Crítica | A Interrupção

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Assim como vem sendo toda a carreira de Lav Diaz, A Interrupção não passa de uma forte alusão ao governo autoritário filipino. O país foi assombrado durante duas décadas pelo ditador Ferdinando Marcos, e desde 2016 é governado por Rodrigo Duterte, sanguinolento líder de Estado, cujo programa de governo é o extermínio de traficantes e criminosos. Desde Batang West Side, seu primeiro filme, Lav procura entender os efeitos do fascismo nas Filipinas, muitas vezes por meio de fábulas e extrapolações da realidade, como foi caso de Estação do Diabo do ano passado, musical místico sobre uma ditadura “fictícia” nos anos setenta.

A Interrupção é assumidamente uma ficção-científica. Se passa na década de 2030, onde uma série de erupções vulcânicas  fez com que o céu do sul da Ásia fosse permanentemente encoberto por nuvens negras, trazendo escuridão e fortes chuvas ao continente, que está sendo vítima de uma onda de gripe que vem matando milhões. A história do filme se passa nas Filipinas em 2034, e o país é governado pelo Presidente Navarra, louco ditador que monitora o país com drones e dura intervenção militar.

O clima deste filme (assim como vem sendo o da carreira de Lav Diaz), é o de mau estar. Nunca o pesadelo esteve tão presente na cinematografia do diretor, que nos transportou nessa ficção para o mais hediondo de seus cenários. Não há sol nem sinal de mudança, as tentativas de resistência vem sendo prontamente reprimidas e a população não vê outra solução senão desistir de esperar por algo melhor. O povo é vigiado pelas câmeras, pelos painéis com o rosto do presidente, pelo exército nas ruas. O herói, que apesar de sempre trágico nos filmes de Diaz, é um guerrilheiro que está perdendo a visão, teoricamente por uma doença, mas que também talvez prefira parar de enxergar um mundo tão cruel como esse.

Tudo isso citado, como de praxe, está nos padrões do diretor. Tudo está bem enquadrado, há sequências majestosas onde se reservam alguns minutos para observar a chuva e sentir o peso do mundo, mas isso já era o esperado. Fora isso, que Lav sabe fazer com as mãos atadas nas costas, há alguns excessos que fazem o filme ser um pouco decepcionante (e nenhum deles é a duração, antes que assumam). 

Há diversas narrativas correndo, como costuma ser, mas passa a impressão de ser um filme mais bagunçado que seus últimos, principalmente por seus personagens não serem tão impactantes, mesmo com o tom direto do filme. O tom irônico dado ao ditador louco é uma visão crítica muito imatura para um grande cineasta como Diaz, que cede ao personagem longos momentos de surto onde ele conversa sozinho, usa vestidos e chora no colo da general que ele trata quase como babá. 

No geral, apesar de sempre ser capaz de emocionar com sequências estrondosas, esse talvez seja o filme em que Diaz menos esteve inspirado, mesmo com uma premissa tão boa. O que fica de positivo ao final da sessão é o otimismo que tem o encerrar da história, a sensação de que o fascismo irá ter fim, mesmo que violento, e dará um lar mais digno aos filipinos. Certamente uma inspiração para todo o resto do mundo.

A Interrupção (Ang Hupa) – Filipinas, 2019
Direção: Lav Diaz
Roteiro: Lav Diaz
Elenco: Piolo Pascual, Joel Lamangan, Pinky Amador, Shaina Magdayao, Hazel Orencio, Mara Lopez, Noel Miralles, Ian Lomongo, Joel Saracho, Ely Buendia
Duração: 276 min. 

BRUNO DOS REIS LISBOA PIRES . . . Escrevo sobre cinema e falo ladainha, as vezes os dois ao mesmo tempo. Entusiasta do cinema vulgar. John Carpenter, Howard Hawks e Neville de Almeida me ensinaram tudo que eu sei, pena que eu matei muita aula. Geralmente minha opinião é contrária a dos outros, mas eu sou a favor de termos a mesma só pra ser do contra. Ao caminhar entrevi lampejos de beleza.