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Crítica | A Mata Negra

Mais um passo considerável para o horror como gênero do cinema brasileiro.

por Leonardo Campos
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As produções do cineasta Rodrigo Aragão expõem ao público uma autêntica fábrica de sonhos, isto é, um manancial de realizações com orçamento limitado, guiadas pela formidável criatividade de alguém que dirige e escreve as suas histórias, tendo no imaginário do cinema de horror o ponto de partida para narrativas com características próprias, sempre a ressoar clássicos do gênero, mas sem cair na imitação. Assim é A Mata Negra, uma saga de sangue, pavor e medo, mixagem de elementos tradicionais do terror e de temas do folclore brasileiro, um rico arsenal que se aproveitado pelos produtores locais, ainda renderia muitos filmes sensacionais. Aqui, temos demônios com força pomposa, animatrônicos bizarros e assustadores, juntamente com muito, mas muito escorrimento de sangue e roteiro com reviravoltas frenéticas. Este é o tom estabelecido ao longo dos 98 minutos desta pérola lançada em 2018, uma aterrorizante jornada de sangue com toques de humor que funcionam, sem atrapalhar a proposta.

Em A Mata Negra, temos o seguinte mote dramático: numa densa floresta brasileira, a jovem Clara (Carol Aragão), moça que vive sob os cuidados de painho (Marcus Konká), tem a sua rotina totalmente modificada após encontrar uma lendária relíquia, o famoso e enigmático livro de São Cipriano, material que reza a tradição fantasiosa, possui capacidade de estabelecer rituais de magia que concedem poder e riqueza, mas também uma maldição tenebrosa e devastadora. Basicamente, com esse elemento inesperado em mãos, Clara precisa reverter os desdobramentos do manuseio do livro e se salvar. Nessa empreitada, muito sangue será derramado, sons macabros ecoados e aparições diabólicas para fazer o espectador ficar bastante impressionado, mesmo na reta final, quando o tom sobe demasiadamente e as coisas por pouco não se perdem. O resultado geral, no entanto, é bastante satisfatório.

Além de enfrentar os ecos do livro maldito, a protagonista de A Mata Negra ainda precisa lidar com um religioso, o senhor Francisco das Graças, interpretado por Jackson Antunes, alguém que nos passa alguma desconfiança, num roteiro que nos apresenta outros personagens em suas trajetórias, tais como a grávida Maria (Clarissa Pinheiro), alguém de índole também duvidosa, e José (Francisco Gaspar), todos responsáveis por enunciar o tom macabro do filme. Em seu uso de flashbacks e estética considerada trash, com vísceras, sangue em profusão e outros elementos violentos e excessivos, a produção traz também histórias folclóricas, como por exemplo, o demônio engarrafado, mesclando com imagens comuns ao cinema de terror e suas almas penadas, raízes aparentemente vivas, muita lama, dentre outros.

Para conseguir alcançar o tom desejado em A Mata Negra, Rodrigo Aragão contou coma trilha sonora de Fepaschoal, assertiva ao saber estabelecer a atmosfera ideal, com alguns excessos nos efeitos visuais supervisionados por André Rios, elemento já comum em sua cinematografia, então esperado por aqueles que se permitem acompanhar as suas realizações. Sobre a direção de fotografia, setor importante para manutenção do clima sobrenatural e violento da história, temos Alexandre Barcelos e Francisco Xavier fazendo bonito em espaços arbóreos, com uma aparente emulação do trabalho da equipe de Sam Raimi para o clássico Evil Dead. Proposital ou não, a referência aparece por aqui e funciona. Outro ponto positivo, responsável por fazer os aspectos visuais ganharem destaque é a direção artística de Eduardo Cardenas, competente em sua captação da atmosfera do roteiro, traduzindo-o para virtuosas imagens. Em linhas gerais, um bom filme de terror brasileiro, exemplar interessante da nossa pavimentação de caminho em um gênero já explorado com vigor há algum tempo, mas ainda em constante evolução.

A Mata Negra – Brasil, 2018
Direção: Rodrigo Aragão
Roteiro: Rodrigo Aragão
Elenco: Clarissa Pinheiro, Jackson Antunes, Francisco Gaspar
Duração: 91 min

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