a temática de filmes a priori, acho que tudo depende do contexto e de sua utilização dentro da obra, por isso sempre vale a pena conferir. Um dos meus filmes preferidos é o extremamente gráfico Audition, do Takashi Miike. E eu acho que toda a tortura do filme tem propósito, até sob uma ótica feminista, mas não vou falar aqui porque senão daria spoiler.

3x Serbian Movie é tenso, hein? Hahahahahahaha

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