Crítica | A Maldição da Chorona (2019)

No bojo de uma indústria cinematográfica que já se expandiu como um rizoma por todos os lados possíveis, continuidades e conexões entre universos fílmicos são alguns dos itens que compõem a receita dos conglomerados mais poderosos do sistema. Com Invocação do Mal, James Wan entregou ao público um filme de terror elegante, eficiente ao mesclar modelos narrativos distintos e promover uma narrativa poderosa numa era de descrença para o gênero terror. Sob a direção do iniciante Michael Chaves, provável cineasta responsável pelo reencontro de Ed e Lorraine Warren em Invocação do Mal 3, a nova incursão do universo não ousa em nenhum aspecto.

Mantendo-se como um filme de terror ancorado em fórmulas dos antecessores de seu próprio universo, regrado na tensão e dependente de jump scare em muitos trechos, A Maldição da Chorona é um filme honesto com a sua proposta. Amplamente superior ao apático A Freira, algumas das principais cenas do filme foram demasiadamente exploradas na divulgação. O trecho das crianças no interior do carro, perseguidos pela Chorona, apresentado em sua totalidade num dos trailers, por exemplo, torna-se uma passagem já esgotada e sem surpresas quando estamos diante do produto final.

Sendo assim, na era da descrença, A Maldição da Chorona é um filme que segue o esquema industrial e serve como entretenimento. O esquema estrutural é, mais uma vez, a família. A antagonista, interpretada por Marisol Ramirez, é uma presença espiritual que vaga desde 1673, quando num surto de ciúmes, afogou os dois filhos para atingir o marido. Neste breve paralelo não declarado com a Medeia, de Eurípedes, ela ceifa a vida de duas crianças e condena-se a passar a eternidade chorando de arrependimento e em busca de crianças para substituir as suas.

Depois do preâmbulo no século XVII, a narrativa retorna para 1973, período predileto da franquia, abordado com eficiência nas demais produções da franquia. A trama foca na assistente social Anna Tate-Garcia (Linda Cardellini), agente destinada a cuidar do caso de Donna (Irene Keng), mulher submetida à inspeção por conta da acusação de maus tratos e outros problemas na criação de seus dois filhos. Ao chegar para avaliação, Anna encontra as crianças trancafiadas num claustrofóbico aposento, ao estilo Carrie – A Estranha. Depois de alguma resistência Anna consegue tirar algumas informações de Donna, mas logo adiante é atacada e precisa de ajuda do oficial acompanhante para não ser agredida. A mãe é presa e as crianças são levadas.

O que ninguém esperava era que Donna estivesse guardando as crianças no local como proteção para a Chorona, a entidade descrita anteriormente, presente na cultura estadunidense pelos imigrantes mexicanos que mantém, mesmo que diluídas, às suas crenças. Anna desenvolve seu trabalho no departamento e nem pode expurga-los em casa, pois vive o dilema da viuvez, haja vista a prematura de seu marido, oficial de polícia, o que a faz lutar com todas as forças para manter os dois filhos, Chris (Roman Christou) e Samantha (Jaynee-Lynee Kinchen), bem como a sua lucidez.

Será neste lar problemático que a Chorona estabelecerá a sua meta seguinte de execução de almas infantis. Certa noite, Anna recebe uma ligação do Detetive Cooper (Sean Patrick Thomas). Ele solicita a sua presença na averiguação dos cadáveres dos filhos de Donna. Transtornada com o acontecimento, a matriarca segue juntamente com os dois filhos e pede que eles fiquem no carro enquanto ela verifica a situação. Logo depois chega Donna aos gritos, culpando-a da morte das crianças, alegando que a Chorona é a responsável e que em breve Anna sofrerá o mesmo.

Deste momento em diante, a narrativa segue a cartilha dos filmes desta linhagem. Cética, Anna não acreditará até situações estranhas começarem a ocorrer em sua casa. Durante a investigação dos cadáveres, o seu filho saiu do carro e escutou o som do choro da entidade, o que culminou na aproximação do ser maligno que possui lágrimas ardentes e visual aterrorizante. A imagem se tornará constante, por sinal, com queimaduras aberrantes e outras situações incomuns em seu lar, metaforicamente disfuncional e desequilibrado com a trágica partida do pai.

Assim, a descrença de Anna andará por novos trilhos depois que o conselho tutelar investiga as estranhas marcas em seus filhos e desconfia de maus tratos, semelhantes aos casos investigados pela protagonista. Sem saber como proceder, o próximo passo é buscar ajuda de um padre (Tony Amendola), representante oficial da Igreja Católica que informa a necessidade de agir mais rápido, pois a entidade em questão está cada vez mais próxima de levar seus filhos. Como um ritual oficial demanda semanas para autorização e afins, o padre indica um membro afastado da congregação, Rafael Olvera (Raymond Cruz), homem que representa o sincretismo religioso de uma região que tem em sua cultura a adoção de hábitos ritualísticos de religiões distintas. Sem diferença alguma em relação aos demais filmes de expulsão de presenças malignas, Rafael utiliza o sinal da cruz, água benta, contraveneno (lágrimas da chorona), crucifixos, velas e outros itens sacros, o que dá início a uma batalha enérgica contra as forças do mal, culminando no terceiro ato, o mais longo e agitado de todos.

Mesmo diante de todos os seus problemas narrativos, tais como a repetição de fórmulas batidas e a insistência na sonoridade como elemento de agonia para temermos a presença da Chorona, a produção ganha por não deixar um final aberto para supostas continuações, afinal, a trajetória da antagonista sustenta suficientemente apenas um filme, não mais que isso. O design de produção de Melaine Jones insere o espectador nos anos 1970 de maneira cuidadosa e peculiar, principalmente nos cenários assinados por Sandra Skora, erguidos com tons pálidos, tal como o atual estado da família protagonista, iluminado por contrastes pela direção de fotografia de Michael Burgess, sofisticada e com abertura semelhante ao primeiro Invocação do Mal e sua câmera deslizante que adentra os espaços e apresenta os personagens como se fosse parte integrante daquele conjunto.

Ademais, A Maldição da Chorona é um filme genérico, ofensivo para os mais exigentes e básico para quem não esperava nada da produção, meu caso, cético diante de uma produção que causava risadas coletivas nas numerosas exibições de seus trailers ao longo dos últimos meses. Guiado pelo roteiro de Mikki Daughtry e Tobias Iacons, o cineasta Michael Chaves faz o que pode, acrescenta tomadas que referenciam Evil Dead – A Morte do Demônio e outros filmes de terror, alcança um resultado mediano e comprova que os derivados da franquia base de James Wan ainda possuem muitas maldições e entidades malignas para contemplar.

A Maldição da Chorona — (The Curse of La Llorona) Estados Unidos, 2019.
Direção: Michael Chaves
Roteiro: Mikki Daughtry, Tobias Iaconis
Elenco: Aiden Lewandowski, Andrew Tinpo Lee, DeLaRosa Rivera, Irene Keng, Jaynee-Lynne Kinchen, John Marshall Jones, Linda Cardellini, Madeleine McGraw, Marisol Ramirez, Oliver Alexander, Patricia Velasquez, Raymond Cruz, Ricardo Mamood-Vega, Roman Christou, Sean Patrick Thomas, Sophia Santi
Duração: 93 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.