Crítica | A Invocação 2

Se A Invocação é tão ruim, por que o espectador confiaria em sua continuação como ponto de partida para alguma reflexão ou entretenimento? É o tipo de questionamento que nos colocamos quando adentramos neste universo dirigido mais uma vez por Tsutomu Hanabusa, cineasta guiado pelo texto escrito pela dupla formada por Daisuke Hosaka e Noriaki Sugihara. Ao longo de seus 96 minutos, a produção comprova mais uma vez que não é motivo de orgulho para os seus realizadores, mas ainda assim, milagrosamente, consegue um efeito menos abominável que o seu primeiro. Lançado um ano após o primeiro, A Invocação 2 é mais uma investida de Samara no universo do 3D. Com isso, sabemos que haverá objetos jogados para a tela, dentre outros exageros visuais para impactar o público que se encontra diante de uma história fraca.

Assim, não é novidade para ninguém que Sadako está com as suas energias vinculadas ao processo da existência humana. Desta vez, o enredo focaliza no drama de Funko Ando (Miori Taki), estudante de Psicologia que avança numa fase ainda recente da sua vida intelectual e profissional. Ela torna-se a encarregada da sobrinha, garota de apenas quatro anos de idade, suposta responsável por eventos macabros que sempre gravitam em torno da sua existência. Iniciado após cinco anos do desfecho de A Invocação, somos informados que a criança é a filha de Akane (Kokoro Mirasawa), protagonista perseguida pela entidade no filme anterior, mãe de uma criança que nasceu para fugir constantemente.

O problema é que aparentemente, as pessoas precisam fugir da menina, pois tudo de ruim acontece ao seu redor. Com um enredo mais linear, rumo ao percurso mais cronológico, a trama insere algumas explicações, tenta arrumar a bagunça do filme anterior, porém o que fica comprovado é apresentação de uma narrativa desnecessária, vazia, sem rumo, oca para os espectadores que buscam algo, mas não conseguem encontrar, isto é, não há reflexão suficiente, tampouco entretenimento. O que fazer diante de um filme assim? Sigamos. A garota sofre bullying constante na escola, sente falta da mãe, além de precisar de maior atenção, algo que a tia luta para fornecer, mas nem sempre atende ao necessário.

Preocupada com o comportamento da menina, em especial, com os seus desenhos, a tia conversa com a professora da escola, numa tentativa de entender a motivação por detrás dos desenhos, sempre a reproduzir cenas que remetem aos acontecimentos horripilantes que acontecerão posteriormente. Desta maneira, o que acontece de desgraça em Tóquio, a garota é mestra em desenvolver. É o oriente mais uma vez se aproximando da franquia Premonição. Adiante, somos informados que Akane está viva, mas Sadako possuiu o seu corpo. E mais, solta pela cidade, a entidade ceifa vida vertiginosamente, tal como uma assassina slasher, com suas aparições realizadas basicamente pela mesma equipe técnica do primeiro filme, diferente apenas no setor de efeitos sonoros, equipe chefiada por Kenji Shibasaki, repetidor dos exageros emitidos cada vez que a “monstra” aparece.

Assim, A Invocação 2 fechou temporariamente um novo ciclo para Sadako, personagem que ainda retornou em O Chamado vs. O Grito e também num filme que leva o seu nome, realizado em 2019, produção ainda sem lançamento agendado em território brasileiro. E para quem conhece de perto a franquia, sabe do apuro técnico e dos cuidados de Hideo Nakata ao se envolver em projetos, algo que parece não ter sido a sua preocupação ao assinar a direção desta versão mais recente, focada num aspirante a influenciador digital que decide reorganizar um site derrubado há tempos, sem sequer imaginar que será o responsável por recomeçar uma maldição.

Nakata, quanto entrevistado na época de lançamento das refilmagens hollywoodianas dos filmes orientais, inclusive das produções que assinou a direção, alegou que os estadunidenses preferem os sustos e a violência mais gráfica, enquanto os japoneses prezam mais pelo clima de suspense, onipresença fantasmagórica e atmosfera ameaçadora, isto é, a nossa consciência de que há uma entidade em cena, mas que consigamos enxergar de surpresa, para sermos tomados aos poucos, sem excesso. São cenas mais vagas que não funcionam no esquema hollywoodiano, por exemplo, segundo a sua abordagem. A questão é: será mesmo? Talvez fosse assim, porque se formos observar as incursões dos fantasmas vingativos do cinema oriental contemporâneo, o CGI está mais gritante que o jumpscare.

A Invocação 2 (Sadako 3D 2) — Japão, 2013
Direção: Tsutomu Hanabusa
Roteiro: Kôji Suzuki
Elenco: Miori Takimoto, Kôji Seto, Kokoro Hirasawa, Satomi Ishihara, Yûsuke Yamamoto
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.