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Crítica | A Mentira (2010)

por Davi Lima
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O tal filme hollywoodiano autoconsciente de referências cinematográficas, que se torna mais honesto na sua pretensa modernidade pela  maneira de ser moralista do seu jeitinho. Na comédia de A Mentira existe uma proposta por baixo dos panos, nas entrelinhas de certas imagens, e pela introdução explicativa, de mostrar uma cidade da Califórnia engajada com os aspectos da vida pelas aparências das estrelas de Hollywood. Só que do tema abrangente tudo se afunila no microcosmo intenso do colegial, como ambiente de exacerbar intenções dramáticas, críticas ou puramente referenciais ao universo californiano. Como tudo já é narrado pela personagem protagonista chamada Olive, denominada como estranha nominalmente e interpretada por Emma Stone, meio que o filme se entrega na proposta descolada de se divertir com o contexto escolar.

Diante disso, a obra se mostra dependendo apenas das sacadas cômicas e da extrema encenação do cinismo, que ainda não cria dúvida, apenas vergonha alheia na boa simulação de um besteirol americano. Só que existe um involucro nessa dinâmica mais direta. Porque se a proposta explícita é parcialmente entregar a personagem estranha, que é esperta demais para estranhamente não saber definitivamente nada sobre sexo na prática, e que até mesmo tem pais muito liberais para criar uma filha que realmente preserva a virgindade e se incomoda com nudez, onde está a graça a se descobrir? Por isso é nessa entrega que inteligentemente cria-se um terreno dramático de reviravoltas, pois o moralismo exacerbado, diante de tanta mentira cega e fofocas juvenis denota a forma significamente surpreendente. Quebra a expectativa, logo humor, em como a história vai alcançar o método clássico, a referência hollywoodiana mais concreta, como nos filmes dos anos 80 de John Hughes.

Embora soe muito inventivo quando se observa o filme como um todo, há um prazer maldoso, ou de exagerada confiança do em sua comédia em usufruir das incoerências da modernidade, ou da pós-modernidade de relativismo. A exemplo, os artifícios narrativos das fofocas escolares que são empolgados pela fotografia flutuante pela escola, ou da rapidez que a comédia busca empregar. Dentro desse usufruto, há pontualmente dramas juvenis sendo relatados sem muita responsabilidade dramática na esquizofrenia justificada da obra constantemente, para não atrapalhar sua grande quebra de expectativa moral. Soa incoerente nesse sentido do próprio filme, em que o artifício do alívio cômico soa acachapante em meio a evidência crítica que os termos sociais são apresentados nessa moralidade que o filme vai escalando nas escondidas.

Isso chega num nível que soa desonesto circunstancialmente com as mentiras que não ficam só no plano textual, mas formal da cena também, embora para parte do público pouco engajado com as problemáticas sociais se torna mais uma piada, quando dentro da caminhada do filme se torna um apelo, não uma harmonia cômica. Apesar disso, na linha orbital da comédia, que sai cada vez mais da sua rota clássica de se apresentar, a queda cômica no decorrer do desenvolvimento do drama de Olive, e o revelar do aspecto mais moralista, se torna mais enfática para exibir o discurso sem aparências, de fato reutilizando o clássico para contar a mesma moral clássica. O jeitinho diferencial de trazer a tona a redenção da protagonista, dentro da percepção que na verdade ela nunca fez nada sexualmente comprometedor, é que outros ao redor dela realmente faziam. 

Então, o grande porquê de dizer que protagonista não assistiu apenas o filme antigo preto e branco A Letra Escarlate, como também não viu apenas as diferentes versões cinematográficas para reproduzi-los como a vadia do ostracismo na escola de maneira involuntária, é para afirmar também que ela leu o livro, o clássico literário. Ela conhece a obra, não só a adaptação, a jovem que não assistiu a adaptação para fazer a prova de literatura, mas realmente leu o livro para voluntariamente ser a vadia a escola. Isso faz toda a diferença para que tudo se torne minimamente verdadeiro na confirmação, dentro do filme, de que o clássico é realmente atemporal e transformador do cotidiano pouco notado, aquele que da grande Hollywood chega a escola, e da escola a fotografia movimentante encontra os créditos do filme na rua californiana. Esse é filme jovialmente entretido de efetivar uma moral conservadora dentro das falsificações da liberalidade progressista dos jovens, isso sim.

A Mentira (Easy A | EUA, 2010)
Direção: Will Gluck
Roteiro: Bert V. Royal
Elenco: Emma Stone, Amanda Bynes, Penn Badgley, Dan Byrd, Thomas Haden Church, Patricia Clarkson, Cam Gigandet, Lisa Kudrow
Duração: 92 min.

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