Crítica | A Maldição do Demônio (A Máscara do Demônio)

A carreira cinematográfica de Mario Bava começou em 1939, quando ele fez a fotografia para dois curtas-metragens. Demoraria algum tempo (e empregos como operador de câmera e responsável por efeitos especiais) até que ele de fato assumisse a direção, o que aconteceu em 1946, com o documentário L’orecchio, hoje perdido. O diretor trabalharia com curtas-metragens até que passou a receber tarefas parciais na direção de alguns longas-metragens, assumindo a direção de alguns núcleos, cobrindo diretores afastados ou que abandonaram o filme na metade e dirigindo cenas de algumas obras por uns dias. Esse processo durou dois anos na vida do cineasta e compreendeu os seguintes filmes, pelos quais Bava não foi devidamente creditado: Os Vampiros (1957), A Morte Vem do Espaço (1958), Hércules e a Rainha da LídiaCaltiki, o Monstro Imortal e O Gigante de Maratona, todos de 1959.

Foi Nello Santi, o chefão da Galatea Film, que ofereceu a Bava A Maldição do Demônio (A Máscara do Demônio ou A Máscara de Satã), o projeto que se tornaria o primeiro longa-metragem assinado do diretor, então com 45 anos. Baseado na novela Viy (originalmente publicada na coleção Mirgorod, em 1835), de Nikolai Gógol, este terror gótico de Bava tem bem menos a ver com a obra russa e mais com uma leva de filmes de terror da Universal nos anos 1930, e isso graças a certas medidas do estúdio e ao roteiro de Ennio De Concini e Mario Serandrei (para o qual Bava também contribuiu), que insiste na camada amorosa e carece de melhor contexto na parte final, um contraste quase risível se comparado ao caprichado e elogiável início da obra.

A abertura do filme é definitivamente o seu melhor momento, um dos mais assustadores — sem apelação — e de boa direção em toda a obra, com os setores técnicos funcionando muito bem (inclusive o som, que devido a redublagem, se tornou motivo de estranheza no decorrer da fita). Nesta sequência, ambientada na Moldávia, em 1630, vemos a bruxa Asa Vajda (Barbara Steele) e seu amante Javutich (Arturo Dominici) serem mortos/purificados, com um ritual visualmente muito bonito, cheio de bons simbolismos medievais e místicos, culminando com uma ameaça profética por parte de Asa, dizendo que perseguiria os descendentes de seu irmão e executor até o fim dos tempos. Há claramente uma intriga palaciana envolvida na execução de Asa, mas isso não é tocado aqui. O foco é o elemento de terror que explode na tela com toda a força, tendo um encerramento de sequência violento e marcante, daqueles de fazer o espectador querer virar o rosto. Não à toa — e isso vale para diversas outras cenas aqui — a fita foi banida do Reino Unido e reeditada para que pudesse ser lançada nos Estados Unidos.

Sendo também responsável pela direção de fotografia do filme (algo que faz com grande eficácia) Mario Bava traz o máximo de elementos clichês do terror para criar a atmosfera geral da obra, seja no espaço geográfico seja nos ambientes internos, e a partir dessa premissa de coisas identificáveis pelo público, começa a corromper algumas expectativas, basta notar a cadência do horror construída na cena da carruagem com o Dr. Kruvajan (Andrea Checchi) e seu assistente Gorobec (John Richardson), momento essencial para a construção da grande virada da fita e onde a ideia de bruxaria liga-se a um outro tema bastante forte na região representada, mesmo 200 anos depois, quando este segmento do filme se passa: a mitologia dos vampiros.

Talvez por ser tão bem construído no início é que o filme acaba entrando por um caminho cada vez mais difícil de aceitar. À medida que a trama vampírica toma conta da história, a direção muda consideravelmente o modo como trata seus personagens, fazendo-os andar de modo similar a um zumbi e carregar um notável problema de sentido geral para a história, onde o plano maior (a vingança da bruxa Asa) é diluído em uma série de ações confusas. O que mantém-se em alta em todo o processo é a direção de arte, a fotografia e em menor grau a direção, que também tem sua cota de momentos questionáveis aqui. O elenco não está ruim, mas as interpretações, talvez por uma exigência do diretor em termos de caraterização mais marcante e um pouco anacrônica, não têm um grande papel na criação de coisas imensamente inesquecíveis do filme — bem, exceto pelo rosto de Barbara Steele com olhos arregalados. Isso não dá para esquecer.

Importante por ter a coragem de sair das convenções do gênero e desenhar um estilo bem característico para o diretor Mario Bava, A Maldição do Demônio (A Máscara do Demônio) é um daqueles filmes que, a despeito de seus problemas, consegue garantir lugar no espaço reservado às trevas em nosso coração. Uma obra difícil de ignorar.

A Maldição do Demônio (La maschera del demonio) – Itália, 1960
Direção: Mario Bava
Roteiro: Ennio De Concini, Mario Serandrei
Elenco: Barbara Steele, John Richardson, Andrea Checchi, Ivo Garrani, Arturo Dominici, Enrico Olivieri, Antonio Pierfederici, Tino Bianchi, Clara Bindi, Mario Passante, Renato Terra, Germana Dominici
Duração: 87 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.