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Crítica | A Ilha do Tesouro (1950)

por Ritter Fan
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A versão da Disney para o clássico A Ilha do Tesouro, escrito por Robert Louis Stevenson e publicado pela primeira vez entre 1881 e 1882, foi a quinta adaptação audiovisual da obra e a primeira a cores, além de ter se tornado uma das mais famosas, mesmo considerando todas essas décadas desde seu lançamento. Com roteiro adaptado por Lawrence Edward Watkin em apenas seu terceiro trabalho e direção de Byron Haskin, que viria a capitanear uma das mais conhecidas versões de A Guerra dos Mundos, o longa não só ajudou a sedimentar a imagem arquetípica do pirata no Cinema como notabilizou Robert Newton em um de seus grandes papeis, o do memorável Long John Silver.

Se o maior tesouro do filme é mesmo a atuação de Newton como o “cozinheiro pirata” que organiza um motim no navio Hispaniola para poder meter as mãos no mítico tesouro do Capitão Flint, para quem trabalhara anos antes, não podemos esquecer do cuidado que o roteiro tem em adaptar a obra de Stevenson de forma a criar uma conexão maior do garoto Jim Hawkins (Bobby Driscoll, a voz de Peter Pan no longa animado de 1953) com Long John Silver, algo que é obtido com muita inteligência com a redução drástica de todo o preâmbulo que explica como Hawkins obteve o mapa, e alongando o momento seguinte em que a tripulação do navio é escolhida por intermédio da esperteza de Silver. Com isso, o filme tem um começo ágil e muito bem compassado, que estabelece tudo o que precisamos saber para seu desenvolvimento, com Haskin extraindo o máximo da ligação de pai e filho que Driscoll e Newton acabam estabelecendo entre seus respectivos personagens, algo que, arrisco dizer, é mais bem construído aqui do que no romance original.

Haskin também é muito feliz da operacionalização do motim e na chegada à Ilha do Tesouro ajudado pelo design de produção que se esmera com os detalhados cenários de estúdio, figurinos e penteados e, claro, toda a fotografia fortemente colorida do lendário Freddie Young, que seria responsável por obras-primas como Lawrence da Arábia e Doutor Jivago na década seguinte. Além disso, o diretor certamente percebeu que Newton e seu Long John Silver seria o grande trunfo do longa e dedica muito tempo ao pirata sem perna, mas de bom coração e seu simpático papagaio Capitão Flint. Fica evidente que Newton mergulhou em seu personagem com a consciência de estar criando, para o audiovisual, o arquétipo de pirata que Stevenson criou para a literatura, algo que fica mais evidente ainda pela forma como ele fala, forçando os “Rs” e criando caretas expressivas que são, pela falta de palavra melhor, simplesmente adoráveis.

No entanto, mesmo com duração econômica de pouco mais de 90 minutos, há uma certa barriga narrativa forçada pelo roteiro de Watkin que estabelece um vai-e-vem de Hawkins da ilha ao navio que talvez tivesse merecido alguns cortes por parte de Haskin. A grande verdade, porém, é que esse filme consegue evocar o mesmo tipo de sentimento de aventura infanto-juvenil de amadurecimento que o romance clássico usa como linha mestra. Há um senso de deslumbramento na mesma proporção em que há violência (leve, mas há) e doçura, amizade e inimizade, além de surpresas bem colocadas como a presença providencial de Ben Gunn (Geoffrey Wilkinson em seu único trabalho para o Cinema, de apenas dois no audiovisual), abandonado na ilha cinco anos antes por Silver.

A Ilha do Tesouro é uma deliciosa Sessão da Tarde que, assim como o livro, não cansa nunca. Com uma atuação monstruosa de Robert Newton criando O PIRATA do audiovisual e uma qualidade de produção imbatível, o filme é capaz, como o romance, de atravessar incólume gerações e gerações de cinéfilos sem sofrer um arranhão sequer em sua reputação. Um inestimável tesouro em seu próprio direito, sem dúvida alguma.

A Ilha do Tesouro (Treasure Island – EUA/Reino Unido, 1950)
Direção: Byron Haskin
Roteiro: Lawrence Edward Watkin (baseado em romance de Robert Louis Stevenson)
Elenco: Bobby Driscoll, Robert Newton, Basil Sydney, Walter Fitzgerald, Denis O’Dea, Finlay Currie, Ralph Truman, Geoffrey Keen, Geoffrey Wilkinson, John Laurie, Francis de Wolff, David Davies, John Gregson, Andrew Blackett, William Devlin, Howard Douglas, Harry Locke, Sam Kydd, Stephen Jack, Harold Jamieson, Diarmuid Kelly, Patrick Troughton
Duração: 96 min.

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