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Crítica | A Metamorfose dos Pássaros

por Michel Gutwilen
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Como maior prova de que o Cinema não possui nenhum compromisso social, está aí a existência dos “filmes-memórias”. Afinal, existe algo mais egoísta do que esse subgênero, em tese? Sentamos diante de uma tela e vemos algum diretor(a) buscar alguma significação diante de seu próprio passado, em obras que parecem ser mais para consumo próprio do que para o Outro. Porém, é justamente o fato do Cinema (e toda Arte) se bastar em si mesmo que faz um filme dentro desse subgênero ser valioso, como é o caso do português A Metamorfose dos Pássaros. De acordo com Kant, que trabalha com o conceito de Belo, a verdadeira arte deve se encaixar dentro deste adjetivo, ou seja, bastar em si mesma. Cada uma de suas partes trabalha em direção a um conjunto magnificente, mas não podemos fazer nada com ele, só experimentá-lo. Não olhamos o objeto para ver como ele nos pode ajudar, nem para descobrir seu lugar no esquema mais amplo das coisas. Durante a experiência estética, este objeto torna-se para nós todo o contexto, um fim em si mesmo, um valor terminal.

Assim como todas as experiências humanas, o mundo é sentido de maneira heterogênea. No que se trata da memória então, mais ainda. Afinal, esta palavra é tão polissêmica. Para cada pessoa, memória possui um significado diferente e se relaciona com diversos sentidos. O olhar para um foto ou uma paisagem, o cheiro de um perfume, o ouvir de uma música, o tocar de uma superfície. Tudo isso pode remeter a algo. Não se trata também de exatamente algo claro, mas turvo, conflituoso, com lacunas e espaços que vão sendo preenchidos pela mente e por sua criatividade. 

Diante de tudo isso, A Metamorfose dos Pássaros é definitivamente uma das obras contemporâneas que mais usa da potencialidade do Cinema (como Arte) para ser uma própria tentativa de resgate à memória. A diretora Catarina Vasconcellos usa de um enorme leque de técnicas que só o meio cinematográfico pode provocar para tentar emular este sentimento que não é palpável, mas apenas sentido e visualizado dentro da mente. Portanto, logo de cara, já se entende que não estamos de um realismo, mas de uma encenação extremamente formal e simbólica, que destrincha as brechas entre o mundo real e o fictício.

Assim, a vida da família de Catarina vai sendo contada a partir de uma narrativa menos tradicional. Tudo começa com um extremo close-up no rosto de um homem, cuja velhice se mostra transparente. São olhos de quem já viveu toda uma vida e diversas histórias que serão contadas. Sua voz clama por “Triz”, sua falecida amada, e ele avisa que vendido sua casa, pois precisava ficar livre. Dali em diante, voltaremos ao passado, em uma investigação nesta grande despedida nostálgica que é narrada por uma voz do presente. 

Mas se trata também de uma história de amor no qual já sabemos que o caminho da idade irá separar seus dois protagonistas. No caso da diretora, a memória parece estar no maior minimalismo possível: em objetos, em rostos, no mar, nas frutas, na natureza. Imagens aparentemente sem valor vão ganhando significado para nós conforme o discurso narrado vão relacionando eles com algum valor. Por exemplo, é a partir de uma analogia com tomada (feminino) e plugue (masculino) que o roteiro aponta para um comentário sobre a realidade vivida pelas mulheres daquela família. De mesmo modo, os selos de cartas são usados para comentar uma visão política de Jacinto (o filho) sobre Portugal e seu papel na colonização da África. Por outro lado, poderia se dizer que a escolha por tantos planos abstratos e que estão voltados mais para o micro e menos para o macro, gera uma maior imersão do espectador naquela busca pelo passado. É um filme de menos rostos e de mais mãos, que podem ser de qualquer um. 

Dentre os muitos planos impactantes de A Metamorfose dos Pássaros, há um bastante potente. Uma moldura em branco aparece no quadro e, conforme a narração entoa a palavra “filha” em diferentes língua, o vazio vai se materializando em uma imagem concreta do nascimento da própria diretora. Eis aí o momento em que se concretiza toda a ideia por detrás da obra de Vasconcellos. Seu filme é uma reconstrução (não à toa a cena seguinte é a montagem de um quebra-cabeça) e reconstituição do passado que só é possível pelo Cinema. Estamos diante da Arte sendo capaz de gerar vida. 

Posteriormente, irá ser revelado o caráter personalíssimo daquela história e como alguns dados foram modificados, conscientemente, por serem mais aprazíveis à narrativa (como o verdadeiro nome de Jacinto ser Henrique, porém aquele soa melhor). No fim, é um filme sobre perda (da vida) e criação (cinematográfica). Não é sobre o que as imagens são (o mar não é o mar), mas sobre o que elas representam. Cada plano é construído através de uma plasticidade e beleza que evidenciam a intenção da diretora em fazer da narrativa de sua própria história um objeto Belo por si só, eternizado no tempo. Não há homenagem mais bonita para seus entes falecidos.

A Metamorfose dos Pássaros — Portugal, 2020
Direção: Catarina Vasconcellos
Roteiro: Catarina Vasconcellos
Elenco: Manuel Rosa, João Móra, Ana Vasconcelos, Henrique Vasconcelos, Inês Campos, José Manuel Mendes, João Pedro Mamede, Cláudia Varejão, Catarina Vasconcelos
Duração: 101 mins.

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