Crítica | A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação

Há algo de muito verdadeiro em A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação. Após assistir ao documentário, notável nas discussões sobre a presença do negro na educação brasileira, rememorei alguns debates fervorosos com profissionais de ensino no que tange aos momentos de coordenação pedagógica e seleção de temas para projetos educacionais. Num dos mais memoráveis, uma professora insistia na beleza e eficiência do romance A Escrava Isaura, de Bernardo de Guimarães.

Havia na educadora uma postura de resistência ao se permitir propor dialogar com os poemas e contos da coletânea Cadernos Negros, abordagem mais otimista e sem o olhar eurocêntrico em relação ao negro na história literária.  É o mesmo discurso dos profissionais de ensino que desejam refletir a trajetória indígena apenas com a leitura de Iracema, O Guarani e Ubirajara, “trilogia indianista” do romântico José de Alencar.

Nada contra os romances apontados, mas é preciso que os professores e gestores saiam do viciado “plano subjetivo” que só enxerga o que bem quer, para olhar tais questões sob o prisma do plano geral, seguido de um travelling por outras possibilidades de abordagem do negro e do indígena na história da formação do Brasil enquanto nação. A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação flerta com tal abordagem, sendo mais um dos produtos audiovisuais preocupados em debater um problema que aparentemente não tem fim.

O Brasil, como apontam as estatísticas e as notícias cotidianas, é um país de forte tensão racial. A ideia de um caldeirão multicultural sem a presença da violência física e simbólica no que tange ao posicionamento das posturas racistas diárias existe apenas para os que vivem no mundo da imaginação ou não acreditam que estamos inseridos no que Benedict Anderson chamou de “comunidade imaginada”.

O documentário A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação, dirigido e escrito por Taís Amordivino, cineasta de uma nova geração de intelectuais negras na Bahia, reflete a questão racial por meio dos meandros da educação, reiterando como ainda estamos distantes de uma abordagem da cultura afro-brasileira menos focada em estereótipos e “coisificações”, oriundas do discurso hegemônico. Assim, a produção levanta questionamentos sobre as cotas, traça um paralelo entre educação pública e privada, dentre outros tópicos pertinentes ao tema geral.

Com tom leve e depoimentos sutis, a produção traz estudantes negras em reflexões sobre o que desejam ser e como a sociedade não as deixam sonhar adequadamente, haja vista a ausência de referências para espelhamento. Entre os comentários das estudantes, a narrativa trafega entre o elucidativo depoimento da psicóloga Tainan Purificação, responsável por destacar a tal “falta de referências e os perigos da violência velada” e as colocações do professor Walter Passos, intelectual que problematiza “os livros didáticos sem a devida abordagem da cultura negra”, além da dificuldade em fazer a lei 10.639/05 funcionar.

Para Walter Passos, professor de História, importante componente curricular da grade educacional, há falta de abordagem mais substancial da religião africana, pois o que geralmente se encontra é a visão eurocêntrica da África, bem como a lacuna na história anterior ao continente sem a presença do explorador. A crítica, apesar de muito pertinente, pode também ser entregue aos professores, desinteressados em ir buscar tais itens para a devida discussão em sala de aula. O depoimento da estudante Lilian Santos traz isso muito bem delineado, pois reforça que há métodos muito questionáveis por parte de muitos educadores.

Esteticamente, A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação se apresenta como material de iniciante, o que não deixa de ser interessante enquanto discussão, bem como ensaio para produções posteriores, tais como o poético Motriz (2018), com aceitação em festivais brasileiros e até mesmo internacionais. Igor Correia (áudio) e Danilo Garcia (fotografia) poderiam ter se empenhado mais em seus respectivos trabalhos, dando ao editor Luiz Henrique Pereira material audiovisual relativamente mais interessante para a finalização.

Os créditos iniciais pedem uma revisão de ordem gramatical, importante para a circulação do filme nos espaços que mais interessam, isto é, escolas, faculdades, congressos e seminários que abordem diretamente ou tangenciem o assunto.  Taís Amordivino, provavelmente envolvida apaixonadamente pelo assunto, deixa gravitar em seu roteiro algumas falhas minuciosas, também não prejudiciais na transmissão da mensagem, mas caso fossem “corrigidas”, garantiriam um documentário com maior potencial cinematográfico, não servindo apenas como panfleto sobre as práticas cotidianas de racismo na educação.

Uma das “falhas” é a ausência de depoimentos mais variados, algo que ampliaria a reflexão. No entanto, como apontado anteriormente, o filme funciona como um ensaio, uma provocação bem sucedida para um tema bastante debatido, porém praticado sem a devida eficiência nas dinâmicas cotidianas de sala de aula.

A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação — Brasil, 2016.
Direção: Taís Amordivino
Roteiro: Taís Amordivino
Elenco:  Walter Passos, Tainan Purificação, Lilian Santos, Susan Maria, Yasmin Oliveira, Alessandra Amorim, Vanessa Santos
Duração: 15 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.