Crítica | A Invocação (Sadako 3D)

Se a placa de trânsito PARE fosse parte integrante dos elementos semióticos que envolvem os bastidores das produções de horror orientais, é bem possível que A Invocação fosse um filme infrator. O Chamado foi um dos primeiros filmes a trabalhar com o que se conhece como yurei, fantasma ligado ao mundo físico por causa das emoções que não lhe possibilitaram avançar após a sua morte. O onryo é o fantasma que deseja vingança, geralmente representado pela figura feminina trajada de branco, a cor fúnebre no Japão. Os cabelos são longos e misteriosos. Dessas histórias tivemos filmes interessantes, como a versão inicial de Hideo Nakata e a refilmagem de Gore Verbinski, filmes conceituados pela crítica e público, financeiramente rentáveis e geradores de uma vanguarda para a história dos filmes de terror.

Depois de tantas idas e vindas na mitologia de Sadako, versões televisivas e cinematográficas em território japonês, bem como a refilmagem e sua continuação nos Estados Unidos, alguns realizadores acreditaram no potencial da personagem e a trouxeram de volta em 2012, tendo como foco a seguinte premissa: e se a maldição torna-se viral e adentrasse a seara da internet, algo ainda tateante na era dos primeiros filmes da franquia? Com esse interessante ponto de partida, o filme promete algo que não consegue cumprir em nenhum aspecto, tanto no dramático quando no estético, um equívoco sem precedentes na trajetória da entidade que antes saia do poço, mas agora é uma espevitada assombração em 3D, toda hora saltitante pelas telas de celulares e computadores.

Sob a direção de Tsutomu Hanabusa, guiado pelo roteiro escrito em parceria com Koshinobu Fujioka, acompanhamos, ao longo de tediosos 97 minutos, a trajetória de Akane (Satomi Ishihara), uma professora que testemunha alguns alunos preocupados com a suposta maldição oriunda de um vídeo conferido na internet. O material maldito transforma os seus espectadores em suicidas. Instigada, a professora parte para a análise do material, principalmente depois que uma de suas alunas supostamente comete o tal ato e encerra tragicamente a sua vida.

O que se sabe é que a entidade agora habita tais vídeos e ganha características de contágio virtual por meio de um membro responsável pelo ritual, Kashwada (Yusuke Yamamoto), espécie de adorador dos males de Sadako e que deseja a todos a presença da macabra entidade em suas respectivas vidas. Em meio a isso tudo, há a história de corpos assassinados, jogados no poço para que Sadako os possua, além de uma perseguição tosca com a protagonista afugentada por várias versões do monstro, estranhas e parecidas com grandes aranhas grotescas.

Se antes o uso de CGI era uma crítica exclusiva para os Estados Unidos, desta vez os orientais capricharam (ironia) nos efeitos visuais e produziram horrorosos seres malignos que intitulam de Sadako. A direção de fotografia de Nobushige Fujimoto não consegue fazer nada além dos planos propositadamente colocados em frente aos espectadores, tendo em vista emitir sustos com as escapadas de Sadako das telas em que aparece para ceifar vidas para o além. O design de som de Hizuki Ito trabalha em torno de sons que nos remetem à seres rastejantes e nojentos, num ensurdecimento de qualquer manifestação sonora da trilha composta por Kenji Kawai, músico que trabalhou na maioria dos filmes destes universos de horror orientais e já deve ter se acostumado com a diminuição do valor de seu trabalho em prol dos efeitos sonoros exagerados.

Ademais, há uma investigação, mas esqueça qualquer sutileza ou clima de suspense progressivo. O que há em A Invocação é apenas um amontoado de situações que deram certo nos filmes anteriores, mas aqui, apenas cenas transformadas num amontoado de aberrações de uma sociedade em busca do espetáculo vazio, em detrimento da qualidade dramática de suas histórias. Com objetos praticamente jogados em direção à tela, a impressão que temos é a seguinte: os produtores sentiram que o público tinha saudade dos bons tempos de Sadako.

Assim, decidiram criar qualquer história, colocar efeitos mirabolantes e entregar ao público um entretenimento estéril que se voltou contra si, pois nem pra rir funciona. Serve como elemento para promover o sono, antidoto do bom-humor, algo que ninguém está afim de buscar, não é mesmo, caro leitor?

A Invocação (Sadako 3D) — Japão, 2012
Direção: Tsutomu Hanabusa
Roteiro: Kôji Suzuki, Yoshinobu Fujioka
Elenco: Satomi Ishihara, Kôji Seto, Tsutomu Takahashi, Shôta Sometani, Hikari Takara, Yûsuke Yamamoto, Ryôsei Tayama, Ai Hashimoto
Duração: 85 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.