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Crítica | A Incendiária (1980), de Stephen King

por Rafael Lima
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A paternidade e o fim da infância são temas importantes dentro da obra de Stephen King. Romances como A Hora Do Vampiro e O Iluminado colocavam jovens sendo obrigados a amadurecer diante de situações horríveis e trágicas, com o fim da inocência sempre sendo retratado como um processo sofrido. O mesmo O Iluminado também tratava dos medos que circundam a paternidade, como o temor de não ser capaz de proteger os filhos, algo também presente em O Cemitério (1983). Pois estas duas temáticas que tanto interessam ao autor estão no coração de A Incendiária (1980) que acompanha um pai e sua filha em uma fuga desesperada pelos Estados Unidos enquanto são perseguidos por uma sombria organização governamental.

Na trama, Andy McGee e Vicki Tomlinson se submetem a experiências com alucinógenos na faculdade para ganhar dinheiro, sem saber que estavam sendo cobaias de um soro militar criado pela organização conhecida como A Oficina. O soro muda a genética do casal, e enquanto Vicki desenvolve uma telecinese fraca, Andy adquire o poder de controlar mentes, embora tenha enxaquecas terríveis a cada vez que o usa. Anos depois, Charlie, a filha do casal, desenvolve poderes pirocinéticos cada vez maiores; que diferente dos poderes do pai, não a prejudicam. Quando Charlie faz oito anos, A Oficina retorna para reclamar a menina, em uma operação que resulta na morte de Vicki e força Andy e a filha a fugirem. Enquanto pai e filha correm pelo país tentando encontrar uma forma de se esconderem, A Oficina envia John Rainbird, seu mais cruel e habilidoso agente, no encalço da dupla. Mas o psicótico Rainbird tem os seus próprios planos para a pequena Charlie.

King configura A Incendiária como um movimentado Thriller de ficção científica ao jogar o leitor no meio da ação logo nas primeiras páginas, em uma passagem onde Andy tem que usar os seus poderes hipnóticos para escapar com a filha de agentes da Oficina em plena Nova York, tendo inclusive que apelar para os poderes da menina para efetuar a fuga com sucesso. Só depois de estabelecer a urgência do Plot central é que o autor, através de flashbacks, passa a nos contar quem são esse pai e essa filha, e como eles chegaram à situação em que os conhecemos. A trama se mantém em constante movimento durante boa parte do romance, mas o ritmo acelerado não atrapalha o desenvolvimento da relação entre Charlie e Andy, que é o coração da história.

O protagonista enfrenta um grande dilema ao longo do livro, pois não só se vê viúvo, tendo que cuidar da filha pequena, mas perseguido por uma organização maligna. O uso de seus poderes de controle mental é vital para que ele e Charlie sobrevivam, ironicamente, torna-se claro que ele não vai sobreviver por muito tempo se continuar a usar esses poderes, o que significa deixar a filha sozinha em um mundo hostil. King constrói este conflito de forma verossímil dentro do universo fantástico que cria, já que desde o começo vemos um Andy apavorado, sentindo que de um jeito ou de outro vai falhar com a filha, que acredito, seja o grande medo de qualquer pai.

Charlie é igualmente bem tratada. Fica claro que os poderes de Charlie são uma metáfora para o seu amadurecimento, um recurso que King já havia utilizado para metaforizar a puberdade em Carrie. Mas A Incendiária traz uma menina que perde a inocência cedo demais, ao ser jogada em um mundo que a trata como um monstro. O assustador é que ela tem o potencial para ser um. No primeiro terço da obra, King nos dá só pequenas amostras dos poderes da menina, mostrando uma criança que pode botar fogo nos sapatos de alguém com a mente, mas que não parece ser a arma poderosa que A Oficina diz que ela é. Até que, em uma passagem aterrorizante, vemos a extensão do poder da garota (onde King descreve imagens absolutamente surreais e brutais), e o pior, como este poder inebria Charlie ao ponto de ela mesma se assustar com o seu comportamento quando os seus inimigos começam a queimar.

Ao chegar à metade da obra o autor desacelera consideravelmente a narrativa ao separar a dupla principal. A leitura soa um pouco mais truncada nestes trechos, mas o ritmo mais lento dessas passagens é essencial para tornar o arco dramático de Andy muito mais humano e crível. Já a pequena Charlie entra em uma jornada interessante não só de empoderamento, mas de consciência do poder que é muito bem desenhada, já que o autor precisava equilibrar o crescimento de confiança da garota sem torná-la excessivamente arrogante, mantendo o seu orgulho infantil. A relação que King cria entre Charlie e o perigoso Rainbird nestas passagens trazem alguns dos grandes momentos do livro pelo crescendo de tensão construído que culmina em um clímax explosivo.

O romance, como muitas obras publicadas no fim dos anos 70 e começo dos anos 80, lança uma visão desconfiada ao governo norte americano e das instituições, começando pela origem dos poderes dos McGee, inspirada no infame projeto MK Ultra. John Rainbird (não por coincidência, um veterano do Vietnã) pode ser o personagem assustador da trama, com o seu desejo de morte e sua obsessão em matar Charlie só após estabelecer uma ligação com ela, mas o vilão que ilustra o grande mal da história é o líder da Oficina, o Coronel Hollister. O coronel destrói vidas com telefonemas de forma absolutamente corriqueira, embora fique desconfortável com os detalhes das missões com os quais Raimbird o provoca. A mensagem parece clara: os assassinos bizarros ou monstros sobrenaturais podem ser assustadores e legais, mas o verdadeiro mal é causado pelas pessoas no poder, com uma caneta e um telefone. 

A Incendiária acaba sendo um romance pouco lembrado de King, talvez por ter sido publicado próximo a outras obras do autor que se tornaram clássicas; como Zona Morta e Cão Raivoso. Mas o livro traz uma história bastante engajante, que nos envolve na jornada de um pai que precisa superar os seus próprios limites e medos para proteger a filha e uma menina forçada a amadurecer cedo demais para não se transformar no monstro que o governo diz que ela é . Trata-se de um Thriller de conspiração e ficção científica com forte apelo emocional, ao qual o leitor dificilmente vai ficar indiferente. A tradução mais recente do livro foi publicada pela Suma das Letras em 2018, em uma belíssima edição de capa dura, que conta ainda com um interessante artigo de Grady Henderson sobre a obra.

A Incendiária (Firestarter) – Estados Unidos, 1980
Autor: Stephen King
Editora Original: Viking Press
Editora Brasileira: Suma das Letras
Tradução: Regiane Winarsk
448 Páginas

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