Crítica | A Menina e o Leão

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Se você tem alguma reclamação a fazer sobre a minha nota para este filme, saiba que a coisa poderia ser bem pior. Ela poderia ter caído no colo de um clássico vilão, daqueles bem cascudos, espinhentos e peludos de cartoon que, desde o berço, jurou odiar todos os animais da face da Terra e destruí-los com suas garras sujas de canetinha amarela, digitando palavras cruéis e críticas devastadoras sobre os pobres bichos. Pois é. Então agradeça a Hagrid por estar comigo nesta viagem ao lado de Kimba, o leão bran… não, pera…

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Há algo em A Menina e o Leão que suplanta, em ideia, a má qualidade do filme e que faz desta obra uma realização necessária. Concebida por Gilles de Maistre enquanto dirigia um documentário sobre a interação entre crianças e animais, a película ficcionaliza uma realidade presente na África do Sul e, mesmo descumprindo a lei, em diversos países do mundo que possuem uma fauna com o chamado valor para troféu de caça, onde “humanos” caçadores atiram em animais — num ambiente confinado ou em espaço aberto — para poder tirar fotos com eles e exibi-los como troféus, aproveitando também, em alguns casos, a pele e a cabeça do bicho para completar a lista de ganhos.

O roteiro de Prune de Maistre e William Davies acompanha Mia e sua família, que se mudaram recentemente para uma unidade de preservação de leões na África do Sul, outrora sob controle do avô da garota. O tempo passa e Mia (Daniah De Villiers), vencendo grande resistência ao lugar, cria uma profunda amizade com Charlie, um leão branco nascido no Natal, dando suporte a uma lenda que, de uma forma muito problemática, chega a um emocionante final e traz uma boa ligação com a história da família protagonista e seu amadurecimento moral. Quando John (Langley Kirkwood), o pai de Mia, decide vender o leão branco para caçadores de troféus, a garota resolve salvar o seu amigo, fugindo com ele.

O essencial problema de A Menina e o Leão é o roteiro, que parece não ter a mínima noção do que deve falar e como falar. Claro que existem outros problemas, como a questionável direção de atores de Gilles de Maistre e a própria interpretação do elenco em boa parte da projeção (especialmente os novatos, o que é compreensível mas não é uma desculpa… afinal, quantas primeiras performances soberbas nós já tivemos no cinema?), mas o roteiro continua sendo o verdadeiro campeão de caminhos tortuosos aqui. A obra está dividida em blocos que deveriam se completar mas que parecem não ter tido o tratamento final para justificar sua evolução. Desse modo, a decisão de John em vender o leão branco, por exemplo, deveria ter duas motivações bem desenvolvidas, mas acaba parecendo ter apenas uma e a surpresa guardada para o final é tão mal colocada no enredo que a gente lamenta que um ponto tão triste e tão importante tenha sido tão mal aproveitado.

Depois a gente tem uma falha estrutura de desenvolvimento para todos os personagens. Os únicos que realmente parecem bem trabalhados são o leão e o casal protagonista John e Alice Owen (Mélanie Laurent). Já os filhos não ganharam o cuidado suficiente do texto, que poderia empenhar-se em acompanhar de maneira meticulosa o crescimento dos atores, delineando o trabalho que precisaram fazer interagindo com os leões desde que eram filhotes, algo que poderia resultar em um excelente projeto de crescimento das crianças ao longo das filmagens, entre maio de 2015 e dezembro de 2017.

O filme teve o biológico Kevin Richardson como consultor, o que não é pouca coisa. E é só aí que entramos na parte boa da fita, além das críticas aos maus tratos ou extermínio de animais selvagens para ego e lucro humanos: a fotografia e a interação — principalmente do elenco jovem — com os bichos. É uma pena que a montagem não tenha valorizado as belíssimas tomadas do diretor Gilles de Maistre e a igualmente bela fotografia de Brendan Barnes, que começou sua carreira em 2011, trabalhando em filmes de terror. A dinâmica de exibição das paisagens, a escolha da técnica para fazer planos gerais e panorâmicas e o bom resultado dessas tomadas são as melhores coisas que o filme tem, muitas vezes sendo o único elemento realmente bom na tela durante um boa sequência de cenas.

Como disse antes, a mensagem final da obra traz à tona os laços entre humanos e animais, além de questões ambientais ou de proteção vistos por um prisma cultural e político, tornando-se os grandes destaques do filme, mesmo que o roteiro não consiga entregar nem uma parte desses elementos sem algum tipo de problema — coisas que vão de terrível dramaturgia e diálogos incoerentes a montagem truncada e questionável organização dos blocos dramáticos da obra. Um exemplo de como boas mensagens e grande beleza visual podem estar cercadas de um enredo e uma execução ruins.

A Menina e o Leão (Mia et le lion blanc) — França, Alemanha, África do Sul, 2018
Direção: Gilles de Maistre
Roteiro: Prune de Maistre, William Davies
Elenco: Daniah De Villiers, Mélanie Laurent, Langley Kirkwood, Ryan Mac Lennan, Lionel Newton, Lillian Dube, Brandon Auret, Paul Davies, Ashleigh Harvey, Tessa Jubber
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.