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Crítica | A Maleta Fatídica

por César Barzine
178 views (a partir de agosto de 2020)

Os protagonistas do cinema noir são predominantemente marcados por uma certa dureza em sua postura, o confronto deles com os perigos em volta são respondidos com rigidez e uma leve agressividade. Há um tom de frieza naqueles homens perante o calor das armas e de seus inimigos. A Maleta Fatídica inverte esse arquétipo ao entregar James Vanning, um personagem que carrega uma relativa fragilidade, com a ausência daquela brutalidade que tanto existia nos outros filmes deste estilo. Não que sua persona seja rebaixada à caricatura de um homem fraco completamente impotente, o que existe aqui é o equilíbrio ao criar um personagem que se desvia da aparência de homem obscuro que a estética noir construiu. É uma leveza mais na aparência do personagem do que em suas ações, onde o protagonista é humanizado enquanto aguenta e combate todas as tensões ao seu redor.

E esse é o cerne de todo filme noir: a tensão. Presente tanto nos personagens quanto no público, este elemento sempre surge dos conflitos que aliam o perigo aos desejos e instintos humanos. Neste caso, James está do primeiro lado, o que fica completamente transparente no início do filme, onde, sob a noite iluminada das ruas, ele olha para os lados, sugerindo paranoia e demonstrando seus nervos. Aldo Rey, o intérprete de James, acaba executando uma excelente atuação, além de sua linguagem facial apresentada, ele consegue dosar múltiplos aspectos dramáticos no desenrolar da trama. Pois o nível dramático em cada elemento de seu personagem é sempre marcado por esse equilíbrio; seu medo, sua autoproteção e seu romance nunca chegam a extrapolar um limite e atingir alguma intensidade. Tudo se mantém na superfície, construindo um personagem rico justamente por não se aprofundar em nada.

Jacques Tourneur produz aqui um admirável trabalho de mise-en-scène, seja na decupagem ou no posicionamento de seus atores. Seu jogo de câmera se destaca mesmo sem estilizar os planos, mantendo, ao mesmo tempo, uma simplicidade e uma alta beleza. Um momento louvável disso é quando James está sentado no balcão de um restaurante conversando com uma mulher (Marie, a modelo) que passa a fazer companhia a ele. Os enquadramentos em planos conjuntos ligados à direção dos rostos dos personagens causam uma frieza e um charme naquela cena. Sempre com os dois atores enquadrados simultaneamente, seja em planos médios ou em closes, a posição das faces deles nunca se encontram. Enquanto James olha para Marie, a modelo fica em direção frontal. E quando Marie vira o rosto para James, a face deste está direcionada para frente. Seus olhares não se cruzam. Não há significado nisso tudo, a única coisa que há, além da beleza da cena, é o mistério e a sensação de que os dois personagens estão prestes a cair em um abismo.

A mesma dinâmica se mantém quando eles se sentam numa mesa. A cena começa com um plano detalhe num café que, através de um zoom-out, se abre e se transforma em um plano geral, arrancando uma bela exposição daquele ambiente. Mas quando a conversa entre os dois vai ficando mais pessoal e James começa a lançar sorrisos, Tourneur passa a usar closes isolados dos atores, fazendo com que o diálogo deles fique entre plano-contraplano, contribuindo para o clima descontraído que tomou a relação dos dois.

A cena em que James lida com os criminosos dentro do carro apresenta essa mesma manipulação no posicionamento dos rostos dos personagens. Eles também não são colocados face a face, mas desta vez há um subtexto maior por trás disso: James demonstra aflição e o homem ao seu lado está no comando daquela situação. E o alto domínio da direção de Tourneur nesta cena vai muito além: o momento em que o capô do carro vai preenchendo toda a tela, o plano detalhe na arma, o movimento da câmera sob o corpo de um dos criminosos; tudo isso evoca uma maestria cênica que, ao contrário da sequência anterior, consegue estilizar aqueles planos.

Outro exemplar do brilhantismo de Tourneur é no flashback em que James está acampando com o seu amigo médico e avista um acidente na estrada. O carro capota e cai numa colina, mas neste momento Tourneur não filma o acidente por completo, e sim enquadra James o observando. Ou seja, o ponto central daquele acidente dentro da história está mais em James do que nos passageiros que estavam no carro. Tourneur acaba sugerindo que há algo de estranho por trás daquele caso e este momento é a cena-chave do início do que estar por vir. A partir daí, um conflito com os criminosos se desenrola numa exposição a céu aberto durante o dia que lembra muito bem O Mundo Odeia-me, onde aqueles dois personagens agora se encontram completamente sufocados pelo perigo que se ameaça.

A Maleta Fatídica possui um ritmo extremamente dinâmico, cada momento agrega bastante conteúdo à história, construindo uma trama intensa e muito bem articulada. O filme dura menos de 80 minutos, mas devido à narrativa agitada, a impressão é de que toda a obra perpassa essa metragem. Parte desse valor substancial da trama vem da fusão de três enredos paralelos: o caso de James no presente, seu flashback com o acidente e a investigação de um detetive. Esse último não assume uma oposição antagônica a James, assim como o protagonista, ele recusa qualquer dureza e busca apenas esclarecer as coisas. Na segunda sequência do filme é exposto o ambiente familiar dele com bastante serenidade, assim são neutralizadas as suas convicções quanto a James, servindo de peça-chave para a resolução do caso em seu desfecho.

Além de seu roteiro com uma enredo intenso que se movimenta a cada instante, A Maleta Fatídica vem acompanhado de uma série de detalhes visuais que enriquecem ainda mais o filme. O match cut da chave, a parte em que duas cenas distintas são interligadas sob a pergunta das horas e o close produzido por um zoom-in quando James está na estrada são momentos brilhantes dignos de genialidade. E como todo bom noir, o desenvolvimento da narrativa é marcado por bastante mistério e ainda vem dosado de diversas cenas tensas (principalmente no final). Mas A Maleta Fatídica vai além: é uma verdadeira obra-prima, com uma cativante junção de maestria no roteiro e na direção. Vemos as qualidades de Tourneur em cada instante, cujo visual do longa ultrapassa o charme da estética noir, e a sua mise-en-scène extrai enorme força, seja em momentos de quietude ou de perigo. Tourneur constrói as sínteses mais perfeitas que um filme noir poderia ter, colocando-se no panteão desse maravilhoso subgênero.

A Maleta Fatídica (Nightfall – EUA, 1956)
Direção: Jacques Tourneur
Roteiro: David Goodis (romance), Stirling Silliphant
Elenco: Aldo Ray, Art Rayburn, Brian Keith, Anne Bancroft, Jocelyn Brando, James Gregory, Frank Albertson, Rudy Bond
Duração: 79 minutos.

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