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Crítica | A Maldição dos Gatos (Trama Sinistra)

por Leonardo Campos
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Os gatos são animais com potencial mitológico grandioso, mas não possuem um porte de grande destruição e medo, suficientes para protagonizar narrativas convincentes do segmento horror ecológico, no papel de monstros assassinos perigosamente mortais. Em todas as incursões realizadas ao longo da história do cinema, Sem Convite e Instinto Assassino são duas das mais conhecidas, voltadas aos estragos causados por esses felinos domésticos, a primeira, focada no transtorno ocasionado por uma manipulação genética que dá errado e a segunda, erguida com base num gato aparentemente normal em sua estrutura física, mas dono do poder de transformar o cotidiano das pessoas que circunda em situações de tragédia constante, tal como ocorre com A Maldição dos Gatos, conhecido também pelo título Trama Sinistra. Com closes constantes nos olhos destes felinos e algumas investidas no formato POV, a história se desenvolve com ritmo fluente ao longo de seus 88 minutos.

Realizado em 1977, a produção dirigida pelo canadense Denis Heroix, cineasta guiado pelo roteiro de Michel Parry, aborda a presença destes animais como catalisadores de acontecimentos macabros, narrados pelo escritor Wilbur Gray (Peter Cushing), na ocasião de uma visita ao seu editor, tendo em vista convencê-lo no processo de publicação de seu último material literário. Sem o ritmo frenético esperado pelas plateias mais atuais, ainda assim, a produção consegue ser envolvente, ao tratar de maneira simples, sem grandes efeitos visuais e histórias incomuns, situações que mesmo abordadas em contextos aparentemente urbanos, transmitem uma sensação gótica de abandono e horror, mesmo nas cenas onde não há ataque destes felinos que aqui, ocupam um posicionamento nunca monstruoso em seus requisitos físicos, mas promovem a destruição em escalas catastróficas, sempre motivados pelo desejo de vingança.

Na trama, acompanhamos o mencionado escritor a narrar para seu editor três casos que envolvem gatos em situações comportamentais bizarras. Conforme o seu ponto de vista, os felinos possuem a capacidade de se comunicar com os seres humanos e também conseguem exercer domínio quando estão empenhados em retaliação diante de alguém que lhe fez mal, ou então, agrediu o seu dono. São histórias que demonstram como a polícia foi incapaz de conseguir descobrir o mistério por detrás de mortes misteriosas, atribuídas pelo autor aos gatos. Na primeira, uma empregada mata friamente a sua patroa idosa, dona de uma quantia que traria tranquilidade para o futuro da jovem ambiciosa. O que ela não esperava era uma emboscada dos animais que a deixa isolada durante dias na mansão, até entrar num confronto sem retorno com os bichos aparentemente inofensivos para que os desconhecem, responsáveis pelo final macabro da moça.

No segundo segmento, Wilbur Gray narra a trajetória sofrida de uma garota órfã que é levada por uma assistente social para morar com os tios e uma prima egoísta que faz de tudo para a jovem se sentir mal, principalmente depois que a mãe aceita, mesmo que a contragosto, a presença de Wellington, gato de estimação da menina. A prima faz de tudo para deixar a sua nova companheira domiciliar em apuros. Derruba coisas, implica e oprime, quebra objetos, etc. É um caos que parece não ter fim, até quando a garota decide revidar e usar o seu gato para ajudar a dar o devido troco, algo que nós, inclusive, torcemos para acontecer, tamanha a maldade da prima que mesmo sendo criança, poderia ser um pouco mais solidária. A punição começa sobrenatural e termina em sangue.

No desfecho, Donald Pleasence protagoniza a história de um ator que ceifa a vida da esposa para viver com a sua amante, uma péssima atriz que ele pretende transformar numa figura artisticamente aceitável. O que ele não sabe é que o gato da falecida não gostou nada do rumo dos acontecimentos e fará o que for possível para vingar o destino de sua dona. Com altas doses de ironia, o desfecho mais humorado do filme encerra com piada e alguma dose de violência, mantendo o padrão das histórias anteriores, construídas com base na direção de fotografia de Harry Waxman, setor focado na iluminação sombria, tendo como acompanhamento, a condução musical de Wilfred Jones, misteriosa e clássica, suplementada pelo design de som cheio de miados, gritos e outros sons agoniantes. Há pouco uso de efeitos especiais, mas nos poucos momentos que a narrativa precisa destes recursos, há o devido atendimento, em concordância com as possibilidades estéticas e dramáticas ofertadas por este terror atmosférico e interessante.

A Maldição dos Gatos/Trama Sinistra (The Uncanny — Inglaterra/Canadá, 1977)
Direção: Denis Héroux
Roteiro: Michel Parry
Elenco: Peter Cushing, Ray Milland, Joan Greenwood, Roland Culver, Susan Penhaligon, Simon Williams, Alexandra Stewart, Donald Pilon, Chloe Franks, Katrina Holden, Renée Girard, Donald Pleasence, Samantha Eggar, John Vernon, Catherine Bégin, Jean LeClerc, Sean McCann
Duração: 101 min.

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