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Crítica | A Lenda de Korra – Livro Três: Mudança

Mudanças familiares.

por Kevin Rick
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O título do livro três de A Lenda de Korra carrega uma certa ironia, pelo menos para mim. “Mudança” é o termo correto para a transição que a série faz com o arco de Korra, agora que, com o surgimento de novos dominadores de ar graças à energia liberada no mundo pela Convergência Harmônica, a Avatar, Tenzin e companhia decidem viajar pelo mundo e reunir esses novos dominadores, na intenção de reerguer a extinta nação dos Nômades do Ar. No entanto, a terceira temporada não é realmente uma mudança quando pensamos no retorno da clássica estrutura de Avatar – A Lenda de Aango que, de forma alguma, é um demérito. Muito pelo contrário, o regresso às raízes da obra sobre o carequinha salvando o mundo é uma mudança bem-vinda.

E o que eu quero dizer com “clássica estrutura”? Bem, ao nos situar de uma trama que se move por vários locais do mundo de Avatar em busca de novos dominadores do ar, a série assume o mesmo arranjo de exploração global da jornada de Aang, levando o espectador a ver como andam cidades famosas da série original, como Ba Sing Se, e também conhecer novos lugares como o Clã de Metal. Ainda que isso tenha acontecido levemente no ano anterior, com um grande arco nas Tribos da Água, o terceiro livro realmente cria um encadeamento bem amplificado, cheio de aventuras diversas, expansão de mitologia e construção de mundo, como estamos acostumados com esse universo.

E isso foi muito bom para a série; sair ali das limitações da Cidade República dá um respiro narrativo – aliás, é uma temporada menos politicamente densa, focando em um tom aventureiro – e uma eficaz mudança de direção para Korra, que começa a exercer seu papel globalmente. O fato de termos várias subtramas “ordinárias” e alguns episódios contidos é um bônus, trazendo mais momentos descontraídos e rotineiros do elenco que dão espaço para conhecermos, simpatizarmos e desenvolver personagens, como acontecia tão bem na série original. Particularmente, gostei bastante do arco da rainha maldosa de Ba Sing Se, da difícil empreitada de Tenzin com a nova nação do Ar e dos flashbacks que mostram Toph como uma mãe imperfeita. Acho interessante como os criadores continuam nos mostrando que o legado do Time Avatar não é todo “certinho”, utópico e ideal. Existem falhas, sejam familiares ou políticas, como devem ser, assim como homenagens (o próprio Clã Metal e os novos dobradores de ar) a tudo que eles significam e sacrificaram.

Pensando nisso, podemos ver como os roteiristas finalmente encontraram os coadjuvantes principais para Korra: Tenzin e Lin. Ambos ganham tramas, conflitos e até episódios inteiros focados no seus interessantes desejos, traumas e objetivos – ambos querem honrar Aang e Toph. Até mesmo a irmã de Lin, Suyin Beifong, tem mais espaço narrativo que a trinca de apoio do Time Korra, que, de certa forma, não me incomodaram nesta temporada. Eles não deixam uma grande impressão, até porque, com exceção de um backstory da família de Bolin e Mako, pouco vemos dos personagens em foco, mas eles funcionam melhor como dinâmica cômica e em tom de aventura que nas temporadas anteriores. A introdução do divertido Kai e a continuação do subestimado arco de Jinora se tornando uma mestre – a cerimônia dela é simplesmente magnífica -, adicionam mais uma camada à temporada que trabalha e equilibra muito bem o grupo plural, felizmente dando enfoque aos indivíduos mais intrigantes.

Para além da estrutura e desenvolvimento de personagens, eu também gosto do enredo, começando como um desbravamento global para a criação de uma nova nação dos Nômades do Ar, mas vai sendo envolvido por um ataque de uma organização chamada Lótus Vermelha, liderada pelo anarquista Zaheer.  Tanto o antagonista principal quanto seus seguidores são um baita melhoria a Unalaq do ano interior, especialmente pensando em termos de caracterização, uso de poderes e estilo ofensivo. Não sou lá fã do desenvolvimento ideológico do grupo e os monólogos pseudo-filosóficos de Zaheer, bem menos aprofundado que Amon, por exemplo, mas existe uma ótima narrativa de perseguição e fanatismo, me lembrando, novamente, a estrutura da série original com Zuko correndo atrás de Aang. O grupo de Zaheer tem uma presença perigosa, e o clímax da batalha entre o anarquista e Korra é uma das melhores da série. Interessante pontuar como a animação tá lindona neste ano, com algumas das melhores coreografias, uso inventivo de dobras e alguns planos giratórios e vertiginosos sensacionais.

Se tem algo que eu não gosto no terceiro livro é o total abandono do núcleo espiritual. A temporada anterior faz toda uma construção épica de uma “Nova Era Espiritual”, mas pouco vemos de Korra funcionando como ponte ou da interação entre espíritos e humanos. O máximo que temos é um conflito – muito bacana, diga-se de passagem – entre politicagem e espiritualidade no início da temporada, mas que não é desenvolvido. Isso não é um problema na temporada, até porque o show assumiu esse lance de cada livro contar uma história contida, mas pensando na série como um todo me soa estranho abandonar (pelo menos por agora) algo colocado como importante. E já que estou reclamando, o uso de Zuko como figurante de luxo me deixou bem aborrecido – não atrapalha em nada a temporada, mas eu queria mais do Zuko!!

Por fim, Livro Três: Mudança é uma temporada de, bem, mudança para Korra. Mais expansiva, exploratória e plural, o terceiro ano da série deixa de lado um pouquinho a objetividade narrativa e os limites da capital para nos levar por uma grande jornada da Avatar. A protagonista, se menos em foco considerando as várias subtramas e episódios que ela quase não aparece, funciona como um ótimo fio condutor para os dois núcleos principais (nova nação do Ar e perseguição da Lótus Vermelha), além de assumir um papel amadurecido de líder – no entanto, o final derrotista e traumático da personagem é um ótimo cliffhanger para como veremos ela na temporada final. Em uma série que a linguagem principal é a desmistificação e a construção inversa do que vimos em A Lenda de Aang, foi curioso e bem divertido ver uma temporada que busca um estilo similar à original.

A Lenda de Korra – Livro Três: Mudança (The Legend of Korra – Book Three: Change) | EUA, 2014
Criado por: Michael Dante DiMartino, Bryan Konietzko
Direção: Colin Heck, Ian Graham
Roteiro: Michael Dante DiMartino, Bryan Konietzko, Tim Hedrick, Joshua Hamilton
Elenco: Zach Tyler, Mae Whitman, Jack De Sena, Dee Bradley Baker, Dante Basco, Mako, André Sogliuzzo, Mark Hamill, Greg Baldwin, James Garrett, Jason Isaacs
Duração: 310 min. (13 episódios)

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