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Crítica | A Ilusão Viaja de Bonde

por Ritter Fan
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A prolífica – ainda que não totalmente brilhante – Fase Mexicana de Luis Buñuel continuou com A Ilusão Viaja de Bonde, que pode ser chamado, sem muito medo de errar, de seu segundo road movie, seguindo Subida ao Céu, de 1952. Dessa vez, porém, no lugar de um ônibus, Buñuel trabalhou com um ícone urbano da época, o bonde, o que acaba funcionando como uma fotografia de um México citadino, frenético, com todas as mazelas que decorrem daí. A ideia, por si só, é sensacional, não é mesmo?

Pois bem, o filme conta a história de dois amigos que trabalham na empresa de bondes da Cidade do México. Em determinado dia, eles descobrem que o bonde onde trabalham, quase uma peça de museu, irá para o ferro velho e o emprego deles, de repente, fica ameaçado. Nesse mesmo dia, mais tarde, eles participam de uma festa, ficam bêbados, e partem para furtar o bonde. Depois de passarem a noite inteira transportando gratuitamente as pessoas, eles acordam sóbrios e veem a enrascada em que se meteram e tentam devolver o bonde para a empresa. Pelas mais diversas – e engraçadas – razões eles não conseguem e o filme sai explorando cada uma delas, revelando-nos um pouco do México e sua diversidade ao longo do caminho.

Como dito, o filme lembra um pouco Subida ao Céu, em que o mestre trata do mesmo assunto, mas durante uma viagem de ônibus pelo interior do país. No entanto, desta feita, A Ilusão Viaja de Bonde é mais leve enquanto que Subida ao Céu tem uma conotação pesada e fortemente sexual.

A Ilusão Viaja de Bonde é, basicamente, uma boa comédia, um road movie original e, claro, uma forte crítica social que contrapõe o rico ao pobre, o patrão ao empregado, o capitalismo ao socialismo. Mas o filme não é um libelo socialista e conta com franqueza o sofrimento de uma população oprimida por inflação altíssima, escassez de comida e como as pessoas lidam com isso, sempre tentando dar a volta por cima e encarando a vida da melhor maneira possível.

Vale notar que esse filme é um dos poucos em que Buñuel não se envolveu ativamente na elaboração do roteiro. Conta a história que essa fita foi encomendada pelo sistema de transporte público da Cidade do México (Servicio de Transportes Eléctricos del D.F.) para desfazer a imagem ruim de um acidente que ocorrera no ano anterior. Era para ser, na realidade, uma longa propaganda das qualidades do sistema, mas, nas mãos de Buñuel, o roteiro que vemos na tela está longe de passar essa mensagem. Sim, trata-se de uma comédia e, se vista dessa maneira bem rasa, até poderia funcionar como um comercial de 90 minutos, mas há muito “Buñuel” por debaixo da camada mais simples do filme, com as já mencionadas críticas sociais e, claro, muita iconoclastia religiosa, com especial destaque para a encenação grotesca da Gênesis no início da obra.

A bela Lilia Prado e Fernando Soto, atores que já haviam contribuído com Buñuel em  Subida ao Céu e A Filha do Engano, divertem-se nessa película, acompanhados de Carlos Navarro. Todos estão muito à vontade fazendo comédia e passam essa tranquilidade ao espectador, que logo se sente contagiado.

No entanto, A Ilusão Viaja de Bonde é um daqueles filmes menores de Buñuel, feito mais com o objetivo de ganhar o dinheiro de subsistência do que pela arte, característica comum nessa época na filmografia do diretor. Mas esse road movie urbano é cativante e divertirá os espectadores que se deixarem levar pelas piadas e pela crítica social envelopada como um apetitoso burrito.

  • Crítica originalmente publicada em 30 de abril de 2013. Revisada para republicação em 16/05/2020, em comemoração aos 120 anos de nascimento do diretor e da elaboração da versão definitiva de seu Especial aqui no Plano Crítico.

A Ilusão Viaja de Bonde (La ilusión Viaja en Tranvía, México – 1954)
Direção: Luís Buñuel
Roteiro: José Revueltas, Mauricio de la Serna, Luis Alcoriza, Juan de la Cabada
Elenco: Lilia Prado, Carlos Navarro, Fernando Soto (Fernando Soto ‘Mantequilla’), Agustín Isunza, Miguel Manzano, Guillermo Bravo Sosa, José Pidal, Felipe Montoya, Javier de la Parra, Paz Villegas, Conchita Gentil Arcos, Diana Ochoa, Víctor Alcocer
Duração: 90 min.

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