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Crítica | A Isca – Uma História Real, de João Pedro Portinari

por Leonardo Campos
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Histórias de superação tendem a dividir as pessoas que possuem uma cultura literária vasta. É um tipo de texto que pode cair no dramalhão e reverter a ideia aristotélica de catarse, transformando o relato num lacrimejante texto mais ao estilo do jornalismo sensacionalista ou, numa linha paralela e com bastante contraste em relação ao tipo mencionado, apresentar a história pretendida com a firmeza de alguém que venceu as questões retratadas sem apelar para um festival de lágrimas e pedidos de piedade. A Isca – Uma História Real, lançado em 2019, publicado por João Pedro Portinari, está longe do primeiro tipo e para fins de definição, fica posicionado em algum lugar no segundo tipo de produção literária. Com uma história de sobrevivência forte e guiado pelas memórias diante do acontecimento que marcou para sempre a sua vida, isto é, um incidente com um tubarão-branco nos anos 1990, o autor traduz a sua trajetória para o formato texto literário, um relato humorado e cheio de curiosidades, pecaminoso apenas pela falta de emoção.

Sim, falta emoção. E sim, ele possui parentesco com Cândido Portinari, um dos maiores nomes da arte moderna brasileira. Quando descobri o livro numa busca aleatória pela internet, a maioria dos textos sobre o lançamento do material reforçavam esta questão, algo que pode até ser uma chave para acionar o mecanismo de impulsionamento da publicação, mas um dado que ao mesmo tempo não deve protagonizar o trabalho do escritor, texto que independe da associação com o famoso pintor para se fazer relevante. Talvez a questão da falta de emoção não seja a ausência de mais planejamento na exposição dos relatos, problema que seria mais editorial que literário. Acredito que depois de ter lido tantos relatos sobre a relação entre humanos e tubarões, histórias como a de João Pedro Portinari tenham se tornado menos impactantes, mesmo que eu não tenha a experiência traumática e assustadora com um tubarão para mensurar o impacto da uma trajetória biográfica como essa. O máximo que tive foi um mergulho com uma espécie amena de tubarão há alguns anos, além das leituras, documentários, filmes e notícias sobre o assunto.

No livro, o autor divide a sua história em 28 capítulos curtos, material para ser lido rapidamente, tamanha a habilidade de Portinari em descrever os fatos com simplicidade. Ele conta que em 20 de abril de 1997, velejava pela costa de Búzios, litoral do Rio de Janeiro, numa distância calculada em torno dos 23 quilômetros da praia, quando foi atacado por um tubarão-branco de quatro metros. Um verdadeiro “monstro”. Dá para imaginar o susto, o horror, o medo de morrer e até mesmo o fascínio de ter encontrado uma criatura dessa próxima ao nosso território, algo que muitos especialistas juravam não ser comum, haja vista a presença massiva destas criaturas em outros pontos do planeta, tais como África do Sul, Austrália e nos Estados Unidos. Era véspera do feriado de Tiradentes quando tudo aconteceu, relatado ao longo das 178 páginas de A Isca – Uma História Real, publicado pela Edite e com excelente projeto gráfico, capa e diagramação de Luiza Aché. A capa, belamente oportunista, dialoga com o imaginário popular do tubarão e acerta em cheio.

O filme de Spielberg, por sinal, é mencionado rapidamente numa passagem cheia de coincidência no relato do autor que alega a exibição da produção num dos canais que zapeou enquanto esteve nos primeiros momentos de sua longa, dolorosa e poderosa recuperação, situação que o fez rever valores e encarar a vida de maneira ainda mais intensa. João Pedro Portinari jamais esquecerá aquele domingo de 1997, como ele mesmo aponta no livro, narrativa que constantemente retornar dos confins da memória para se fazer presente em sua vida. Ademais, encerro esta breve reflexão sobre o livro e ainda continuo com a sensação de que há pouquíssima dosagem de emoção para uma aventura tão contagiante, exótica e dramática na vida trajetória do autor, um homem com várias experiências marinhas, haja vista o seu interesse pelo assunto e as bases de sua família, grupo de pessoas envolvidas com a vida litorânea e a pescaria. Com numerosas viagens pelo mundo, tendo o mergulho como prática constante, a experiência de Portinari deve ser bem mais poderosa quando contada em rodas de conversas. O relato oral me parece mais eficiente.

Seria injusto dizer que a sua aventura não é interessante. É. Até demais. O que acredito faltar em A Isca – Uma História Real é a antecipação da criatura. No cinema, tendo o filme Tubarão, de 1975, como produção comparativa, há uma motivação de ordem técnica para que a criatura ficasse por tanto tempo “invisível”. É um recurso poético que na linguagem audiovisual funciona de uma maneira, algo que no bojo da literatura, requer outros cuidados e estratégias de construção da narrativa. Alguns trechos são particulares demais, como se Portinari estivesse escrevendo um registro apático do café da manhã, dos costumes de sua família, etc. Há também um número excessivo de digressões até mesmo nos momentos de aprofundamento no relato do ataque. O texto sai do foco e se dispersa por explicações incabíveis que poderiam ser nota de rodapé ou simplesmente inexistir, para deixar que o drama humano fosse de fato o ponto nevrálgico da história. Ainda assim, mesmo com os problemas apontados, é um relato de força e perseverança, material para ser lido e tomado como experiência de vida resiliente para nos inspirar.

A Isca – Uma História Real (Brasil, 2020)
Autor: João Pedro Portinari
Editora: Edite
Páginas: 178

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