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Crítica | A Invasão das Abelhas, de Arthur Herzog

por Leonardo Campos
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Toda criatura que habita o nosso planeta possui uma função dentro do ecossistema. Você pode ser ateu, testemunha de jeová, batista, adventista, espírita ou do candomblé. Independente de sua crença, a relação com a natureza deve ser compreendida cientificamente, sem intervenções míopes ou redutivas de qualquer segmento que possa desvirtuar o olhar biológico para as coisas. Por isso, nada de isentar os insetos de sua importância. As abelhas, por exemplo, polinizam e são responsáveis pela nossa produção de alimentos, manutenção de ecossistemas, fornecimento de alimentos ricos em nutrientes, etc. Quando acuadas, sabemos, podem ser mortais. Os seres humanos, no entanto, conhecem os procedimentos e já possuem meios de lidar estrategicamente com criaturas não dotadas da racionalidade. Neste romance, no entanto, elas atacam sem piedade. Mortais, devastam tudo que encontram pelo caminho, numa extensa trilha destrutiva.

Como seres tão valiosos para a humanidade podem ser tão monstruosos? Arthur Herzog, romancista conhecido por suas obras de crimes e investigação esteve duas vezes no terreno do horror ecológico e respondeu essa pergunta em A Invasão das Abelhas, publicado em 1974, antes da novelização de Orca – A Baleia Assassina, alguns anos depois, haja vista o sucesso do filme, estratégia editorial que ocorreu com outros clássicos, tal como A Profecia, de David Seltzer. Bom representante do que se produzia no campo da literatura da época, em sua história transformada num filme de 150 minutos, “épico” do horror protagonizado por Michael Caine ainda na década de 1970, as abelhas são vetores do medo, onda catalisada por ninguém menos que os responsáveis os seres humanos e suas propostas científicas fadadas ao fracasso. Com a necessidade de ampliar a produção de mel, as espécies americanas são justapostas com estrangeiras. A junção causa uma briga territorial com proporções tenebrosas.

Aqui, após a importação da abelha africana, espécie conhecida por sua agressividade, o caos toma o continente americano aos poucos, a começar pelo Brasil, passear por outros países coadjuvantes do território sul-americano, numa subida devastadora para as regiões interioranas dos Estados Unidos. Elas destroem tudo pelo caminho e um grupo de especialistas precisará organizar uma comitiva para deter esses insetos, sem destruir ainda mais o meio ambiente. Nas passagens iniciais, acompanhamos uma família num evento aparentemente tranquilo, atacada pelo enxame que transpassa para as suas vítimas toda uma ira que parece ser algo oriundo de um ser racional, consciente da dor que deseja empregar ao outro. Tudo isso narrado em 211 páginas que mesclam de linguagem literária, traços jornalísticos e alguma dosagem científica.

Com tradução de Affonso Blachey, a versão da Editora Nova Arte, publicada em 1976, é repleta de incorreções gramaticais e questões ainda embrionárias do campo da tradução, nada que impeça o avanço da leitura enquanto entretenimento. A diversão fica comprometida apenas nas passagens que a narrativa esquece de diluir as observações científicas e parece citar questões biológicas aleatoriamente, numa busca cuidadosa por manter o discurso literário o mais próximo do realismo, mesmo que saibamos os aspectos ficcionais e fantasiosos que engendram a estrutura narrativa de Arthur Herzog, aqui bem mais eficiente enquanto escritor que o trabalho realizado no desenvolvimento do monótono Orca – A Baleia Assassina. Ademais, a publicação é dividida em quatro partes: Introdução, O Enxame, Detrick e A Batalha das Abelhas.

Na seara dos personagens, temos o entomólogo, a pesquisadora brasileira, o cientista relativamente desequilibrado, as autoridades incapacidades, em especial, prefeitos e policiais. O triângulo amoroso não se estabelece, mas há um romance com momentos explícitos de sensualidade para dar o tom humano ao conteúdo de A Invasão das Abelhas, um extra para que a história não ficasse apenas no campo do horror e da ciência. Peter Benchley, por sinal, tinha feito isso em Tubarão, mas ao levar para o cinema, Steven Spielberg e seus produtores preferiram manter o clima da tradicional família estadunidense onde ninguém faz sexo e qualquer menção ao desejo é sublimado em prol da missão heroica dos personagens. Diferente de algumas publicações do gênero e da época, os personagens possuem alguma profundidade psicológica. Até a sociologia das abelhas, em especial, a ação das rainhas, é estudada ao longo do romance. Elas canibalizam, estabelecem seus territórios, invadem outras colmeias, etc.

Saberemos que ao importar as abelhas africanas, as condições climáticas provocaram novos processos na espécie, transformada em algo mais mortal por causa dos pesticidas que funcionaram diante dos primeiros incidentes com enxames enraivecidos, mas perderam a sua função enquanto exterminador e deram aos insetos em questão habilidade para mutação em sua estrutura genética. O discurso, importante ressaltar, não é absurdo e com abordagem ridícula, focada na tiragem de sarro do escritor e no desejo dos leitores em desanuviar diante de algo idiota, mas divertido. A proposta de A Invasão das Abelhas é muito pertinente, com exceção da velocidade do enxame e de outras liberdades que fazem parte da suspensão da descrença. Nos últimos capítulos, Arthur Herzog emprega um ritmo alucinante ao seu romance, numa calculada administração do clima de horror. Pessoas, plantações, animais e o que aparece pelo caminho é transformado em ruínas por esses insetos mutantes e monstruosos.

A Invasão das Abelhas (The Swarm – Estados Unidos, 1974)
Autor: Arthur Herzog
Tradução: Affonso Blacheyre
Editora no Brasil: Nova Arte (1976)
Páginas: 211

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