Crítica | A Metamorfose, de Franz Kafka, em Mangá

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Originalmente publicada em 2008, esta versão em mangá de A Metamorfose, obra de Franz Kafkka escrita em 1912 e lançada em 1915, se encaixa no selo Manga de Dokuha, projeto de uma empresa japonesa para levar grandes clássicos da literatura de ficção e do mundo acadêmico para o público jovem, mas em forma de mangá. Versões de Crime e Castigo, Guerra e Paz, Rei Lear, A Interpretação dos Sonhos e O Manifesto do Partido Comunista são alguns dos livros adaptados pelo o projeto.

Uma coisa bastante particular sobre esta iniciativa — e que me incomodou bastante — foi o fato de as adaptações não serem, a rigor, obras autorais, ideia que eu não compro de jeito nenhum, dando a impressão que acontece aí o mesmo que acontecia no Brasil com os gibis da Turma da Mônica, onde não havia assinatura de roteiristas e artistas e supostamente era um “trabalho coletivo” ou, como ficou plantado na cabeça de muita gente, era o Mauricio de Sousa que escrevia todas aquelas histórias. Não era. Assim como não parece nada orgânico ou funcional a colocação de que os mangás dessa linha sejam “escritos por uma grande equipe” da East Press, sob editoria de Kasuke Maruo. Mas é isso que se vende para justificar o por quê não há assinatura de um roteirista e de um artista (os desenhos são creditados “à equipe” do Variety Art Works) nas adaptações.

Quando peguei A Metamorfose para ler, fiquei receoso com o que poderia encontrar. O livro não é uma obra fácil, pelo seu variado tipo de interpretações, o que coloca os adaptadores em um complexo dilema sobre como devem abordar a transformação de Gregor Samsa. Se de forma literal ou se de forma simbólica. A opção aqui foi de tratar — e muito bem — essa mutação sob os dois pontos de vista. Mas não antes sem decepcionar um pouco o leitor, com uma introdução péssima, levando a questão por um lado político que, se estivéssemos falando de qualquer outra obra, cairia bem ao enredo, mas não é o caso. A inserção política é extremamente inconveniente e não dá conta daquilo que o autor estabeleceu no livro. Todavia, quando a narrativa passa para um flashback, as coisas começam a ficar interessantes, caindo novamente apenas no final, exatamente no ponto onde o livro cai de qualidade, no intragável desfecho “vida que segue” da família.

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Gregor Samsa, já transformado. Nesta adaptação, o “monstruoso inseto” é quase sempre oculto pelas sombras. A alternância entre versão inseto e humana (doente), mantém a possibilidade de (no mínimo) duas leituras para esta metamorfose.

Mas o desenvolvimento da história, muitos meses antes da “certa manhã, após sonhos perturbadores“, é uma verdadeira pérola, uma adição ideal ao livro, pincelada de coisas que o próprio autor sugeriu ao longo da obra. Vemos Gregor se tornar caixeiro-viajante, sua estafa de tanto trabalho, o fato de o pai deixar tudo nas mãos dele e não se mover para nada; a passividade irritante da mãe, a relação com a irmã (um pouco mais suavizada no final, se comparada ao livro, mas ainda assim muito boa), o interesse amoroso dele em Viena, tudo isso vêm à tona em um longo capítulo de lembranças que é escrito com bastante cuidado para não colocar coisas demais, desviando-se da essência da obra — erro que cometeram no começo. O que verdadeiramente toca e importa nessa adaptação é o preenchimento de “buracos narrativos do livro” — entendam as aspas, por favor — e que dá uma visão bem maior dos personagens.

A relação com o tipo de transformação de Gregor é outra boa sacada da edição, agora tendo a arte como destaque. Há aqui uma mistura visual perfeita entre o corpo do rapaz e uma forma animal, tendo, aliás, uma inclusão de “versão final” daquele terrível inseto que pode emocionar algumas pessoas. Este é o caso de uma releitura que cria coisas, mantém praticamente toda a força de sua fonte e ainda consegue realizar algo novo, plural e bom com esse material. Tirando a abertura e o encerramento, A Metamorfose em mangá é uma adaptação que sustenta as boas reflexões do livro, dá uma outra dimensão para as injustiças e o sentimento de “uso e conveniência” que tinham de Gregor e de como sua mudança faz com que ele deixe de ser útil e se torne desprezado, atacado e, por fim, jogado fora. A mesma sensação de desamparo que sentimos ao terminar a obra original volta a nos atacar aqui. Pobre Gregor. Pobre humanidade.

A Metamorfose (Henshin) — Japão, abril de 2008
Série original: Manga de Dokuha
No Brasil: L&PM Pocket, 2013 e 2015
Roteiro: East Press
Arte: Variety Art Works
Editoria: Kasuke Maruo
198 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.