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Crítica | A Mãe (1926)

por Guilherme Rodrigues
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Os grandes filmes soviéticos relacionados a atos revolucionários geralmente evitam se focar em indivíduos, se apoiando em imagens de ações coletivas para contar a sua história, como A Greve e Outubro, de Eisenstein. O motivo para isso é evidente, já que a base ideológica dos filmes conta justamente com o poder da união entre os trabalhadores para conquistar seus objetivos. Nesse sentido, a obra de  Vsevolod Pudovkin A Mãe se destaca dos trabalhos da época por focar na jornada de uma só pessoa, a titular mãe, mas sem perder o foco no coletivo.

O longa, baseado no livro de mesmo nome escrito por Maxim Górki de 1906, conta a história de uma família em conflito. O pai (Aleksandr Chistyakov) é um homem violento e beberrão, mais aliado aos interesses patronais do que aos trabalhadores, e o filho, Pavel (Nikolai Batalov), com ideais comunistas, frequentemente entra em atrito com o seu progenitor, especialmente quando este ameaça ser violento com a mãe (Vera Baranovskaya). A matriarca, presa entre duas figuras tão contrastantes, vive dividida e abatida. Isso tudo se soma a difícil condição da família, que vive em um casebre sem muito conforto.

A situação piora quando o conflito ideológico entre pai e filho tem um clímax trágico. Após o pai aceitar o trabalho de suprimir uma greve, ele é morto por um dos manifestantes, que é um conhecido de Pavel. Acreditando estar fazendo a coisa certa, a mãe entrega seu próprio filho às autoridades, mas logo percebe o quanto o sistema é manipulado para favorecer as elites, enquanto pouco resta aos trabalhadores, e passa a se tornar uma militante.

Ao dar ênfase em pessoas em específicas, Pudovkin consegue trabalhar e dar espaço para as atuações, que encontram grande sinergia com sua encenação. A mãe, por exemplo, é frequentemente vista com olhar abatido, cansado, e por vezes à beira das lágrimas, e sua situação difícil é potencializada pelo modo como é filmada: quase sempre de cima pra baixo, em cenários vazios, isolada. Mesmo quando ela se encontra num lugar com outras pessoas, Pudovkin faz questão de isolá-la, enfatizando seu suplício solitário. 

Como disse previamente, mesmo se tratando de uma história sobre indivíduos, Pudovkin consegue dar um teor universal à história, especialmente na cena do julgamento. A imagem de uma estátua do Czar paira sobre a cena, nos relembrando do contexto maior da situação, que não se trata somente de uma pessoa sendo julgada: é o peso de toda uma classe sobre a outra.

Em A Mãe, o diretor coloca em cena suas ideias sobre montagem, na época inovadoras, de que o close não significava uma interrupção da cena. Isso é demonstrado com grande efeito, visto que o close up é frequentemente usado para denotar os sentimentos em cena. Um conflito entre duas pessoa é marcado por planos fechados nos rostos, a raiva de um homem pelo seu punho fechado, a indiferença de outro pelo como como seus dedos se mexem.

Conforme a protagonista se alia mais e mais a sua luta de classe, o modo como ela é representada também muda. Menos olhares abatidos, mais expressões serenas, e durante a manifestação ao final do filme, é genuinamente emocionante vê-la ao lado de outras pessoas, depois de tanto tempo sozinha. A grande imagem final do longa, como não poderia deixar de ser, é um close em seu rosto contra o céu, que mesmo com lágrimas, é forte, com a bandeira vermelha firmemente ao seu lado. Não é atoa que essa é a imagem mais famosa do filme, visto que durante toda sua narrativa ele foi construído para que esse momento seja merecido e impactante. 

A Mãe (Mat, 11 de outubro de 1926)
Direção: Vsevolod Pudovkin
Roteiro: Nathan Zarkhi, Maxim Gorky (livro)
Elenco: Vera Baranovskaya, Nikolai Batalov, Aleksandr Chistyakov, Ivan Koval-Samborsky, Anna Zemtsova
Duração: 89 minutos 

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