Crítica | A Menina da Rádio

Ao assistir A Menina da Rádio, fui remetido imediatamente ao clima das novelas e filmes clássicos sobre desavenças amorosas e finais felizes. Em cada narrativa encontramos um meio unificador destas pessoas em conflitos pessoais, Nesta produção de uma cinematografia que falamos bem menos que os espanhóis, franceses e italianos, o amor está no ar, em específico, nas ondas do rádio, por meio de muita música. Veículo para cantores mundialmente conhecidos, o rádio sempre foi um meio acessível economicamente, capaz de atingir de forma direta, populações de alta e baixa renda, isto é, executivos de Wall Street e lavadeiras de bairros populares.

Quando lançado, os espectadores e os personagens do filme já estavam mergulhados no que se convencionou a chamar de “cultura da imagem”, mas ainda assim, o rádio ocupava o seu protagonismo ao despertar a imaginação, ser um meio comunicacional geograficamente amplo em termos de alcance e trazer para os seus consumidores, uma linguagem direta, coloquial, bem como persuasiva e intimista, elementos que tornaram o rádio um meio relevante ainda na contemporaneidade, sem prazo de validade estabelecido.

Dirigido por Arthur Duarte, A Menina do Rádio foi concebido com base no roteiro escrito por João Bastos, Fernando Fragoso e Silva Tavares. Ao longo de seus 106 minutos, a narrativa produzida pela Companhia Portuguesa de Filmes faz um retrato da trajetória de Cipriano Lopes (Antonio Silva), proprietário de uma pastelaria que decide fundar uma rádio em seu bairro, meio de comunicação que representava um dos ícones da simbologia na sociedade.

Dinâmico, veloz e prático, o rádio embalava o cotidiano das pessoas e trazia jornalismo, publicidade e música para preenchimento do tempo de quem viveu numa era prévia ao advento das redes sociais. Para alavancar o seu projeto, Lopes tem em mente colocar a bela Geninha (Maria Eugenia) como vedete da emissora. Além do projeto para fundação de uma emissora de rádio, outro acontecimento que demarca o avanço da sua postura enquanto homem vivo e antenado com a sua trajetória de vida é o amor nutrido por D. Rosa (Maria Matos), aparentemente implicante e motivo de chateação para o senhor que mais adiante, descobrirá na “megera domada” o amor. Mãe de seu futuro genro (Oscar de Lemos), a senhora também nutre os mesmos sentimentos, algo que mudará de acordo com o encadeamento dos acontecimentos.

Negados pela proibição familiar quase shakespeariana na juventude, o novo casal surge na esteira da Rádio Clube da Estrela, alegoria cinematográfica para o desenvolvimento e expansão do meio radiofônico em Portugal. Unidos pelo gosto musical, Lopes e D. Rosa vivem numa sociedade que reflete os impactos da modernidade, época prévia ao advento da televisão. Com papel semelhante ao que os programas televisivos fariam posteriormente, o rádio funcionava como entretenimento e informação.

Lançado em 1944, A Menina da Rádio é um filme da chamada Era de Ouro do Cinema de Portugal, uma cinematografia que, tal como apontado nas primeiras palavras do texto, é pouco comum para nós brasileiros, apesar da relativa similitude linguística de suas produções em comparação ao nosso cinema, mais ativo, industrial e esteticamente múltiplo. Por meio da condução musical de Jaime Mendes e Fernando de Carvalho, o filme segue a cartilha básica dos dramas clássicos, com enquadramentos alinhados aos padrões, sem ousadias narrativas, tal como o seu roteiro, uma história simples sobre o amor e seus percalços, permeada por um subtexto mais interessante que o próprio filme.

A Menina da Rádio — Portugal, 1944.
Direção: Arthur Duarte
Roteiro: Fernando Fragoso, Silva Tavares, João Bastos
Elenco: Maria Matos, Antonio Silva, Ribeirinho, Maria Eugenia, Regina Montenegro, Óscar de Lemos, Fernanda Curadao Ribeiro, Teresa Ribeiro,
Duração: 106 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.