Crítica | A Menina que Brincava com Fogo (2009)

Baseado no romance de mesmo nome lançado por Stieg Larsson em 2009, A Menina que Brincava com Fogo é um filme que segue o alucinante padrão de ação contido no romance, mergulhando de maneira definitiva no desenvolvimento da personagem Lisbeth Salander (que continua sendo maravilhosamente interpretada por Noomi Rapace), aqui, às voltas com causas familiares antigas, uma acusação grande por parte do Estado e uma tentativa de fazer justiça que parece jamais beneficiar a hacker. E olhem que o roteiro dessa adaptação nem considerou todos os aspectos de perseguição e injustiças colocados no livro! Isso acontece porque Lisbeth se recusa, muitas vezes, a ser ajudada. Esquiva e com um grande talento para se meter em problemas maiores do que pode resolver sozinha — embora tente e quase consiga — a jovem é vista aqui a partir de outros olhos. O roteiro de Jonas Frykberg nos faz percebê-la como alguém que talvez queira, mas não consegue sair da guerra.

Um dos elementos mais fortemente percebidos na versão sueca de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres foi o fato de que Lisbeth era um enigma completo. Como havia, desde o início, a possibilidade de adaptação para os três primeiros livros da Série Millennium, a linha de maior ou menor abordagem para os personagens acabou seguindo a lógica do livro, portanto, é neste segundo filme, assim como no segundo volume da obra literária, que Lisbeth tem uma trama inteira voltada para ela, como foco das atenções e investigação primordial, um problema que não termina aqui, ao contrário, volta de maneira ainda mais viciada e aparelhada, por parte das instituições, em A Rainha do Castelo de Ar. Meu lamento maior aqui, em termos de abordagem, é que a perseguição feita pela imprensa não tenha sido problematizada no roteiro, apenas colocada como um gancho conveniente do drama, o que não é ruim, mas está aquém do esperado.

Responsável pelos filmes dois e três da trilogia, o diretor Daniel Alfredson tem um roteiro muitíssimo segmentado para colocar na tela, e mesmo com todos os tropeços no meio do caminho, consegue um resultado final positivo. O maior problema dessa adaptação é que o formato narrativo parece um empilhado de situações correlatas que apenas pela lógica pessoal do espectador se unem para formar uma grande história. A montagem nada suave tem um papel muito importante nisso (considerando o aspecto picotado e às vezes pouco orgânico de trabalhar o avanço da história) e embora consiga se ajustar em momentos onde o texto está focado em uma sequência paralela de eventos, com duas grandes ações envolvendo os protagonistas, todo o restante do filme acaba sendo um quebra-cabeça montado à força. O remédio aparente para isso é a força do suspense que o texto de Frykberg consegue preservar, então é possível se ater à coluna vertebral da saga e encaixar, na medida do possível, o restante dos acontecimentos.

O curioso disso tudo é que o início do filme tem uma cadência exemplar, muitíssimo suave em com introdução bem feita dos personagens. Nós reencontramos Lisbeth, o pessoal da Millennium, os criminosos da vez e os agentes estatais de uma maneira sólida — e bem interpretada por todo o elenco –, então espanta bastante a forma como os fatos se seguem no desenvolvimento, voltando (de maneira não tão chocante assim) ao mesmo ritmo bem cadenciado na reta final, a despeito da intensa ação que aí ocorre. A trilha sonora é o item técnico que mais ajuda na construção do suspense em todo o filme, mas ainda podemos destacar a direção de fotografia nas cenas noturnas (sempre com um ar opressivo e saturado) e a forma como Alfredson guia o filme em seus dois extremos. A participação de Paolo Roberto aqui (um dos raros casos em que uma pessoa real citada em um livro interpreta a si mesma na adaptação cinematográfica da obra) também entra na lista dos destaques, com uma piscadela para o público que dá gosto de ver.

Ágil, com temas sociais muito importantes para se discutir como tráfico de mulheres, escravidão sexual, pedofilia, misoginia, corrupção dos agentes do Estado e o lado podre e sensacionalista da imprensa; mas com um texto e uma montagem que atrapalham uma melhor apreciação do todo, A Menina que Brincava com Fogo é a ponte para o fim da “Fase 1” das aventuras de Lisbeth Salander, personagem que aqui ganha a atenção e o aprofundamento que merecia nas telonas. Não é um filme livre de (muitos) problemas, mas é um bom filme.

A Menina que Brincava com Fogo (Flickan som lekte med elden) — Suécia, Dinamarca, Alemanha
Direção: Daniel Alfredson
Roteiro: Jonas Frykberg (baseado na obra de Stieg Larsson)
Elenco: Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Lena Endre, Peter Andersson, Michalis Koutsogiannakis, Annika Hallin, Sofia Ledarp, Jacob Ericksson, Reuben Sallmander, Yasmine Garbi, Ralph Carlsson, Georgi Staykov, Hans Christian Thulin, Jennie Silfverhjelm, Per Oscarsson
Duração: 129 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.