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Crítica | A Jornada de Vivo

por Ritter Fan
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Mais uma produção da Sony Pictures Animation que ganha distribuição diretamente em streaming via Netflix, como foi o caso da sensacional A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas, A Jornada de Vivo lida com um jupará (apesar de ser desenhado basicamente como um macaco amarelo, não se trata de um primata e sim de um parente dos quatis e dos guaxinins) que participa de um show diário de realejo na praça central de Havana, Cuba, que precisa levar a última canção escrita por Andrés (Juan de Marcos González), seu dono, para o amor de sua vida, a cantora de sucesso que há décadas emigrara para os EUA, Marta Sandoval (Gloria Estefan). Com músicas compostas pelo onipresente Lin-Manuel Miranda, que também empresta sua voz ao pequeno Vivo, o musical animado de ritmo caliente latino que em muitos momentos inevitavelmente lembra Em Um Bairro de Nova York, é uma deliciosa aventura que agradará os pequenos e os adultos igualmente, mesmo aqueles que, como eu, não particularmente liguem para o estilo musical impresso pelo compositor e ator.

Os primeiros 15 minutos de projeção podem ser facilmente considerados como um belo feito de concisão de narrativa, com o roteiro de Kirk DeMicco (que co-dirigiu o filme ao lado de Brandon Jeffords)  e Quiara Alegría Hudes usando cada segundo para estabelecer a alegre conexão de Vivo com Andrés, explicar como um jupará veio parar em Cuba, já que o bicho não é nativo de lá, dar contexto e passado para Andrés e para Marta, explicando a ligação e a separação deles há décadas. É um pouco como a inesquecível sequência do passado do Sr. Fredricksen em Up – Altas Aventuras, que, então, também como a obra da Pixar, abre as portas para a jornada do título em português.

Essa jornada, porém, não tem a ousadia da citada obra de 2009, já que o pareamento de Vivo com a espevitada Gabi (Ynairaly Simo, em seu primeiro papel), sobrinha-neta de Andrés que está de partida com a mãe Rosa (Zoe Saldana) para Key West, bem ao sul de Miami, não é particularmente especial ou diferente de outras dúzias de situações parecidas que já vimos por aí. A jornada em si – mais especificamente a de Key West para Miami que é, geograficamente, a mais relevante – também é bastante objetiva, sem grandes desvios ou desafios, sem sequer a construção de uma figura vilanesca para além da dificuldade inerente da empreitada e da breve participação de Michael Rooker como a gigantesca píton birmanesa Lutador que não suporta barulho e das meninas escoteiras que Gabi detesta, mas que acabam sendo instrumentais no caminho.

No entanto, não deixem que o parágrafo acima marque em definitivo minha visão sobre o longa, pois ele não é, de forma alguma, tudo o que tenho para falar dele. Além das belas canções de Miranda que estabelecem o gostoso e constante ritmo narrativo desde os primeiros segundos de projeção, o design dos personagens merece destaque, especialmente os animais e a jovem Gabi. No lado silvestre, a pegada criativa é altamente estilizada, o que de certa forma “estraga” o jupará ao transformá-lo em basicamente um mico amarelo, mas que, de outra, cria criaturas muito interessantes como a dupla de colhereiros Dançarino e Valentina (Brian Tyree Henry e Nicole Byer, com a voz cantante de Valentina sendo feita por Aneesa Folds) e já citada cobra ameaçadora. No lado humano, apesar de uma certa mesmice nos personagens coadjuvantes, há que se destacar o cuidado e respeito com Andrés e Marta quando jovens adultos e quando já com idade mais avançada, além da jovialidade da pequena Gabi e seu figurino sensacionalmente desconjuntado, seu par de óculos enorme no rosto e, claro, seu despenteado cabelo roxo.

E a estilização dos personagens é antiteticamente “comparada” com a abordagem mais realista das ambientações, seja em Havana, Key West e Miami, com cada cidade convencendo o espectador pela acurácia visual, mas também pelo verniza levemente fabulesco que marca cada localização, como versões idealizadas e livre de problemas dos lugares, o que combina muito com as canções de Miranda e as performances vocais de um afiadíssimo elenco. As cores são vivas e vibrantes nos ambientes citadinos e lindamente verdejantes e soturnos nos Everglades, por onde nossos heróis precisam passar, com a fotografia de Yong Duk Jhun, ajudada pela “assessoria visual” do incomparável Roger Deakins, lidando muito bem com as oscilações.

No fundo, A Jornada de Vivo é uma singela e aveludada celebração do amor que nunca morre como fio condutor de novas amizades e mudanças de vidas, tudo embalado por delicados comentários ecológicos e, principalmente, por canções inspiradas que fazem a diferença neste caminho razoavelmente comum que o roteiro faz os protagonistas percorrerem. Mais uma vez a Sony Pictures Animation acerta em uma produção animada, o que é uma notícia mais do que bem-vinda neste gênero de certa forma ainda dominado por relativamente poucas produtoras.

A Jornada de Vivo (Vivo – EUA, 06 de agosto de 2021)
Direção: Kirk DeMicco, Brandon Jeffords
Roteiro: Kirk DeMicco, Quiara Alegría Hudes (baseado em história de Peter Barsocchini e Quiara Alegría Hudes)
Elenco: Lin-Manuel Miranda, Ynairaly Simo, Zoe Saldana, Juan de Marcos González, Brian Tyree Henry, Nicole Byer, Aneesa Folds, Michael Rooker, Gloria Estefan, Leslie David Baker, Katie Lowes, Olivia Trujillo, Lidya Jewett
Duração: 95 min.

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