Crítica | A Independência do Brasil em Quadrinhos

estrelas 4

Escrita em plena ditadura militar, essa história da independência do Brasil não poderia ter cunho mais patriota, didático e historicamente elitista, um retrato muito peculiar do Brasil do “ame-o ou deixei-o”. Escrita por Pedro Anísio e ilustrada pelo grande Eugênio Colonnese, estava saga em quadrinhos foi publicada pela primeira vez em edição pré-comemorativa do sesquicentenário da independência (1822 – 1972), ganhando, ao longo dos outros, republicações especiais e comuns.

Com uma larga abrangência histórica, Pedro Anísio narra os acontecimentos anteriores e posteriores ao famoso, questionável e desimportante grito (leia-se: a polêmica se o tal grito existiu ou não) de “Independência ou Morte!”, apontando uma série de revoltas brasileiras, das quais podemos citar a Insurreição Pernambucana, a Guerra dos Emboabas, a Guerra dos Mascates e a Inconfidência Mineira, para então chegar ao momento em que a Família Real aportou no Brasil e trouxe (sem saber) as sementes do futuro país independente.

De início já é interessante o modo como o autor liga fatos que tiveram motivações muito particulares ou mesmo diversas de uma união geral com o território nacional. E, conforme passamos as páginas, nos impressionamos com a visão patriótica que o autor dá a diversas personalidades que jamais a tiveram, como Zumbi dos Palmares, por exemplo. É como se pessoas separadas no tempo por séculos (Padre Anchieta e D.Pedro I) tivessem em mente o exato objetivo de manter os alicerces da grande nação brasileira, com a visão de um Estado forte, tradicional e lucrativo. Não é preciso ser historiador para perceber a abordagem tendenciosa disso.

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Sobre essa questão da abordagem, é importante que nos lembremos da influência do momento histórico sobre o autor. É certo que aí entram questões pessoais e ideologias políticas próprias, mas toda obra de arte é produto de seu tempo histórico, seja para reafirmá-lo, seja para negá-lo, de modo que o roteiro de Pedro Anísio não foge à regra e se encaixa justamente em um período onde louvar exageradamente o valor da pátria, os heróis nacionais e os ícones, mártires e artesãos da nossa “liberdade” era a “coisa certa a se fazer”.

Aqui, a história se abre e fecha com alusões aos nossos pioneiros e heróis, pessoas que lutaram e derramaram o sangue para que o Brasil conseguisse se livrar do jugo português. A essa abordagem de “História dos vencedores”, percebemos que a única alusão mais próxima de uma participação popular no processo vem pelo papel de Maria Quitéria na luta pela independência, na Bahia.

Nesse turbilhão de dados e fatos históricos, temos um roteiro bastante enciclopédico sobre a independência. Não se trata de um texto ruim, muito pelo contrário contrário. Ele é bastante informativo… mas infelizmente pouco dinâmico. E antes que alguém se levante e diga que é impossível trabalhar temas históricos com dinamismo, peço que leia Epicuro, o Sábio e perceba que é perfeitamente possível dar mais vida e menos verborragia didática a temas históricos em HQs. Como disse, não vejo nisso um defeito extremo, mas diante desse modelo, a leitura fica bem menos atraente.

Eugênio Colonnese faz um belo desenho de traços finos e em preto e branco, uma coisa linda de se ver. Se fosse apontar algo que não gostei em sua arte, diria que foi a representação da velhice, que praticamente não existe, nos rostos dos personagens. Talvez por uma predefinição dos editores, todos parecem sempre muito jovens e simpáticos, não há alterações de emoção ou traços do passar do tempo na feição das pessoas. Mas este detalhe não diminui o trabalho do artista, a quem muito admiro e que faz uma ótima transposição de muitas pinturas do século XIX, como os quadros da coroação de Pedro I e mesmo a sua figuração na fase adulta para as páginas do quadrinho.

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A Independência do Brasil em Quadrinhos é um documento histórico e leitura obrigatória para historiadores e entusiastas da nona arte no país. Apesar das várias ressalvas em relação à abordagem do objeto em questão, o resultado final é bastante positivo. É interessante ler sobre isso hoje, quando temos uma enxurrada de publicações históricas e questionamentos sobre períodos diversos da História de nosso país, sendo a independência um evento revisitado constantemente. Esta é mais uma das muitas versões da História.

A Independência do Brasil em Quadrinhos (Brasil, 1970)
Roteiro: Pedro Anísio
Arte: Eugênio Colonnese
Editora: Brasil América

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.