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Crítica | A Iniciação (1984)

por Leonardo Campos
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Mortes sangrentas e criativas. Nudez gratuita e constante. Pesadelos do passado e uma história de vingança (que não precisam ser convincente). Um ceifador de vidas que pode aparecer diante do público com seu traje excêntrico, o que inclui uma máscara e seu arsenal de armas brancas. Quando não aparece assim, geralmente ocupa a posição subjetiva da câmera, haja vista a manutenção do mistério até o desfecho da narrativa, momento de descobertas e resolução dos conflitos. Eis os elementos mais básicos de um filme slasher. A Iniciação, é um deles. Lançado em 1984, tendo participação de Vera Miles, uma das atrizes principais da obra-prima Psicose, de Alfred Hitchcock, o filme contém todos os elementos descritos acima e uma atmosfera mais densa que a maioria das produções da época.

O problema é que o público não comprou muito a ideia e o filme tornou-se uma dessas produções cult com legião restrita de fãs, relançado e visto mais como curiosidade e análise histórica, detalhes que contam mais que seu acesso exclusivo como entretenimento. Familiarizados com Jason, Michael e recém-apresentados ao desfigurado Freddy, o público slasher geralmente se interessava por narrativas com mais ação, algo que demora de ocorrer em A Iniciação, mas quando começa, não para mais até o desfecho revelador de uma reviravolta que funciona, mas sem sombra de dúvida, inspirou-se em alguns detalhes de Feliz Aniversário Para Mim, até mesmo na condução musical de Gabriel Black e Lance Ong, semelhantes ao slasher canadense.

Quando chegou aos cinemas, o filme não causou nenhum choque ou surpresa, pois as regras da cartilha básica do slasher já estavam estabelecidas pela indústria. Graças ao trabalho de George Tirl na direção de fotografia, o filme nos faz mergulhar numa atmosfera que nos lembra o clima de pesadelo e incerteza entre o que é real e o que é imaginário, comuns ao cinema de Brian De Palma, comparação que não fica apenas na tentativa de emular os aspectos estéticos do cineasta, mas também ao encaminhamento da história que envolve traição, vingança, família e irmãs indesejadas, tudo dirigido sob o olhar dos cineastas Larry Stewart e Peter Crane, guiados pelo roteiro de Charles Pratt Jr.

Na trama, somos apresentados ao cotidiano de Kelly (Daphne Zuniga), jovem caloura que passa bastante tempo nos corredores e demais espaços da faculdade, em pleno anos 1980, numa narrativa slasher. O que esperar? Rapazes bobões em busca de sexo, garotas disputando o posto de “melhor vadia”, bebidas como alternativa para desanuviar dos problemas pessoais e outros desprendimentos das responsabilidades, comportamentos típicos da juventude transviada da época. Ao revelar seu pesadelo diário ao professor, ele revela que a garota possui diversos elementos clássicos da psicanálise em sua “aventura mental”, isto é, um pesadelo constante que unifica a mãe, o pai, o espelho e o fogo.

No aberrante obstáculo que impede o seu sono pleno, ela supostamente é a criança que acorda e bate no quarto da mãe. Lá, ela a encontra num comprometedor ato sexual, pois o homem que a envolve numa redoma de prazer não é o seu pai, membro da família que chega depois e flagra a situação. Após atear álcool no homem, ele é empurrado para próximo da lareira e é queimado acidentalmente. Um horror ao estilo Chamas da Morte, pois tudo indica que o queimado vivo que encontra-se cicatrizado no sanatório constantemente apresentado pela história é o assassino que irá vingar-se em breve, eliminando vidas por meios criativos e sanguinolentos: facas, machados, arcos e flechas, etc. A questão é saber se a atmosfera onírica é fruto de um dado real ou parte de outro elemento perturbador de sua trajetória infantil. E mais: se tudo aconteceu, então, o seu pai queimado é o responsável pela trilha de corpos espalhados ao longo do filme?

Durante as vésperas do baile de iniciação de uma dessas fraternidades bobas estadunidenses, uma das líderes alega que o lugar ideal para a festa é o estabelecimento do pai de Kelly, uma loja num shopping que promete ser o ambiente ideal para todos se divertirem. Trancafiada num sanatório, a figura sedenta por sangue escapa e produz um extenso caminho de sangue até a noite das iniciações. A referência ao filme de John Carpenter é óbvia, homenagem merecida. Negligenciado pelo público e pela crítica da época, o slasher em questão é brega e cafona em alguns trechos, mas se mantém acima da média no que tange aos modos de se contar uma história sem necessariamente se preocupar apenas com a criatividade das mortes.

Iniciação (The Initiation/Estados Unidos, 1984)
Direção: Larry Stewart
Roteiro: Charles Pratt Jr.
Elenco: Vera Miles, Clu Gulager, Daphne Zuniga, James Read, Marilyn Kagan, Robert Dowdell, Patti Heider, Frances Peterson, Hunter Tylo
Duração: 97 min

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