Crítica | A Janela Secreta

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Ao olharmos para a bibliografia de Stephen King, iremos perceber que uma parte considerável de sua obra mexe com os próprios medos do autor, ao abordarem justamente temores de escritores e, em alguns casos, temores de escritores famosos. Esse traço refletiu-se em muitas das adaptações de suas obras: o clássico O Iluminado traz o enlouquecido Jack Torrance sofrendo de bloqueio criativo; Louca Obsessão explora a relação entre uma fã psicopata e seu escritor favorito, enquanto A Metade Negra explora a liberdade sombria que um pseudônimo pode dar a um autor famoso. A Janela Secreta, filme de 2004 estrelado por Johnny Depp, é mais uma obra que se encaixa facilmente nessa lista ao ter como ponto de partida uma acusação injusta de plágio.

A trama acompanha Mort Rainey (Johnny Deep), um escritor que caiu em depressão profunda após flagrar a sua esposa Amy (Maria Bello) na cama com outro homem, dando início a um processo de divórcio. Mort vai viver em uma isolada cabana à beira de um lago em uma tentativa de encontrar paz, mas logo passa a ser atormentado pelo misterioso John Shooter (John Turturro), que o acusa de ter plagiado um de seus contos. A situação torna-se mais ameaçadora quando Shooter passa a ameaçar a vida de Mort e daqueles que o cercam caso o autor não admita o plágio.

Escrito e dirigido por David Koepp, A Janela Secreta é em grande parte um “espetáculo de um homem só” de Johnny Depp. Este é um filme em que grande parte da trama se concentra no protagonista enfrentando os seus demônios internos em uma cabana. Mesmo quando uma ameaça iminente surge na figura de Shooter (interpretado de forma acertadamente histriônica por Turturro) a solidão do personagem de Depp ainda é um grande veículo para a sensação de perigo, já que a presença do vilão é muito mais sentida do que propriamente vista.

A Janela Secreta é sobre um homem que começa a perder a sanidade diante da paranoia, tanto pelo inferno em que Shooter transforma a sua vida, quanto pela depressão causada pela traição que sofreu. Mas Johnny Depp, ator conhecido por interpretar personagens esquisitos, vive Mort de forma ligeiramente excêntrica; o que acaba atrapalhando um pouco a progressão dramática do protagonista, a meu ver. Pode-se argumentar que a obra deixa evidente o quão dominado pela melancolia Mort está (o protagonista claramente passa os dias no sofá, usando um roupão que já começa a rasgar), mas ainda assim o mergulho do personagem no medo e na loucura parece um pouco problemático.

John Turturro, por sua vez, dá vida ao sinistro John Shooter valendo-se de um marcado sotaque do Mississípi e um chapéu de aba larga para criar uma figura que mesmo que flerte com o caricato, se mantém ameaçadora. O personagem de Turturro em sua primeira cena deixa uma impressão forte o bastante para que o medo que Mort Rainey passa ser desse homem seja completamente compreensível.

Entretanto, se apontei que o roteiro e escolhas de atuação causam problemas no desenvolvimento do protagonista, Koepp acerta na condução da narrativa, criando uma atmosfera contagiante, que consegue prender o espectador até os minutos finais, ainda que a reviravolta final seja um tantinho previsível para quem conhece um pouco do gênero. Deve-se observar também, que embora seja mais conhecido por seu trabalho como roteirista, Koepp mostra um grande senso estético e domínio de narrativa, na direção. A cena inicial, por exemplo, onde vemos o conflito de Mort sobre se deve ou não flagrar a esposa no motel, é muito boa pela forma com que o diretor expõe esse conflito de forma visual ao manter a câmera estática dentro do carro do escritor — para então criar um recuo que revela a placa do motel quando o carro dá marcha ré. Os créditos iniciais que sucedem essa cena são igualmente dignos de nota, ao trazerem uma bela sequência onde uma câmera aérea entra pela janela da cabana de Mort, passeando pelo lugar até mergulhar no espelho que reflete a imagem do escritor dormindo no sofá, dando início efetivamente à história.

Apesar de algumas falhas que o impedem de se tornar mais marcante, A Janela Secreta é um competente thriller psicológico, comandado com mão firme por David Koepp. É irônico que o roteirista, que ficou famoso por ter escrito filmes como Jurassic Park e Homem-Aranha, se saia muito melhor aqui na direção do que no roteiro.

A Janela Secreta (Secret Window), Estados Unidos. 2004.
Direção: David Koepp
Roteiro: David Koepp (Baseado em noveleta de Stephen King).
Elenco: Johnny Depp, John Turturro, Maria Bello, Timothy Hutton, Charles S. Dutton, Len Cariou, Joan Heney, John Dunn Hill, Richard Jutras.
Duração: 96 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.