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Crítica | A Longa Noite de Terror

por Leonardo Campos
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Os cães são classificados como melhores amigos dos humanos, mas quando são contrariados, podem desenvolver um comportamento agressivo, perigoso e mortal. É assim que lidamos com essas criaturas em A Longa Noite de Terror, produção que é bem a cara de sua época, os anos 1970, a década de exaustão dos animais assassinos no cinema. Notícias de ataques de cães selvagens na ocasião deram vazão ao surgimento do romance que virou filme, mas há também um pouco de reflexão em diálogo com o cinema posterior ao advento das Grandes Guerras Mundiais marcantes no século XX. A crise nuclear, o avanço dos humanos diante do habitat animal, a poluição de rios, lagos e oceanos, bem como as queimadas, dentre outras formas de devastação, promoveram o interesse da indústria pela discussão de temáticas que acrescentassem ao assunto urgente, exacerbada carga ficcional para a criação de monstros aterrorizantes que alegorizassem o contato nocivo da humanidade diante da natureza. Dirigido por Robert Clouse, cineasta que também assumiu a concepção do roteiro, inspirado no romance homônimo de David Fisher, o filme nos apresenta cenas de ataque bem coreografadas, clima de horror conduzido com firmeza, dinâmica interna entre os personagens favorável para o avanço da narrativa, produção que apenas envelheceu um pouco, mas se visto pelo olhar diacrônico, não incomoda a espectatorialidade.

Na trama, somos apresentados a um biólogo marinho que é obrigado a lidar com cães que começam a atacar turistas em uma ilha, temática conhecida e bastante lucrativa na época e ainda hoje, território narrativo que já foi comandado por cineastas de luxo, tais como Alfred Hitchcock e Steven Spielberg, respectivamente, em Os Pássaros e Tubarão. O tal local, a Ilha Seal, localizada na costa leste dos Estados Unidos, é uma região pacata, sem ocorrências de crise, mas na ocasião interna da narrativa, encontra-se vazia. Várias famílias já se deslocaram para a retomada de suas funções diárias, mas o protagonista e dos demais personagens em A Longa Noite de Terror resolvem ficar um pouco mais para curtir. O que não esperavam era ter de lidar com uma matilha feroz e assassina, cães de estimação abandonados a vagar pela ilha em busca de comida. E sim, não estamos falando de ração, mas da boa e suculenta carne humana. Como lidar? O jogo não será fácil e a luta pela sobrevivência será absurdamente intensa, favorável como entretenimento para aqueles que tal como quem vos escreve, é interessado por filmes no estilo.

Compõem o grupo: Jerry (Joe Dan Baker), o biólogo marinho que mora na ilha e desenvolve uma pesquisa cientifica; o seu amigo, Guy (Eric Knight); Millie (Hope Alexander-Willis), uma professora, mãe de Paul (Steve Lytle), também namorada de Guy. Eles são vítimas em potencial, juntamente com o proprietário da ilha, o ambicioso Sr. Hardiman (Richard B. Shull), homem que sem imaginar o que acontecerá, recebe convidados de última hora, dentre as presenças ilustres, para a morte, o banqueiro Jim Dodge (Richard O’Brien), Tommy (Paul Wilson), Marge Walker (Bibi Besch), Lois (Sherry Miles), etc. A crise se estabelece quando um homem cego, vagante pela região, morre num ataque bastante violento. A morte de um cavalo também desperta as atenções do pesquisador, inicialmente com tempo para se preocupar, mas depois diante de uma situação absurdamente macabra, sendo necessário mais ação e menos contemplação dos fatos.

Para fazer a história de horror e morte apresentada em A Longa Noite de Terror funcionar, os realizadores contaram com o bom trabalho de Ralph Woolsey na direção de fotografia, adequada com sua paleta acinzentada e movimentação brusca da câmera nos momentos de interação entre os personagens e seus algozes, cães enfurecidos que circulam pelo espaço erguido por Russell Goble, design de produção que também colabora com o desenvolvimento dos espaços por onde circulam os personagens. As janelas, as portas e demais elementos de madeira transmitem fragilidade, pois mesmo que os animais sejam de pequeno/médio porte, a suspensão da descrença nos leva a entender que estas criaturas são dotadas de força anormal, contemplada nas expressões ameaçadoras dos bichos ao longo de todas as cenas de perseguição deste pequeno clássico que merece ser relembrado. Ademais, design de som e trilha sonora, assinados por Fred J. Brown e Lee Holdrige, respectivamente, reforçam a ameaça canina constantemente, através de camadas auditivas às vezes ferrenhas, noutros momentos, sutis, mas latentes. M. Rice assumiu os efeitos especiais, convincentes numa época prévia ao CGI, pois é bem provável que na atual dinâmica de produção industrial, os monstros do filme fossem todos computadorizados.

A Longa Noite de Terror (The Pack, EUA – 1977)
Direção: Robert Clouse
Roteiro: David Fisher, Robert Clouse
Elenco: Joe Don Baker, Bibi Besch, Delos V. Smith Jr., Eric Knight, Hope Alexander-Willis, Ned Wertimer, Paul Willson (I), R.G. Armstrong, Richard B. Shull, Richard O’Brien (II)
Duração: 95 minutos

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