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Crítica | A Incrível Aventura de Rick Baker

por Ritter Fan
268 views (a partir de agosto de 2020)

Sem dúvida alguma, o neozelandês Taika Waititi sabe fazer o máximo com sua pegada leve e inteligente que tenta imprimir em suas criações. Foi assim em Loucos por Nada e em O Que Fazemos nas Sombras e também em A Incrível Aventura de Rick Baker que continua na verve da comédia, mas com uma bela camada de fábula, a partir do romance Wild Pork and Watercress, de Barry Crump, também neozelandês.

Passado integralmente nas florestas neozelandesas, cuja beleza Waititi usa eficientemente como um personagem, o filme narra a história da adoção de Ricky Baker (Julian Dennison), um delinquente juvenil abandonado por sua mãe e que tem Tupac Shakur como ídolo, por um casal já de alguma idade – a amorosa Bella (Rima Te Wiata) e o distante Hec (Sam Neill) – que vive em uma fazenda no meio do nada com coisa alguma. O que parece inicialmente ser uma conexão impossível, logo torna-se uma bela relação de pais improváveis para um jovem problemático.

Mas o grande catalisador da narrativa e que torna o filme uma história de amadurecimento – tanto para Ricky quanto para Herc, este de seu modo, claro – é o inesperado e trágico falecimento de Bella. Hec diz a Ricky que ele será novamente colocado no sistema de adoção, o que leva o garoto a “fingir suicídio” e fugir sozinho pela floresta, sendo, obviamente, seguido por Hec, o que começa a fortalecer a ligação entre os dois. O segundo estágio da obra, por assim dizer, é o que o toma a narrativa central, com a lembrança de Bella funcionando como a força motriz para a jornada dos dois pelos cantos ancestrais do país em que vivem. Começa, assim, uma busca por identidade e por amor, com agradabilíssimas pitadas cômicas que o jovem Dennison e o veterano Neill lidam com naturalidade, estabelecendo uma improvável, mas belíssima química entre os dois atores tão distantes quanto próximos pela idade.

Na marcha inexorável ao fim “explosivo”, mas do jeitinho de Waititi, Ricky aprende a ouvir a floresta, a comungar com seus ancestrais, a fazer as pazes com seu rebelde interior, ao passo que Herc aprende a ensinar, a valorizar sua vida com Bella e, claro, a ser um pai. Sim, a estrutura narrativa não deixa dúvidas sobre o que vai acontecer a partir da morte de Bella, mas isso não reduz a força da obra, que pede ao espectador calma e tranquilidade para apreciar a vista, para pausar um pouco as atribulações diárias para observar dois seres profundamente diferentes mostrando que eles não são tão diferentes assim. Se pararmos para pensar, também não somos tão diferentes uns dos outros, mas nós deixamos que percepções diferentes sobre as mesmas coisas nos separem, no lugar de nos unirem. Em A Incrível Aventura de Rick Baker, a diferença une.

A simplicidade narrativa que o roteiro de Waititi imprime tem o objetivo de nos deixar contemplar sua obra. As atuações da dupla principal são radiantes e vibrantes, com Dennison jogando muito bem com sua “fofura” natural e Neill com sua rabugice típica. E a fotografia naturalista de Lachlan Milne parece usar a luz natural da floresta – ainda que eu desconfie que ele tenha feito uso também de luz artificial, embora tentando escondê-la – para trabalhar de forma orgânica os personagens dentro de uma estrutura viva maior. Com apenas as cores de seus figurinos para diferenciá-los mais fortemente da mata ao redor, Milne consegue criar uma espécie e amálgama entre homem e natureza, sem sacrificar a “personalidade” de ambos, em um resultado harmônico e muito bonito.

O filme, porém, trafega perigosamente no limite do que a história permite em termos de duração, com algumas sequência – como na casa da menina – que parecem mais alongadas do que deveriam ser e que retiram um pouco o ritmo natural da narrativa. O mesmo vale para o final um pouco movimentado demais, em dissonância com a relativa tranquilidade e charme de tudo o que veio antes, mas não é nada que efetivamente detraia da experiência.

Taika Waititi, aos pouquinhos, vai deixando uma lição de vida vazar por entre os “poros” fabulescos de A Incrível Aventura de Rick Baker, aquecendo corações no processo e deixando às escâncaras esse mundo nervoso em que vivemos. Às vezes é bom parar, respirar e observar o que e quem está a seu redor.

A Incrível Aventura de Rick Baker (The Hunt for the Wilderpeople, Nova Zelândia – 2016)
Direção: Taika Waititi
Roteiro: Taika Waititi (baseado no romance de Barry Crump)
Elenco: Sam Neill, Julian Dennison, Rima Te Wiata, Rachel House, Tioreore Ngatai-Melbourne, Oscar Kightley, Stan Walker, Mike Minogue, Cohen Holloway
Duração: 101 min.

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6 comentários

Vinicius Maestá 22 de fevereiro de 2020 - 07:54

É muito legar ver diretores surgindo e já estabelecendo sua pegada autoral. Taika já se tornou um dos cineastas que estão no meu radar para ficar ligado nos seus trabalhos vindouros. Filme divertidíssimo. A parte de O Senhor dos Anéis é sensacional!

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planocritico 1 de março de 2020 - 14:23

Esse filme é mesmo muito bacana. Lírico e emocionante, mas mantendo um tom cômico e aventuresco muito divertido.

Abs,
Ritter.

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planocritico 17 de outubro de 2018 - 08:52

Confesso que fiquei na dúvida se eu poderia escrever sobre isso, pois a morte tem um peso grande mesmo sendo um alicerce para toda a narrativa. Mas não tive como fugir de mencionar.

Abs,
Ritter.

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Filipe Isaías 15 de janeiro de 2018 - 14:53

Eu acho esse filme com tanto coração. O filme tem vários momentos divertidissimos, como o “Você é Sarah Connor”, mas também tem espaço pra investimento emocional. Pra mim foi isso o que faltou no filme do Thor.

Abs.

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planocritico 20 de janeiro de 2018 - 20:10

Sim, o filme é coração puro!

Abs,
Ritter.

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Cleison Miguel 15 de outubro de 2018 - 09:58

Assisti neste final de semana, adorei o filme… mas fico feliz de não ter lido a crítica antes, ainda que a morte da tia ocorra na primeira parte da narrativa, foi uma das coisas que me chocou tipo: “não creio que ela morreu agora que o Rick acabou de se apegar a alguém… WTF”…. rs.

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