Crítica | A Mansão do Inferno

Plano Crítico - A Mansão do Inferno - Dario Argento, 1980. Crítica.

Segunda parte da Trilogia das Três MãesA Mansão do Inferno (1980) é o tipo de sequência que parece querer aprofundar todos os conceitos de seu Universo, começando bem, carregando uma excelente premissa, mas simplesmente deixando se fazer entender ou validar como produto, servindo apenas algumas migalhas lógicas referentes ao Universo de magia e bruxaria que o diretor e roteirista Dario Argento retirou de Suspiria de Profundis (Thomas de Quincey, 1845). Na trama, Rose Elliot (Irene Miracle) mora em um prédio de macabra atmosfera em Nova York. Sua percepção nada simpática do local aumenta quando ela compra um antigo livro chamado As Três Mães, narrando a história das três bruxas que aparentemente governam o mundo há séculos através de suas “casas especiais”.

A mitologia que o espectador viu rapidamente apresentada em Suspiria (1977) ganha neste Mansão do Inferno uma verdadeira expansão teórica, sendo este o único elemento narrativo verdadeiramente bom do filme. Através de uma narração em off que serve como “voz de leitura” para Rose, tomamos um maior conhecimento da história das Três Mães. Sabemos mais sobre a Mater Suspiriorum (Helena Markos, de Suspiria), a mais velha e sábia, também denominada The Black Queen. Da Mater Tenebrarum, a mais cruel, que vive em Nova York e é o foco do presente filme. E da Mater Lachrymarum, a mais bela e mais poderosa das Três Mães, que vive em Roma e seria o objetivo do filme final da trilogia, O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas (2007).

A proposta de Dario Argento nesta fita era dar continuidade à narrativa das bruxas sob o mesmo aspecto infantil presente em Suspiria, ou seja, o ponto deslocado e negativo daquele filme, o que certamente foi uma péssima decisão. Para dar cabo disso, o diretor assumiu nuances do conto de João e Maria, mostrando os irmãos Rose e Mark Elliot (Leigh McCloskey) às voltas com as já esperadas perturbações que um ambiente assombrado por bruxas pode trazer. E assim como fora em Suspiria, o lado ingênuo dos diálogos acaba colocando quase tudo a perder, tendo ainda a agravante de o roteiro não se preocupar em nenhum momento em criar algo que vá além da excelente introdução teórica ao Universo das Três Mães. É como se o diretor acreditasse que a base textual do início daria todo o rumo do filme, mas isso não acontece porque o texto joga uma porção de informações e cria mais uma sequência de eventos que não fazem muito sentido a longo prazo, esvaziando, inclusive, o clímax da obra.

Para piorar, o cineasta ficou muito doente durante a produção e, entre alguns atrasos e cancelamentos de segundo horário, chegou um ponto em que ele precisou se afastar por alguns dias dos sets, sendo a direção transferida imediatamente para a equipe de segunda unidade, cujo principal representante era o mestre Mario Bava (que dirigiu quase todas as cenas de Irene Miracle), convidado por Argento, para também fazer outros trabalhos no filme, como operação de câmera, técnica de iluminação (em parceria com o fotógrafo Romano Albani) e concepção de efeitos visuais, todos excelentes. Com um artista como Bava, que dominava bem o gênero, a parte estética de Mansão do Inferno se eleva ao máximo, sendo, obviamente, a melhor parte da obra, especialmente na direção de fotografia e arte.

Infelizmente a trilha sonora não está entre os destaques aqui, algo novo para um filme de Dario Argento. A mescla do rock progressivo de Keith Emerson com árias de Nabucco, de Verdi, têm limitados momentos em que realmente funciona. Adicionado à total soltura do roteiro, a música também parece perdida, conseguindo, quando muito, ressaltar a tensão nas cenas de exploração do cenário e chegada do assassino, mas só. A sequência final, que traz inúmeras semelhanças com o encerramento de Suspiria (me pareceu uma tentativa de “criar um padrão”, que não se saiu nada bem) até poderia ser ajudada pela música, mas isso não acontece porque seu contexto e sua direção não dão a oportunidade para que a linha musical se alie de maneira escrupulosa ao que vemos na tela, ficando apenas como acompanhamento para a destruição.

Visualmente encantador mas com um enredo fortemente incoerente e, não raro, gerando apatia no espectador, Mansão do Inferno é uma sequência fraca para o bom início da Trilogia das Três Mães. Um filme repleto de problemas de produção e que o próprio diretor classificaria como um dos que ele menos gosta. O resultado disso é a própria qualidade tortuosa da película, que mesmo assim, pelo seu incrível visual e pela formulação das teorias sobre as Três Mães, vale muito a pena ser visto.

A Mansão do Inferno (Inferno) — Itália, 1980
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento
Elenco: Leigh McCloskey, Irene Miracle, Eleonora Giorgi, Daria Nicolodi, Sacha Pitoëff, Alida Valli, Veronica Lazar, Gabriele Lavia, Feodor Chaliapin Jr., Leopoldo Mastelloni, Ania Pieroni, James Fleetwood, Rosario Rigutini, Ryan Hilliard, Paolo Paoloni
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.