Crítica | A Maldição de Samantha

Não fossem os êxitos de Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos, A Hora do Pesadelo e Pânico, a carreira de Wes Craven teria sido bastante irregular. Num exercício crítico retrospectivo, distante da visão amadora e rasa de cinema que geralmente desenvolvemos na infância e adolescência, percebemos o quão este cineasta já desperdiçou boas oportunidades, algumas por ter perdido a mão enquanto orquestrador do horror, noutras ocasiões pelo nefasto controle dos estúdios e produtores. Desta vez, o criador de Freddy Krueger dirigiu o roteiro de Bruce Joel Rubin, texto inspirado no conto Friend, de Diana Henstell.

Há de se observar, em sua carreira, dois setores: o primeiro engloba os filmes citados na abertura desta reflexão. Críticas sociais com revestimento poderoso no quesito entretenimento. Por outro lado, temos as obras inferiores, sendo A Maldição de Samantha uma narrativa que se enquadra na segunda opção, juntamente com Quadrilha de Sádicos 2, Shocker – 100 Mil Volts de Horror, A Maldição dos Mortos-Vivos, dentre outros. Na produção, o jovem Paul Conway (Matthew Labyorteaux) é um estudante universitário que acabou de se mudar para uma cidadezinha pacata.

A mudança vem juntamente com a proposta de estudar Inteligência Artificial na universidade local. Inteligente e criativo, Paul tem Tom (Michael Sharret) como um dos poucos, mas principais amigos. Eles dividem diversas conversas e segredos, dentre eles, o interesse amoroso que Paul desenvolverá por Samantha (Kristy Swanson). Dentre as suas criações, há um robô dotado de muita inteligência, uma das paixões de Paul. O robô, humanizado pelo personagem, possui uma voz dócil e ponto de vista semelhante ao de um holograma.

Não demora muito tempo para a caricata vizinha problemática, a Sra. Elvira (Anne Ramsey), atirar contra a invenção do rapaz, destroçando-a em pedaços. Para piorar, Samantha, jovem em constante conflito com o pai tirano, sofre um acidente causado pelo mesmo, ao empurrar a moça de uma escada durante uma discussão, o que causa traumatismo craniano, levando-a ao óbito. Na linha “cientista”, o rapaz resolve salvar a jovem que voltará dos mundos dos mortos. Mas será que retornará como a mesma pessoa?

Tal como a história clássica de Frankenstein, as coisas saem do controle. Diferente do planejado, a garota se torna um robô assassino com sede de vingança, disposta a ceifar a vida das pessoas que a irritaram durante a sua curta vida. Não há “maldição”, ao contrário do que afirma o título brasileiro. Tampouco rastro de sangue ao estilo slasher, a moda do horror na década de 1980. Fora a vingança contra o pai, razoável no quesito violência, além da icônica bola de basquete indo de encontro à irritante Sra. Elvira, A Maldição de Samantha é um filme que se reveste e é vendido como horror, mas fica na zona do drama sobrenatural com pitadas de ficção científica.

Depois do processo de implante do chip, Samantha começa a andar como os monstros do cinema de horror clássico, com braços enrijecidos e maquiagem cheia de sombreamento azul que a deixa com aspecto macabro, trabalho realizado por Michael Hancock. No bojo técnico, temos ainda a cenografia de Edward J. McDonald como destaque, responsável por trazer ao filme um aspecto suburbano tranquilo, aparentemente harmonioso, setor que ganha tais contornos junto à direção de arte de John Loggia, setores captados pela direção de fotografia adequada de Philip H. Lathrop.

Ademais, a condução musical de Charles Bernstein traz algum ritmo ao filme. Diferente das incursões sangrentas anteriores de Wes Craven, desta vez, drama e algumas doses razoáveis de suspense se estabelecem, com destaque apenas para a famosa cena da bola de basquete que estoura os miolos da tirana caricata da rua, um marco na vida cinéfila de quem viveu os anos 1980 e 1990 nas videolocadoras em busca de algum VHS para diversão no final de semana. Lançado em 1986, A Maldição de Samantha apresenta ao público 91 minutos de um ensaio cinematográfico menor de Wes Craven, antecedente de outros dois fiascos.

A Maldição de Samantha (Deadly Friend/Estados Unidos, 1986)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Bruce Joel Rubin, Diana Henstell
Elenco: Kristy Swanson, Matthew Labyorteaux, Andrew Roperto, Anne Ramsey, Anne Twomey, Charles Fleischer, Michael Sharrett, Richard Marcus, Russ Marin
Duração: 91 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.