Crítica | A Marca (2004)

Philip Kaufman é um diretor de renome, responsável por filmes bem estruturados, tais como Invasores de Corpos e Contos Proibidos do Marques de Sade. Quando lançou A Marca, em 2004, o público esperava uma narrativa de serial killer inspirada, esteticamente formidável e com desdobramento de conflitos dramáticos muito acima da média. Tudo, no entanto, ficou apenas nas expectativas, surradas pelas decisões textuais do roteiro de Sarah Thorp, material cheio de conveniências, diálogos extremamente explicativos que não deixam espaço para as sutilezas e interpretações.

Indo além, ainda temos que ficar diante do cansativo whodunit, estratégia que nos coloca à mercê da história, numa busca inútil por pistas que nos permita compreender quem está por detrás da situação problemática central. A questão aqui não é o subgênero a que pertence. A crise está na forma como A Marca é orquestrado. Seria a personagem de Ashley Judd uma nova versão de sua mulher fatal e perigosa do confuso Sedução Fatal? Por que todos os crimes com determinados homens ocorridos num espaço temporal específico têm acontecido justamente depois que ela manteve relações sexuais com tais vítimas? Ela é ou não uma viúva negra maligna?

É com este mote que A Marca se desenvolve ao longo de deus 97 minutos. Na produção, Ashley Judd é Jessica Shepard, mulher agressiva, de postura promíscua e alcoólatra, recentemente promovida ao posto de agente da Divisão de Homicídios de São Francisco. O roteiro o tempo inteiro nos faz questionar se ela é ou não um “monstro”. Motivos psicológicos para a sua instabilidade não faltam. Ela vive a analisar fotografias oriundas da cena de um crime em seu passado. Há 24 anos, seu pai matou a sua mãe e depois se suicidou. Traumático, não? Pela cartilha dos manuais de roteiro hollywoodianos, eis um motivo slasher para a vingança de Jessica.

As incertezas surgem porque não sabemos de fato se ela é ou não a algoz dos casos investigados, pois sempre desmaia depois que experimenta determinado vinho em sua casa. Por que será? Creio que Jessica nunca tenha assistido Interlúdio ou qualquer outro filme de Alfred Hitchcock, o que também nos faz questionar como alguém sem astúcia conseguiu ser aprovada e promovida para uma divisão de investigações tão peculiares. Como dizem as críticas que circulam por aí, aparentemente a polícia às vezes surge bastante despreparada para resolver de fato o que precisa, isto é, garantir a segurança do cidadão comum em circulação na sociedade civil. Vai ver Kaufman queria fazer uma crítica referente ao tópico, nunca se sabe.

Ao passo que a narrativa avança, os crimes continuam a acontecer. Passagens de O Silêncio dos Inocentes são emuladas sem nenhum constrangimento, talvez pelo reconhecimento dos realizadores da referenciação em tom de homenagem. Jessica mantém contato com um antigo criminoso, busca entender o que está acontecendo através da mente do personagem, além de ter seus diversos traumas do passado que a deixam arrepiada no presente. A marca de cigarro que é deixada nas vítimas é uma das pistas para a nossa análise, numa tentativa vã de descobrir quem é o responsável pelos assassinatos: ela ou alguém designado a destruir a sua reputação? Os figurinos de Ellen Mirojnick constroem a personagem de maneira visualmente fechada, relativamente masculinizada, sem nenhum traço arquetípico de sensualidade que a deixe muito óbvia enquanto mulher fatal, mas que não a impede de exercer a sua sexualidade de maneira bastante feminina e libertadora, salvaguardadas as devidas proporções sobre o que se entende e define por “libertação”.

Pode ser o Inspetor Delmarco (Andy Garcia). E se for o seu antigo namorado policial, Jimmy (Mark Pellegrino)? Há também a possibilidade de ser o seu terapeuta (David Strathairn) ou até mesmo o seu mentor, John Mills (Samuel L. Jackson), homem que a apadrinhou e assumiu a lacuna paterna que ficou em sua vida após os trágicos eventos do passado. Cheio de idas e vindas e tentativas de estabelecer um debate filosófico, A Marca não consegue ir além da obviedade e torna-se apenas entretenimento para quem ainda não se cansou do suspense psicológico sobre assassinos em série, fórmula exaustivamente trabalhada no âmbito hollywoodiano.

As gigantescas reviravoltas surgem para tentar surpreender o público, afinal, o argumento e seu desenvolvimento em roteiro não conseguem ir além do que já foi (muito) visto. A direção de fotografia de Peter Deming produz alguns quadros interessantes, principalmente na abertura noir que emula a atmosfera de outro filme do tema, Um Corpo Que Cai. A condução sonora de Mark Isham reforça, sem sutilezas, o tempo todo, que algo está errado, numa trilha intrusiva, material editado por Peter Boyle, montador já experiente em organizar materiais confusos e cheio de reviravoltas, tais como o igualmente indeciso e exagerado Fora de Rumo.

A Marca (Twisted/Estados Unidos, 2004)
Direção: Philip Kaufman
Roteiro: Sarah Thorp
Elenco: Andy Garcia, Ashley Judd, Mark Pellegrino, Russell Wong, Samuel L. Jackson
Duração: 97 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.