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Crítica | “A Matter of Life and Death” – Iron Maiden

por Iann Jeliel
168 views (a partir de agosto de 2020)

A Matter of Life and Death

“For the passion, for the glory;
For the memories, for the money;
You´re a SOLDIER, for your contry;
What´s the difference, all the same!”

Poucas bandas no metal têm a mesma capacidade de reinvenção que Iron Maiden e A Matter of Life and Death é a prova viva disso. Terceiro álbum da banda após o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith que haviam deixado o time em tempos diferentes para se dedicar a outros projetos, consegue ser a altura de quaisquer outros clássicos da sua fase de ouro nos anos 80. A banda consegue modernizar de vez a nova pegada progressista mais objetiva dos álbuns anteriores, Brave New World e Dance of Death e reunir com harmonia as longas passagens instrumentais épicas, tão características do grupo. Ainda que já ache que essa mescla já foi atingida em Brave New World – para mim a grande obra-prima do grupo no século XXI –, A Matter of Life and Death consegue ser ainda mais revisionista, ao ser direcionado e centrado em uma temática regular em comum, que é mais a cara da banda.

Recuperasse o fôlego daquelas aulas de história cantadas com gigantescas músicas de mais de sete minutos, desta vez tratando sobre a natureza da guerra e a hipocrisia de seus aspectos políticos e religiosos. Mais especificamente narrando contos da época da Segunda Guerra Mundial. Como a diretriz do álbum é apontado para um lado temático específico, o caráter evidentemente direto das letras parecem abrir brechas para se complementar entre si conforme a épica construção instrumental característica do lado heavy metal da banda. As canções são explicitas, ou mesmo didáticas, mas se assumem como tal, para trazer esse metal de modo mais convidativo a uma nova geração que evidentemente não está mais tão interessada no estilo. E diria que esse era o passo que faltava nessa caminhada modernizada de Iron, não somente trazer seu estilo para temáticas modernas – como foi em Brave New World –, mas adequar a forma com uma premissa conceitual chamativa para além do estilo, mesmo que esse fosse somente uma base para potencializar o que ela sabe melhor fazer.

O álbum já abre com o pé na porta com duas músicas das minhas músicas favoritas da banda e que representam perfeitamente essa justaposição que descrevi anteriormente: Different World e These Colours Don’t Run. Talvez sejam as melhores canções dessa fase moderna veloz de Iron, com melodias envolventes, refrões viciantes e a incrível capacidade vocal de Dickinson na alternância entre tons, para controlar o épico do que está narrado de forma adequada a música. As faixas, são as duas mais universais do álbum também, justamente para distanciá-lo de um caráter conceitual quando a temática de guerra ganhar suas especificidades. É possível fazer a leitura de Different World como a visão diferente de uma pessoa que viveu ou não a guerra, mas também pode ser interpretada de modo mais genérico, como pessoas em si tem dificuldade de se adaptar ao mundo na forma como evolui. Já These Colours Don’t Run, apesar de já voltada para a guerra, fala muito mais sobre a condição humana em busca de um proposito para direcionar sua natureza violenta e corrupta.

Outra faixa que vai na mesma linha universal é Out of the Shadows, sendo a grande balada do álbum, pelo clamor repetitivo do seu título/refrão e aparente desvio do temático de guerra quando pegamos o cerne moralista da letra:

“Oh there is beauty and surely there is pain;

But we must endure it, to live again.”

.

“A man who cast no shadows has no soul”.

Contudo, o restante das estrofes complementares dá um sentido ambíguo a essas frases, que a posicionam de algum modo a um caráter ilusório. A quem? Certamente a algum revolucionário de regime totalitário, que não aceitou viver sobre sua sombra. Pois é, a canção feita como hit de palco – e nesse sentido, ela é espetacular mesmo – é bem mais complexa do que parece e olha só, sendo a mais direta canção instrumentalmente, é a que possuí a letra mais enigmática do álbum.  Quer dizer, tirando The Reincarnation of Benjamin Breeg, mas aí por outros motivos. A canção, foi parte de uma peça publicitaria da banda que fez todo um mistério sobre quem seria o seu eu-lírico, se ele era real ou ficcional, especialmente considerando a forma como a música trata o seu relato de modo tão específico a parecer outra das canções de história da banda. Foi criado até um site por um suposto descendente do Breeg que contava a sua história, mas no fim tudo isso foi desmentido, tirando a letra de um caráter enigmático e a posicionando como uma brincadeira da banda com seu público– apesar de certamente ter uma simbólica de Benjamin a várias vidas perdidas e desconhecidas na guerra.

A canção em si, musicalmente falando, vai compor com as demais do álbum uma série de características em comum, entrelaçadas ao revisionismo antes mencionado. Todas começam uma introdução lenta remetendo a época de Seventh Son of a Seventh Son, com uma construção ritma gradativamente mais épica conduzida pelo baixo de Steve Harris e impulsionada pela voz de Dickinson até o ápice quando se junta os acordes de Smith, que vai descansando o vocal com sequências solo calculadas para uma alternância. Há algumas, como For the Greater Good of God e Brighter Than a Thousand Suns mais dependente do bordão principal para a solidez das alternâncias, há outras como The Legacy ou The Pilgrim que mal possuem um, e ficam com cara de “historiazona”. E isso inclusive, é o que as diferem para mim em qualidade. As que não possuem – e aí entra também Lord of Ligth –, se tornam inevitavelmente cansativas, porque o refrão acaba sendo um respiro em meio ao estrondosidade instrumental de Smith, sempre muito boa, mas que acaba não tão dosada quanto deveria. Enquanto as que tem essa base de repetição, mesmo que se repitam demais como é o caso de The Longest Day (ótima forma de recriar a sensação de estar no dia D), conseguem alternar tom com alguma facilidade, sem perder o estímulo de grandeza.

Portanto, por mais que todas essas que mencionei possuam conteúdos interessantíssimos nas líricas (especialmente aquelas que tratam a relação da guerra com o divino como é For the Greater Good of God) nem todas são exatamente na média de excelência de Iron (tipo The Pilgrim que narra os eventos da embarcação “Flor de Maio” que transportavam 102 peregrinos em busca de liberdade religiosa na América e acaba ainda assim, estruturalmente, sendo a canção mais fraca do álbum). Fora que por mais que seja objetiva e tendo o respiro temporal de Out of Shawdows, é um álbum que acabava ficando over demais, faltando se fechar de forma mais contida. De todo modo, A Matter of Life and Death mostra uma maturidade fascinante para o décimo quarto álbum de estúdio da banda, provando que tem poder criativo e lírico atemporal.

Aumenta!: Different World, These Colours Don’t Run, For the Greater Good of God, Out of the Shadows
Diminui!: The Pilgrim
Minha Canção Favorita do Álbum: These Colours Don’t Run

A Matter of Life and Death
Artista: Iron Maiden
País: Reino Unido, EUA
Lançamento: 28º de Agosto de 2006
Gravadora: EMI Studios, Sanctuary
Estilo: Heavy Metal, Metal Progressivo, Rock

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1 comentário

Clayton Lucena 3 de maio de 2021 - 21:21

Gosto muito desse álbum e concordo contigo em tudo!!! Preciso escutar na integra novamente, não me lembro de todas as musicas, só as que estão na playlist. Só consigo escutar hoje em dia na integra Powerslave, Somewhere in Time, Seventh Son, Brave New World e até um tempo atrás conseguia escutar o The Book of Souls!!!
E pode trazer mais analises dos álbuns da donzela.
Up the Irons!

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