Crítica | A Máfia dos Tigres – Minissérie Completa

Diferente do que se fazia em termo de teorias, postulados e reflexões filosóficas no passado, definir o que é ou não é arte ou o que deve ou não ser consumido é algo que faz qualquer texto adentrar na zona da prepotência. Isso não impede que uma crítica possa descrever as suas impressões em torno de uma produção analisada, afinal, sabemos que estamos diante de um texto concebido no bojo do discurso. E, todo gênero do discurso, sem exceções, imprime as suas observações pessoais em torno do objeto analisado. Você pode ser ético, respeitar calorosamente o “outro” lado, em alguns casos, os diversos lados de um determinado tema, mas ficar nessa ciranda da imparcialidade é coisa de gente tola. Aliás, tolice é o que transborda em A Máfia dos Tigres, minissérie do Netflix lançada em 2020, material esteticamente bem concebido, mas com sete longos episódios repletos de histórias vulgares que representam o esvaziamento de sentido da nossa sociedade contemporânea. Assim, deixo logo a minha declaração assinada: a minissérie é um dos piores lixos culturais produzidos pelo serviço de streaming em questão. Não me cabe dizer a você que assista ou não. Mais interessante que confira, tire as suas próprias conclusões e retorne para um debate, combinado?

Antes de adentrar na análise da produção, devo dizer que já fui acusado de pernóstico, arrogante, metido a besta, dentre outras ofensas oriundas de pessoas que acreditam ser uma chatice esse lance de filosofar sobre a “nossa” condição existencial diante do comportamento humano em evolução (ou involução). Papo de crítico pedante. Conversa de professor demagogo. São tantas coisas que a exposição seria extensa. Devo dizer, no entanto, que a divagação vem da minha surpresa diante da série em questão. Um plot twist da vida real. Quem me conhece/acompanha profissionalmente sabe que uma das minhas linhas de estudo diletantes é o subgênero Horror Ecológico, seara de realizações literárias e cinematográficas que tem o ser humano em conflito com forças da natureza como a base para o desenvolvimento das suas histórias.

Ao descobrir a série depois de ler uma reportagem (não era uma crítica) sobre o material, determinei que iria conferir o quanto antes, pois uma minissérie sobre a criação de felinos em cativeiro provavelmente apresentaria uma abordagem polêmica da interação entre humanos e animais selvagens. A quantidade de adjetivações para a série era algo exorbitante nas primeiras pesquisas antes de começar a conferir tudo. De volta ao plot twist mencionado, iniciei. O primeiro episódio veio cheio de interrogações. Além de tigres, outros animais eram mencionados dentro de um curioso esquema de tráfico. Há uma cena absurda, com uma serpente aberta cirurgicamente para inserção de drogas para o deslocamento do material tal como as “mulas humanas”. Até então a minissérie apresentou legislação, máfia, etc. Parecia que tudo ia decorrer bem. Os depoimentos exóticos foram vistos com estranheza, sensação acompanhada pela mudança de tom logo no episódio seguinte. Foi quando a decepção e pavor tomaram conta do receptor que vos fala.

Há, sim, uma abordagem dos animais e da máfia como pano de fundo. Mas a minissérie vai além. E foi deste momento que veio a minha surpresa. Me perguntei constantemente onde estava tudo aquilo comentado em alguns portais já conhecidos por seus textos superficiais e irresponsáveis. As opiniões iam de “delicioso” a “imperdível para a sua quarentena”, isto é, mecanismos vulgares de textos sem muito o que dizer, voltado a ter mais curtidas que conteúdo em si. Uma vergonha completa. Semelhante ao material da série, um produto de 317 minutos que mostra de fato que a nossa atual condição pandêmica talvez tenha vindo para renovar as nossas impressões sobre determinadas coisas da vida. A Máfia dos Tigres é um entretenimento tão infeliz em sua abordagem que a sensação ao final é a de que o verdadeiro horror ecológico é humano, uma tese que em si nem é da série, mas dos próprios filmes do segmento, narrativas onde a selvageria mora na loucura e nauseante moralidade humana.

A cada mudança de episódio, a sensação que temos é indigesta, numa mistura de investigação criminal, reality show vulgar, de péssimo gosto, com documentário ecológico de última categoria. A minissérie trafega com uma técnica deslumbrante, mas utilizada para narrar um amontoado de situações toscas, a maioria aparentemente “representada” diante da câmera, tamanha a falta de sinceridade e convencimento dos depoentes. É um espetáculo do horror, do abjeto, do comportamento humano longe de qualquer noção de ridículo. Se há algo que podemos salvar em A Máfia dos Tigres, sem dúvida é a opção dos documentaristas Eric Goode e Rebecca Chaiklin em não criar personagens sociais dentro de um eixo maniqueísta. Expostos no formato cabeças falantes pela direção de fotografia de Damine Draken, eficiente nas cenas de captação de imagens dos animais e de alguns exibicionismos de Joe Exotic, a minissérie flerta com o burlesco em sua abordagem temática.

Não há problemas de ordem estética. Pelo menos isso, pois se assim não fossem, o espetáculo do horror seria ainda pior. A condução sonora do trio formado por Mark Mothersbaugh, Albert Fox e John Enroth cumpre a sua função de embalar o material com uma sonoridade empolgante, mas o material que deveria fornecer substância é vulgar demais, sem moral alguma para ter profissionais tão qualificados como parte da equipe técnica responsável pela estruturação estética de um texto e desdobramento “dramático” tão decepcionante. Na direção dos sete episódios, Goode e Chaiklin não demonstram incompetência, ao contrário, eles sabem o que o público gosta e como funciona a máquina que investe no exibicionismo do infortúnio alheio para garantir magnetismo de um público cada vez mais acostumado com as migalhas que entretenimentos deste quilate tem para lhe oferecer. Rapidamente de volta ao que foi exposto anteriormente, difícil conceituar o que de fato é ou não é arte consumível/realizável. Se gera retorno, por que não produzir, não é mesmo?

Diferente do que já fiz em basicamente todas as minhas reflexões ao longo de tantos anos no campo da crítica, traçarei um breve panorama da tal série para que o leitor consiga compreender porque fiquei tão embasbacado com a suposta teoria sobre A Máfia dos Tigres ser tão imperdível, uma de tantas hiperbólicas definições encontradas pelas ramificações mais profundas da internet. Em sua estrutura textual, a minissérie se propõe a analisar o mundo da criação de animais selvagens nos Estados Unidos, isto é, empreendimentos que exploram a vida de espécies exóticas para o público interessado em chegar mais perto “daquele” animal que na dinâmica de um zoológico tradicional, não seria permitido por questões diversas, em especial, a segurança dos visitantes. Alguns animais já foram, conforme o depoimento, “contratados” para participar de filmes hollywoodianos. Um desses centros de exploração cobra em média 300 dólares para uma pessoa acariciar um tigre, por exemplo, ou chegar perto de algum outro felino conhecido por sua ferocidade.

Sigamos. O show de bizarrice começa logo na aparição de Joe Exotic, dono de um desses zoológicos privados. Ele já tentou ser presidente numa campanha horrenda, arriscou o posto de governador, flertou como youtuber durante longo tempo, investiu grana alta em videoclipes country, numa sarcástica proposta de cantor, além de ter se tornado conhecido como o idealizador do GW Zoo, homem que contratou alguém para ceifar a vida de sua concorrente, Carole Baskin, uma mulher que aparenta ser defensora dos animais enjaulados, mas que ao passo que a narrativa avança, descobrimos não ser tão equilibradas e dona de boas e puras intenções. Acusações de ambos os lados demonstram uma disputa por dinheiro e poder, sem medição de consequências. Baskin é uma mulher bem relacionada, sábia ao usar as redes sociais em prol de sua imagem de boa moça, mas empreendedora de uma causa bastante questionável, pois o seu santuário não é um reduto exclusivo para salvar esses animais, mas também para exibi-los aos olhos curiosos.

Acompanhamos depoimentos de pessoas que conviveram com os dois, lados obscuros de uma história cheia de situações que nos permite desconfiar constantemente do que é real e do que é encenação. Em determinado trecho, com exceção da qualidade estética de A Máfia dos Tigres, a impressão que se tem é que a minissérie segue uma linha semelhante aos documentários do grupo Animal Planet, em especifico, produções sobre sereias encontradas em determinados locais do planeta, lulas e javalis gigantes, tudo parte de encenações declaradas pelos produtores do canal como um flerte com novas formas de se produzir documentários, em suma, um desserviço gigantesco para uma área que permite a realização de outras produções tão nobres. Em vez de seguir com a abordagem do misterioso mercado ilegal de animais, a minissérie abandona o seu tema, de forma proposital, pois a dupla diretora não pensa como um mero estudante de vestibular que fugiu do tema de sua redação e se perdeu no meio da reflexão. A mudança de tom é proposital.

Saímos do tema mais atraente e adentramos numa investigação sobre muitas coisas, dentre elas, se foi ou não verdade a acusação contra Carole Baskin, isto é, as alegações de Exotic sobre a ativista ter matado um dos companheiros e jogado para os felinos se alimentarem. Há também um longo caminho de depoimentos acerca dos relacionamentos de Joe Exotic, um homem que cultuava coisas fora dos padrões, algo que não seria problema se não fosse tão antiético e de posturas questionáveis, além de ser conhecido por seduzir seus parceiros bem mais jovens por causa do estilo de vida surreal que esbanjava. Poliamor, poligamia, tentativa de assassinato, baixaria em redes sociais, pessoas que tiveram membros do corpo devorados por descuido no tratamento com os animais. A Máfia dos Tigres é uma mixagem hedionda de muitos ingredientes, embalados por um tom farsesco que reforça a miséria existencial não apenas dos envolvidos nas histórias que são apresentadas, mas também pelos ávidos consumidores engolidos pela sedutora exposição da banalidade. Em suma, um entretenimento focado na lavagem de roupa suja alheia, comportamento que tem como uma das explicações possíveis, o esvaziamento de sentido do próprio consumidor, tomado pela possibilidade de ver na vida do outro, algo mais intrigante e interessante que a sua própria condição dentro do mundo que habita. Péssimo panorama, não é mesmo, caro leitor?

A Máfia dos Tigres – Minissérie Completa (Tiger King/ EUA, 04 de janeiro de 2020)
Criadora: Eric Goode, Rebecca Chaiklin
Direção: Eric Goode, Rebecca Chaiklin
Roteiro: Eric Goode, Rebecca Chaiklin
Elenco: Joe Exotic, Carole Baskin, John Reinke, Kelci Saffery, John Finlay, Rick Kirkham, Erik Cowie, Bhagavan Antle, Howard Baskin, Eric Goode, Jeff Lowe, Lauren Lowe, Joshua Dial
Duração: 7 episódios, com cerca de 55 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.