Crítica | A Luz é Para Todos

estrelas 4

Mesmo com o impacto social causado à época de seu lançamento – apenas dois anos após o término da II Guerra Mundial –, A Luz é Para Todos foi recebido com bastante entusiasmo pela comunidade cinematográfica e pelo público. O filme adicionou lenha à fogueira da discussão sobre o antissemitismo e sobre o preconceito em geral, abrindo as portas para uma série de longas que abordariam o mesmo assunto nos anos seguintes.

Seu reconhecimento no Oscar daquele ano – cerimônia da qual saiu com 3 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Celeste Holm ) e Melhor Diretor – é um exemplo do valor imediato que ganhou nos Estados Unidos e permitiu que fosse visto e divulgado de forma crescente, a ponto de se tornar um dos filmes icônicos e um dos mais conhecidos de Elia Kazan.

Gregory Peck – que havia sido advertido por seu agente para não aceitar o papel – vive um jornalista que se muda para Nova York e começa a trabalhar em uma artigo sobre antissemitismo para uma revista de circulação nacional. Sua abordagem deveria ser “diferenciada”, mas ele não encontra um caminho para fazer isso de modo que diga algo diferente de tudo o que já havia sido dito. É então que tem a ideia de assumir-se como judeu por 2 meses e então escrever o artigo sob um outro ponto de vista.

Diante dessa interessante premissa, baseada na obra de Laura Z. Hobso, o roteiro adota uma curiosa apresentação (que hoje pode nos parecer batida) para trabalhar o impacto do preconceito na vida de uma pessoa e como esse preconceito é exercido e disseminado, não apenas no caso dos judeus, mas este é o principal foco discutido na obra e o texto perpassa as várias interpretações e identidades que se podem assumir no caso de um segregador antissemita ou vítima que, acostumada às várias agressões, piadas, recusas e exclusões, acaba por adotar o palco do algoz como se fosse seu, utilizando sua própria condição como piada agressiva, algo que podemos não só aplicar ao “judeuzinho” mas também aos “inocentes” termos tão bem conhecidos por todos.

O curioso é que com o passar dos anos a proposta discutida em A Luz é Para Todos se tornou mais viva e necessária, porém, ganhou um outro contorno em sociedade. Hoje, ela passa pela acusação do politicamente correto, da ideia de que “não é preconceito, é apenas a minha opinião. Desde quando ter opinião é uma forma de preconceito?” e assim por diante. Parece-nos que a intolerância e necessidade de diminuir, massacrar e condenar um grupo de pessoas às chamas do inferno, ao ostracismo social, ao extermínio ou à periferia da lei é palavra de ordem para um outro grupo de pessoas, aqueles que se acham superiores por estarem na maioria ou simplesmente por acreditarem estar no caminho dos santos rumo à salvação – e agindo como se fosse perfeitamente caridoso pisotear e condenar os que não seguem o mesmo caminho.

O problema em A Luz é Para Todos é que essa discussão se perde nos meandros do exagero temático (posto no texto como medida de destacar uma situação mas que nos aprece descaradamente estranho) e na linha dupla do romance que se fixa em dado momento da fita, além da direção pouco dinâmica de Kazan, um trabalho um tanto inferior em relação ao seu excelente trabalho no leme de Laços Humanos.

Algumas preferências e ambientações do diretor voltam a aparecer aqui, seguindo um pouco o modelo de contexto geográfico visto em seu filme de estreia e em O Justiceiro. A cidade é apresentada como palco para uma crônica qualquer, partindo-se de um campo macro e diminuindo o espaço até chegar ao lar, aos cômodos da casa onde os segredos familiares nos são compartilhados. Um outro ponto curioso e a presença de crianças no elenco desses seus três primeiros filmes, todas elas bem dirigidas e com um importante papel na história.

A Luz é Para Todos aborda um tema árduo até para os dias de hoje, com todas as nuances vindas dos dois lados da moeda. O espectador adota o papel de juiz, júri e até vítima, incomodando-se aqui e ali no modo como o texto guia determinado ponto da história, mas encontrando elementos positivos na visão geral do problema. O filme consegue então vencer os pontos mais fracos de seu desenvolvimento e sobressair-se pela interessante soma de seu todo.

A Luz é Para Todos (Gentleman’s Agreement) – EUA, 1947
Direção:
Elia Kazan
Roteiro: Moss Hart, Elia Kazan (baseado na obra de Laura Z. Hobson)
Elenco: Gregory Peck, Dorothy McGuire, John Garfield, Celeste Holm, Anne Revere, June Havoc, Albert Dekker, Jane Wyatt, Dean Stockwell, Nicholas Joy, Sam Jaffe, Harold Vermilyea
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.