Crítica | A Maldição dos Mortos-Vivos

Entre psicopatas mascarados, críticas ao esfacelamento da família e experimentos tecnológicos que deram errado, Wes Craven também adentrou pela mitologia dos zumbis, tendo como foco um direcionamento diferenciado dos tradicionais putrefatos seres que caminham em busca de miolos para se alimentar. Em A Maldição dos Mortos-Vivos, o cineasta assumiu o roteiro de Adam Rodman e Richard Maxwell, inspirados no livro de Wade Davis. Com título nacional oportunista, os zumbis retratados não seguem a linha do que se fez no gênero durante os anos 1980, ápice do humor com A Volta dos Mortos-Vivos Parte I e II. Aqui o esquema é “magia negra”, rituais ocultos.

A história é a seguinte. Numa região das Antilhas, território colonizado por bastante tempo pelos franceses, corre uma lenda sobre um homem que fora enterrado e dado como morto há sete anos, mas recentemente, fora encontrado a caminhar pelas ruas como uma espécie de zumbi. Dizem que segundo as lendas do vodu, a serpente é o símbolo da terra e o arco-íris simboliza o céu. Entre uma representação e outra, todos os seres humanos devem viver ou morrer, sendo o homem um dos seres acometidos pela maldição de viver aprisionado em um lugar terrível, “onde a morte é apenas o começo”.

Parece tudo um tanto confuso, mas as coisas vão sendo explicadas aos poucos. Inspirado numa história que segundo registros, realmente aconteceu, o filme começa a sua história em 1978, com um homem diagnosticado como morto e enterrado. Um salto temporal nos leva até 1985, em plena região do Rio Negro, na Amazônia, com o Dr. Dennis Allan (Bill Pullman), um antropólogo em pesquisa botânica diante de drogas naturais com teor alucinógeno. Ao retornar para os Estados Unidos, Allan recebe a proposta de ir até a região do Haiti investigar a história do tal morto-vivo e observar como pode fazer o serviço para a BIOCORP, indústria farmacêutica comandada por Andrew Cassidy (Paul Guilfoyle), interessado em extrair material para os seus projetos lá na cultura alheia, algo típico da cultura opressora e saqueadora estadunidense, muito bem criticado pela direção de Craven.

De ordem natural, neste processo, também somos informados que a droga é preparada durante três dias e três noites, dentro de um esquema ritualístico local, pó utilizado inclusive pelo regime ditatorial como arma para os seus propósitos alucinógenos e alienadores. O uso físico da droga também é alegórico. A crise social que acomete a região torna as coisas mais difíceis e o personagem de Pullman dependerá do apoio da Dra. Marielle Duchamp (Cathy Tyson) e de confiar ou não no sacerdote Lucien Celine (Paul Winfield). Um dos líderes do regime ditatorial concentra em si a alegoria dos problemas políticos: Dargent Peytraid (Zakes Mokoe).

Na seara dos elementos estéticos, A Maldição dos Mortos-Vivos apresentou John Lindey na direção de fotografia, responsável pelos planos abertos que contempla a “miséria” local, mas também eficiente na captação de imagens internas e iluminação ideal para os corredores e espaços soturnos. A cenografia assinada por Rosemary Brandinburg é outro ponto positivo, elementos que somados ao trabalho de Brad Field na condução musical, tornam a produção um filme de terror genuíno, sem precisar necessariamente de sangue a jorrar e violência slasher.

Ademais, entre a superstição e as dúvidas sobre o que é ou não sobrenatural, o filme trabalha com muitos dos nossos medos: ser enterrado vivo, as ansiedades diante dos nossos medos sociais, pois a base da trama é uma guerra travada entre colonizadores e moradores exauridos pelo regime ditatorial, feixes da crise política mundial predecessora aos muros derrubados com a onda democrática nos anos 1980, etc. É um retorno bem conduzido por Wes Craven, mas algo ainda sem substância necessária para dar uma guinada depois dos questionáveis Quadrilha de Sádicos 2 e A Maldição de Samantha.

Além disso, é preciso ter em mente que após melhorar com essa trama de zumbis haitianos, o cineasta cometeu “Shocker”, um crime hediondo em seu currículo de mestre do horror cinematográfico. Por fim, a chamada publicitária do VHS na época trazia uma frase de impacto bem interessante: “não me enterrem, eu não estou morto”, frase de efeito com uma foto de Bill Pullman sendo enterrado com uma maquiagem pesada e uma cruz vermelha sinalizada bem no meio de sua testa. No mínimo arrepiante.

A Maldição dos Mortos-Vivos (The Serpent and The Rainbow/Estados Unidos, 1988)
Direção: Wes Craven
Roteiro: Adam Rodman, Richard Maxwell, Wade Davis
Elenco: Badja Djola, Bill Pulmann, Brent Jennings, Cathy Tyson, Conrad Roberts, Dey Young, Michael Gough, Paul Guifoyle, Paul Winfield, Theresa Merritt, Zakes Mokae
Duração: 98 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.