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Crítica | A Missão

por Marcelo Sobrinho
6030 views (a partir de agosto de 2020)

A Missão, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 1986, ainda desperta sentimentos bastante dúbios tanto no público um pouco mais atento a seus aspectos históricos como na crítica especializada. Para mim, o filme continua sendo uma espetacular realização cinematográfica, cujo discurso é bastante claro e cujas fraquezas e fortalezas nem o roteiro de Robert Bolt nem a direção de Roland Joffé tentam mascarar. O tema, por si só, já é bastante exigente quanto ao equilíbrio entre a abordagem historiográfica e a ficcional. Estamos na América colonizada e disputada por portugueses e espanhóis. Uma disputa por territórios, por escravos indígenas e, principalmente, por poder. Como construir um olhar para os índios sem tratá-los como meros selvagens ou como vítimas funcionais de uma história maniqueísta? Ao mesmo tempo, como tratar dos colonizadores como humanos e não como meros verdugos, cruéis e perversos?

Contudo, nenhuma indagação é mais ululante do que: como os jesuítas, provavelmente a figura mais central em A Missão, deveriam ser tratados nessa história sobre dominação e poder? Como almas caridosas, quase sacrossantas, ou puramente como instrumentos de violação e aculturação forçada do nativo? Penso que esse é o aspecto mais precípuo a ser compreendido para se tirar proveito da obra de Joffé – todo o enredo é mostrado pelo ponto de vista de um narrador explícito – Altamirano (Ray McAnally), um funcionário da Coroa portuguesa encarregado de julgar a permanência dos jesuítas nas missões. É por essa razão que o longa-metragem ainda incomoda alguns espectadores. A Missão é um relato cheio de vieses, pois dá lugar ao olhar subjetivo do indivíduo imerso dentro de seu tempo histórico. O jesuíta Gabriel (Jeremy Irons) e o mercador de escravos arrependido Rodrigo Mendoza (Robert De Niro) não são examinados apenas como agentes históricos, mas principalmente como homens, imbuídos de tomar decisões diante da realidade imediata que os cerca.

É verdade sim que o roteiro de Bolt não dá lugar à figura do indígena enquanto indivíduo, mantendo certo distanciamento dele, o que compromete sobremaneira o grau de empatia e de envolvimento emocional que temos com os nativos. Ainda que seja apenas o olhar de Altamirano enquanto europeu, por outro lado esse ponto de vista não deixa de ser generoso com o nativo na medida em que não o transforma em caricatura. Há algum exotismo sim em seu retrato, mas há também uma beleza e um encanto que só esse distanciamento e esse mistério poderiam lhe oferecer. Os enquadramentos fechados de Joffé para registrar o indígena sul-americano, já quase transformados em planos-detalhe, contribuem para estimular esse olhar de curiosidade no próprio espectador, que observa suas vestimentas, seus hábitos e sua movimentação pela mata com deslumbramento. Já os planos gerais do cineasta prestam uma verdadeira reverência à beleza natural das selvas e das cataratas brasileiras. São um deleite audiovisual, embalado pela linda e mais uma vez inspiradíssima trilha de Ennio Morricone.

A figura do colonizador, entretanto, é a que mais sofre realmente com maniqueísmos. Nesse caso, o fato de se tratar do olhar de um narrador comprometido com os eventos não me parece ser suficiente para justificar uma composição um tanto rasteira dos portugueses e dos espanhóis. Mesmo que tenham praticado o mal e dizimado povos indígenas inteiros na América, penso que esses  personagens mereciam um olhar mais humanizado até mesmo para tornar sua perfídia mais humana e persuasiva, em vez de apenas servir ao lado comodamente vilanesco da história. Mas é importante reconhecer que essa nuance pode ser encontrada claramente em pelo menos um momento da projeção. Quando Rodrigo assassina o próprio irmão em uma disputa pela mulher que amava, além de o roteiro encapsular muito bem a ideia de busca violenta do poder pelo poder, à direção de Joffé coube demonstrar com sensibilidade a crise de consciência do assassino. A câmera quase não mostra o irmão morto. Lança seu olhar em primeiro plano para o irmão homicida, em cuja face pesa imediatamente o remorso. O primeiro plano será aliado do diretor nas cenas seguintes para registrar o arrependimento e a transformação do mercador de escravos em um defensor dos índios que antes açoitava.

Quanto aos jesuítas de A Missão, eles sofrem acusação constante de serem excessivamente caricaturais – como santos destinados à salvação das almas. Aqui novamente vejo apenas um ponto de vista histórico obviamente influenciado pelo narrador da obra. Penso que o olhar amargurado de Altamirano para os eventos ainda consegue encontrar nos jesuítas algo que realmente desempenharam – um papel muito mais acolhedor do que o do colono. Embora a História, enquanto disciplina, evidencie o caráter negativo de seus atos, ao praticamente eliminar a cultura do índio a pretexto de uma ideia civilizatória contaminada por um eurocentrismo perverso, a subjetividade do narrador enquanto pertencente ao fazer histórico soube identificar também o outro lado da moeda. Como estamos falando de cinema e não de um tratado acadêmico de História, é preciso apreciar a plasticidade simbólica de cenas como a do jesuíta Gabriel tocando oboé para um grupo de índios. Ali não há qualquer ato de aniquilação de uma cultura, mas sim um gesto de comunicação e de afeto universal entre os homens.

Apesar de suas fragilidades, A Missão segue me agradando bastante tanto anos depois. Uma das grandes razões para isso é sua acertada vocação para ser propositalmente mais duro com as instituições do que com os homens. O trágico desfecho, por exemplo, bate pesadamente na Igreja Católica e na Coroa portuguesa, demonstrando-as como fortes estruturas de dominação e brutalização, ainda que consigamos ver em tantos personagens individualmente traços que os tornam simplesmente humanos. O mais interessante da conclusão de A Missão é notar que tanto a paz (encerrada por Gabriel) como a defesa armada dos índios (representada em Rodrigo) são avassaladas pelas forças reais. No fundo, nada parece mesmo capaz de nos desumanizar tanto quanto as instituições que nos representam e as autoridades que nos governam. Se há debates históricos numerosos acerca do filme de Roland Joffé, essa importante lição história ele certamente nos deixa.

A Missão (The Mission – Reino Unido, 1986)
Diretor: Roland Joffé
Roteiro: Robert Bolt
Elenco: Robert De Niro, Jeremy Irons, Ray McAnally, Aidan Quinn, Cherie Lunghi, Ronald Pickup, Chuck Low, Liam Neeson
Duração: 126 minutos

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7 comentários

Sergio Domingos Vieira 28 de janeiro de 2021 - 23:40

A trilha sonora assinada por Ennio Morriconne é uma das mais lindas do cinema. É maravilhosa. E mostra a crueldade da colonização europeia nas Américas, principalmente em relação ao massacre promovido contra os índios.

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Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 7 de março de 2020 - 03:29

A discussão que você levanta é ótima e certamente já deixou muita gente brava. Minha visão para isso, porém, é simples: veracidade histórica de cabo a rabo não existe em absolutamente NENHUMA ficção em toda a história do cinema. E melhor ainda: NÃO PRECISA EXISTIR!!! Mesmo que a proposta seja adaptar, retratar, exibir um evento histórico, um filme, a não ser que seja um documentário, jamais tem obrigação de trazer os fatos tal e qual os documentos pesquisados apontam, afinal de contas, é uma ficção histórica! O gênero entrega de bandeja o caráter da abordagem!

Claro que podemos amar ou odiar tal e tal abordagem, mas apenas pelo que elas trazem de sentido geral para a obra, não porque acrescentou, tirou ou alterou um evento histórico. A preocupação aí é mesmo ordem técnica/analítica: o roteiro é bom? As modificações fazem sentido para o olhar do diretor na unidade do filme? Se sim, ótimo. Se não, tomatinhos podres nele!

E mais: ainda se tivessem sido 100% fiéis aos documentos que pesquisaram, vale lembrar a História é feita por diferentes narrativas, assim, uma mesma visão, como a que você expõe na crítica, pode ser favorável ou condenável aos religiosos, aos índios, aos colonizadores.

Assim como dentro da teoria da História leva-se em consideração a multiplicidade de fontes e interpretações da realidade através de documentos ou mesmo da história oral (chegando à conclusão de que não existe verdade absoluta, embora um fato jamais deixe de ser um fato), quem dirá numa ficção, seja ela no cinema, na literatura, nos quadrinhos, teatro, música, etc… Eu não entendo a ira de tanta gente com adaptações históricas, cobrando da ficção a representação fiel aos eventos retratados. Se nem na história você vai encontrar um caminho límpido e livre de contradições, quem dirá numa ficção… O processo de julgamento (e a polêmica, em essência) é exatamente a mesma da galera que não entende o que é uma adaptação literária para o cinema ou TV, achando que ADAPTAR é o mesmo que TRANSLITERAR. Aí é foda…

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Chuck Presley 21 de outubro de 2020 - 12:19

Perfeito!!! E na base de “adaptações” vão surgindo Terraplanismo, antivacinismo e olavismo cultural. Adaptações literárias é o Fake news da galera Cult. “Ficção” baseada em fatos históricos só servem para deleite de neocolonizadores e pseudointelectuais que servem de massa de manobra (conscientes ou não) para planos imperialistas. O relato histórico que fica para as gerações futuras não são os produzidos na pesquisa acadêmica, mas o que Hollywood nos manda em formato adaptado! Enquanto uma meia dúzia se entorpece nas camadas, cenários, fotografia, interpretação, direção e, pq não. na licença poética, o povo continua sofrendo na vida real e literal, no concreto e no abstrato, ludibriados por uma cultura que não é nossa e que destrói a cada dia nossa identidade, adaptando nossa própria historia.
Na próxima vez q vc sentar em seu sofá, com seu balde de pipoca e sua assinatura Netflix, lembre-se que para vc chegar nesse nível evolutivo, mais de 1200 povos indígenas foram dizimados só por essas bandas de cá da Amazônia.

obs: As locações do filme foram na Colômbia e Argentina.

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Felipe Marcondes 3 de março de 2020 - 15:13

O tema do oboé, é umas das coisas mais lindas que o cinema já produziu…
Somente isso, vale a pena assistir o filme.

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Vinicius Matos 29 de fevereiro de 2020 - 09:18

Excelente texto, gostei muito.

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Joly81 29 de fevereiro de 2020 - 06:59

Esse é um dos meus filmes prediletos em todos os tempos. Sua crítica foi certeira, principalmente acerca das nuances do narrador, que é a chave para a abordagem do roteiro. Se a própria historiografia acadêmica toma partido por vezes de algum lado da moeda, porque exigir de uma obra cinematográfica uma isenção total. Parabens pelo texto.

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Vinicius Matos 29 de fevereiro de 2020 - 09:18

Excelente texto, gostei muito.

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