Crítica | A Maldição de Frankenstein

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Nas décadas de 1930 e 1940, monstros como Drácula, a criatura de Frankenstein e a Múmia, sob a batuta da Universal Studios, comandavam o cinema de terror com as suas histórias góticas. Mas com o fim da 2ª Guerra Mundial, este tipo de trama perdeu o apelo dentro do gênero, dando lugar aos monstros atômicos e criaturas alienígenas, que dialogavam melhor com os medos sociais da época. No fim da década de 50, a Hammer Films, um modesto estúdio britânico, resolveu resgatar os monstros clássicos da Universal (pelo menos aqueles em domínio público), voltando a apostar no terror gótico, acrescentando as cores vermelhas do sangue e uma perspectiva mais sombria. O passo inicial desta empreitada foi uma nova versão do famoso romance de Mary Shelley, Frankenstein, mas diferente da adaptação de 1931, dirigida por James Whale, este A Maldição de Frankenstein traz um foco muito maior no cientista do que no monstro.

Na trama, o Barão Victor Frankenstein (Peter Cushing) está preso por assassinato, aguardando a execução na guilhotina. Embora não seja religioso, Frankenstein aceita falar com um padre (Alex Gallier) para que ele o ajude a provar a sua inocência, pois o cientista alega que os crimes dos quais é acusado não foram cometidos por ele, e sim por um monstro (Christopher Lee) criado por ele próprio com partes de cadáveres. Dirigido por Terence Fisher e escrito por Jimmy Sangster, A Maldição de Frankenstein toma muitas liberdades em relação ao material original, especialmente no que diz respeito ao protagonista. Tanto no romance quanto na maioria das adaptações, apesar de Frankenstein sempre ser retratado como um sujeito prepotente e egoísta, sendo inclusive apontado como o verdadeiro monstro, Victor nunca de fato foi mostrado como uma pessoa de má índole, somente alguém perigosamente irresponsável, que não tem ideia com o que está mexendo.

Mas o filme opta por um caminho diferente. O Frankenstein interpretado por Cushing é um homem para quem os fins justificam os meios, capaz de fazer qualquer coisa para criar o ser perfeito. Ao construir o seu vilão principal, o roteiro de Sangster, embora apoie-se na tradicional figura do cientista louco, deixa Frankenstein mais próximo do psicopata contemporâneo do que dos cientistas megalomaníacos dos filmes da década de 1930 e 1940, já que a insensibilidade e traços manipuladores de Victor não se limitam ás suas pesquisas, também estando presentes em sua vida pessoal. Frankenstein não sente culpa alguma por fazer promessas de casamento para a sua criada Justine (Valerie Gaunt) para levá-la pra cama, somente para humilhá-la e descartá-la depois, mesmo ela estando grávida de seu filho. Da mesma forma, não hesita em manipular os sentimentos que seu mentor Paul Krempe (Robert Urquhart) passa a nutrir pela sua própria noiva, Elizabeth (Hazel Court).

 Talvez por termos um Frankenstein mais vilanesco, isso acabe se refletindo na caracterização do monstro. Assim como a interpretação de Boris Karloff no filme de 1931, a criatura vivida por Christopher Lee é um ser muito mais instintivo do que racional. Mas enquanto o monstro de Karloff era uma criança que desconhecia a própria força e só matava de forma acidental ou quando provocado, a criatura de Lee é violenta por natureza e a sua primeira atitude após ganhar vida é tentar estrangular o seu criador. De fato, o filme vai tão longe ao ponto de pegar o momento ondoe monstro encontra um velho homem cego (passagem que tanto no livro de Shelley quanto em A Noiva de Frankenstein tem a função de nos fazer simpatizar com a criatura) e a subverte, tornando o velho uma vítima da fúria do monstro. Fechando o trio principal, Robert Urquhart confere a dignidade necessária para Paul Krempe, que inutilmente tenta agir como a consciência de seu antigo pupilo. Embora a preocupação com Elizabeth (ou paixão, embora isso nunca seja assumido pelo filme) não convença, afinal, o professor tem muito pouco contato com a moça, Krempe se torna um personagem suficientemente interessante para servir de contraponto ao antiético Frankenstein, ainda que ao final da obra (possivelmente) revele que mesmo o seu código moral tem limites.

A Maldição de Frankenstein lançou o “estilo visual Hammer” de se fazer cinema. Embora ainda não tenha a elegância visual de obras posteriores como O Vampiro da Noite (1958) ou A Górgona (1964), a obra introduz os elementos que se tornariam a marca registrada do estúdio e especialmente do diretor Terence Fisher, como a a ambientação gótica, a violência gráfica e sutis doses de erotismo. O filme também foi uma das primeiras produções a trabalhar com a estética gore a cores, mas escapa da armadilha de utilizar o recurso de forma apelativa. Claro, perto do que é produzido nos dias de hoje, cenas como a de Frankenstein friamente manipulando órgãos e mãos decepadas, ou do sangue espirrando do rosto da criatura após ela ser baleada já não tem mais tanto valor de choque, mas funcionam para ilustrar a personalidade de Frankenstein e dar força para a virada dramática presente na aparente morte da criatura. Apesar de suas qualidades, não se pode negar que o filme de Terence Fisher possua alguns problemas de cadência dramática, podendo soar um pouco arrastado em alguns momentos, o que é uma sensação estranha para um filme de pouco mais de oitenta minutos. Isso torna-se mais incômodo quando percebemos que alguns pontos do roteiro poderiam ter sido um pouco melhor explorados para dar mais credibilidade a narrativa, como a citada relação entre Elizabeth e Paul. 

SPOILERS!

Entrando um pouco em uma área de spoilers, a obra entrega um final bastante ambíguo e livre para interpretações, ao sugerir que a história contada ao padre por Frankenstein pode ser tudo uma grande alucinação do cientista, e que nunca houve um monstro de fato; o que surge como uma abordagem bem sombria do conceito do cientista como o verdadeiro monstro. Por outro lado, como dito anteriormente, o fato de Paul simplesmente negar a existência do monstro, pode ser simplesmente um ato de vingança do professor, já que Victor ainda é indiretamente responsável pelas mortes das quais é acusado (de fato, ele chega a trancar uma vítima com o monstro).

Apesar de alguns pecadilhos, A Maldição de Frankenstein ainda é um filme com muitos méritos. O longa-metragem de Terence Fisher foi massacrado pela crítica da época, mas foi abraçado pelo público, faturando alto em cima dos seus baixos custos de produção, o que não só garantiu o retorno do Barão Frankenstein para mais cinco continuações (sempre com Peter Cushing à frente do elenco) mas deu o sinal verde para a era do terror gótico da Hammer Films, cuja produção se tornaria extremamente influente no cinema de terror.

A Maldição de Frankenstein (The Curse Of Frankenstein)- Reino Unido. 1957
Direção: Terence Fisher
Roteiro: Jimmy Sangster (Baseado em Romance de Mary Shelley)
Elenco: Peter Cushing, Christopher Lee, Hazel Court, Robert Urquhart, Melvin Hayes, Valerie Gaunt, Paul Hardtmuth, Alex Gallier
Duração: 82 Minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.