Crítica | A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne

A Letra Escarlate é um romance intenso e está mais vivo do que possamos imaginar. Recentemente, em Lisboa, Portugal, um acontecimento bastante peculiar chamou à atenção por possibilitar um paralelo com o enredo do livro. Uma mulher furiosa com a infidelidade do marido deixou vários cartazes espalhados por uma região, questionando a lealdade da amante e apontando que a moça se tratava da “puta do bairro”. As pessoas criticaram a postura da esposa traída, pois em nenhum momento ela mencionava o marido. Apenas dizia que a tal mulher “tomou e desviou o seu esposo, estragou a sua família e engravidou”, acrescentando ainda que “teve um aborto e perdeu um filho que esperava do seu marido”, numa espécie de praga divina.

O cartaz, tal como a “letra escarlate”, permaneceu pendurado por postes e muros, o que aproximou bastante a amante de uma bruxa. A cena toda pareceu um retorno aos tempos em que o puritanismo se espalhava como um rizoma pelos Estados Unidos, fruto da devoção de um povo que não encontrou espaço para as suas manifestações religiosas na Inglaterra e por conta desse fator veio espalhar a hipocrisia pela “América”. A tal cena se relaciona com o romance de Nathaniel Hawthorne, publicado em 1850. A história alocada no século XVII, em Salem, nos mergulha no opressor cotidiano de um local colonizado por puritanos ingleses.

Hawthorne descreve com base em um narrador que diz ter encontrado um manuscrito juntamente com um pedaço de tecido (a tal letra escarlate). Ao começar a contar a história, adentramos num mundo que versa sobre amor, lealdade, as obrigações de um individuo com a sociedade, a rasura das leis como forma de resistência individual e coletiva, numa fuga das obrigações regidas pela vida em sociedade, questões acompanhadas pelo contexto histórico marcado pelos puritanos, interessados em fundar uma colônia religiosa no “Novo Mundo”, organizados numa espécie de “cruzada da fé”.

Um dos primeiros momentos é o de uma multidão a escoltar Hester Prynne até o pelourinho, tendo em seu colo um bebê que carrega desde os seus primeiros dias de existência a marca de uma “maldição”. O conflito inicialmente gravita em torno do comportamento de Hester, uma mulher que aparece grávida, mas que não pode justificar quem é o pai da criança, afinal, o marido esteve em longa viagem e não pode assinar a certidão de confirmação da paternidade. Quem será o pai? Hester se nega veemente a contar, apenas se mantém silenciada e por isso, é condenada a carregar a letra escarlate do título, isto é, um grande “A” bordado em sua roupa, uma marca de seu adultério e da sua postura considerada inadequada e imoral.

Hester é interrogada pelos religiosos. Eles insistem em saber detalhes sobre a identidade do pai, mas como ela se nega, vai presa. O marido que esteve em viagem retorna silenciosamente e vai ao encontro da esposa para fazer um pedido covarde e machista, visto claro, numa ótica contemporânea, mas compreensível para os códigos hipócritas e morais da época. Ele pede que ela não revele a sua identidade de esposo traído. Há anos viajando, receoso da imagem que pode ter diante da cidade, prefere mudar de nome, chamando-se Roger Chillingworth. Ela concorda, é novamente subjugada pelo poder dos religiosos e recebe uma missão de vida nada grata: morar numa cabana afastada da cidade.

Em sua nova morada, Hester sobrevive com os pedidos de costura e bordado dos habitantes da cidade, sendo exceção apenas produtos para casamentos, pois a “pecadora” não poderia jamais tecer qualquer coisa relacionada ao “sagrado” matrimônio. Bem construída socialmente e psicologicamente, Hester esbanja boa vontade e representa o lado humanitário da sociedade, sempre com ações para ajudar os pobres e manutenção da obediência tão desejada pelos religiosos que achavam ser na cabana distante o seu lugar de sobrevivência, afastada para não contaminar as mulheres de “boa índole”.

Cabe ressaltar que a sua morada na floresta não é uma escolha aleatória de Hawthorne. O escritor a faz mergulhar num ambiente não civilizado, longe da ordem, a floresta, tal como conhecemos, é o espaço sem organização social, associado constantemente ao selvagem e diabólico. Quando a sua filha nasce, batizada de Pearl, Hester precisa enfrentar novos desafios. Em alguns momentos sofre a ameaça de perder a filha, em outros arranja fôlego para lidar com o temperamento da criança, a sua antítese, sempre astuta, questionadora e inconformada com as regras estabelecidas por uma sociedade extremamente rígida. Certo dia ela vai ao encontro de Dimmesdale, um clérigo influente, e implora por ajuda. Ele faz um discurso sobre a hipocrisia e conta que a trajetória de Hester precisa de alguma forma ser refletida. “Puritana” em suas ações, mas tratada como uma bruxa, sedutora e maliciosa, de acordo com a visão dos religiosos, Hester é sempre lembrada de sua transgressão por conta das travessuras da filha.

Ao retornar depois de um tempo em nova viagem, Roger Chillingworth, o antigo marido de Hester, se passa por médico e depois de algumas situações convenientes, vai morar com o clérigo. Abatido e com sinais de problemas sérios de saúde, Dimmesdale fica cada vez pior, até que um dia, enquanto dormia, o suposto médico examina o seu corpo e percebe que há uma marcação no peito do personagem: a letra A, cravada na carne, um símbolo do remorso do clérigo, responsável pela gravidez proibida de Hester. A sua peleja, no entanto, é pessoal e discreta, pois ele se corrói internamente, mas quem carrega a chaga pública é a mulher.

O segredo, assim, é revelado, e culmina no desfecho infeliz de vidas asfixiadas por uma sociedade erguida por pressupostos religiosamente hipócritas. Conter a curiosidade de Pearl é algo cada vez mais complicado, principalmente depois que uma viagem para a Inglaterra é abortada, prévia da morte do homem que podia salvá-la de sua condição. Livre da culpa ao se confessar, ele sente que já não faz mais sentido continuar a sua existência, e assim, entrega-se à morte. Hester vaga sem perspectiva, até que também encontra a ceifadora de vidas e também encerra a sua história no plano terreno.

Quando morre, a sua lápide dividida com o homem responsável por sua trajetória de opressão é marcada de vermelho com a letra A. Hester, até depois de morta, tem o seu destino selado por um acontecimento de sua juventude, carregado para a “eternidade”. Com enredo que se desenvolve entre 1642 e 1649, A Letra Escarlate retrata questões ligadas à moral, a condenação e a tolerância. Com trechos às vezes lentos, mas compreendidos pela profundidade psicológica de seus personagens, o romance possui um extenso legado.

Dentre os destaques, as ressonâncias em Dom Casmurro e Madame Bovary, de Machado de Assis e Gustave Flaubert, respectivamente, a ópera Tristão e Isolda, de Wagner, além das versões para o cinema. A adaptação dos anos 1980, com Demi Moore, é uma das mais conhecidas, bem como as referências bem empregadas da comédia A Mentira, de Will Gluck, divinamente interpretada por Emma Stone. Todas essas obras, antigas e contemporâneas, revelam questões ainda muito vivas na sociedade, com mulheres na luta por seus interesses.

A Letra Escarlate (Estados Unidos, 1850)
Autor: Nathaniel Hawthorne
Editora no Brasil: Companhia das Letras
Tradução: Christian Schwartz
Páginas: 336

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.