Crítica | A Maldição do Sangue da Pantera

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Lançado em 1942, Sangue de Pantera, filme de terror de baixo orçamento dirigido por Jacques Tourneur e produzido por Val Lewton não apenas foi um grande sucesso de bilheteria, como também salvou o estúdio RKO da falência. Assim, não é de se surpreender que o estúdio tenha começado a pressionar Lewton para que produzisse uma sequência. Passando por uma produção conturbada, que viu o diretor original, Gunther Von Fritsch, ser substituído por Robert Wise (em seu primeiro trabalho como diretor) depois que o primeiro não conseguiu sustentar o cronograma, o filme chegou aos cinemas em 1944, trazendo uma obra bem diferente da produção original.

Na trama, Amy Reed (Ann Carter) é uma garotinha de seis anos que, devido à sua imaginação fértil somada ao fato de estar sempre sonhando acordada, tem dificuldade em se relacionar com outras crianças, o que preocupa e irrita seu pai Oliver (Kent Smith). Ao mesmo tempo em que faz amizade com uma velha atriz senil chamada Julia Farren (Julia Dean), Amy ganha uma nova amiga, Irina (Simone Simon), uma mulher que a garota reconhece de uma antiga fotografia de sua casa. O problema é que Irina é a falecida primeira esposa de seu pai. Estaria Amy vendo o fantasma de Irina, ou tudo não passa de imaginação da menina?

A Maldição do Sangue de Pantera surge como uma das sequâncias mais estranhas que eu já vi na vida, tomando um rumo totalmente diferente do visto no filme original. O longa-metragem de Jacques Tourneur era um suspense bastante intimista e de caráter urbano, que tratava basicamente sobre a repressão sexual de uma mulher. Já o filme de Wise e Von Fritsch é um drama infantil lúdico com um velho toque de terror gótico tradicional, que trata da solidão da filha do casal que sobreviveu à fúria de Irina, no filme original.

A verdade é que existe bastante oportunismo no título, pois apesar de grande parte do elenco original retornar para este segundo filme, seus personagens poderiam muito bem ser outros que não faria diferença alguma para a narrativa. A tal maldição que é vista no filme original não chega nem perto de dar as caras, sendo apenas sutilmente referenciada pelos personagens. Por isto, este filme tem certo cheiro de enganação. Mas isto não é culpa nem dos diretores e nem do produtor Val Lewton, que quando idealizou a história, não a imaginou como uma sequência do filme de 1942 — mas foi obrigado pela RKO a adaptar seu enredo sobre uma menina e sua amiga imaginária ao mundo de Sangue de Pantera (forçando também o título A Maldição do Sangue de Pantera, que não tem absolutamente nada a ver com o filme).

Mas oportunismos à parte, A Maldição do Sangue de Pantera é um filme bem simpático, possuindo até mesmo certa delicadeza. O roteiro de Dewitt Bodeen, que também escreveu o primeiro filme, explora de forma satisfatória a incompreensão do pai da jovem protagonista em relação à sua filha e a forma como a pequena Amy enxerga o mundo. A obra também consegue criar pequenas sequências de suspense bem interessantes. Um destaque é a cena onde a velha atriz conta para Amy a lenda do cavaleiro sem cabeça, enquanto o plano lentamente se fecha no rosto da menina e passamos a ouvir o som de cascos de cavalo, que voltam a ser ouvidos pela garota em uma cena posterior, quando ela anda na estrada sozinha.

São cenas simples, mas que retratam de forma bastante eficiente uma suposta ameaça vista pelos olhos de uma criança. A verdadeira ameaça aqui não é o “fantasma” de Irina (que surge como uma força benevolente, mesmo que sua existência seja ambígua), e sim a instável Barbara (Elizabeth Russell, a única atriz que participa da sequência a voltar com outra personagem), filha da velha atriz com quem Amy faz amizade e cuja relação distante com a mãe surge como um reflexo do distanciamento de Amy e Oliver.

A Maldição do Sangue de Pantera poderia ter mais brilho se não fosse uma sequência forçada. Está longe de ser o melhor projeto da série de filmes de horror que Val Lewton produziu para a RKO na primeira metade da década de 40, mas ainda é interessante de se assistir pelo delicado olhar que lança sobre a solidão infantil.

A Maldição do Sangue de Pantera (The Curse of The Cat People)- Estados Unidos, 1944
Direção: Gunther Von Fritsch, Robert Wise
Roteiro: Dewitt Bodeen
Elenco: Simone Simon, Kent Smith, Jane Randolph, Ann Carter, Eve March, Julia Dean, Elizabeth Russell, Erford Gage, Charles Bates, Joel Davis, Nita Hunter, Sarah Selby.
Duração: 70 minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.