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Crítica | A Morte Cansada

por Rafael Lima
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Lançado em 1921, A Morte Cansada, obra que chamou a atenção do mundo para Fritz Lang, é um filme bem atípico dentro do Expressionismo Alemão. Os cenários tipicamente germânicos tão comuns ao movimento dão lugar a ambientações de outros locais e trabalham com questões muito mais filosóficas do que os temas políticos e sociológicos que se percebiam em outros filmes do Expressionismo, no caso, as temáticas Universais do amor e da morte.

A trama acompanha um casal apaixonado (Lil Dagover e Walter Janssen) prestes a se casar. Quando um homem misterioso (Bernhard Goetzke) compra um terreno na cidade próximo a um cemitério e o cerca com um muro, o noivo desaparece. Desesperada, a jovem procura o seu amado pela cidade, só para vê-lo cruzar os muros como um fantasma, percebendo que o misterioso proprietário é a Morte. A jovem suplica à Morte que devolva o seu amado, e esta resolve dar à garota uma oportunidade. Apresentando três histórias de amor que foram interrompidas pela morte, a entidade promete devolver a vida do noivo se a jovem conseguir dar um desfecho diferente a pelo menos uma destas histórias.

A Morte Cansada (também lançado no Brasil com o título de Pode o Amor Mais Que A Morte?) é de um projeto muito pessoal de Lang, por ter sido produzido pouco tempo depois da morte de sua mãe. Escrito pelo próprio diretor em parceria com a sua esposa e colaboradora habitual Thea Von Harbou, o filme se apresenta como uma antologia (onde os amantes sempre são interpretados pelos mesmos atores da história-moldura) com tramas situadas em lugares diversos, como em um povoado islâmico, na Veneza Renascentista e na China Imperial, mas todos ligados pela mesma temática, uma saga de amor interrompida pela morte.

O roteiro de Lang e Von Harbou persegue a Universalidade dos seus temas ao situar a ação principal “em algum lugar em alguma época”, o que chegou a gerar críticas ao filme por “não ser alemão o suficiente” em um período histórico onde o país tentava reafirmar a própria identidade. A história parece problematizar o que seria verdadeiramente o amor, parecendo sugerir que em suas versões romantizadas o amor realmente não é capaz de derrotar a morte e, somente se não voltar-se apenas para si mesmo, este sentimento teria alguma chance contra a inevitabilidade da Morte, o que é uma visão muito curiosa e madura para um filme da década de 1920. Embora as três histórias possuam certo caráter melodramático e verborrágico (o que é percebido pelo excesso de intertítulos), e nunca se tornem tão interessantes quanto a história-moldura, elas se enquadram dentro das reflexões propostas pelo filme.

Os aspectos visuais são impressionantes, começando pelos cenários. O enorme muro que cerca a propriedade da Morte, que surge gigantesco diante dos outros personagens, parecendo simbolizar quão pequenos somos diante dessa questão, é um belo trabalho da direção de arte, que ainda se mantém discreto o suficiente para não sobrepor-se à narrativa. Os ambientes onde se passam as histórias das velas cujo destino a jovem amante tenta alterar são igualmente impressionantes, embora o retrato de Veneza acabe ficando um pouco aquém dos dois restantes, por eles serem retratados de forma mais exótica e fantasiosa, segundo a visão que o Ocidente tinha em relação ao Oriente na época. Mas nenhum cenário é tão deslumbrante quanto o Gabinete da Morte, repleto de velas, cada uma representando uma vida.

O filme também possui efeitos especiais muito bons para a época, que envelheceram bem dentro da linguagem adotada, sendo que para aqueles padrões, A Morte Cansada não tinha um grande orçamento, com destaque aqui para a procissão de fantasmas, realizada através de efeitos de superposição, onde a mocinha descobre que seu amado foi levado pela Morte; e a cena da fuga em um tapete voador, presente na história da terceira vela.

Lil Dagover, que já havia protagonizado O Gabinete do Dr. Caligari, marca definitivamente o seu nome dentro do Expressionismo Alemão ao interpretar a Jovem Amante que confronta a própria Morte por amor. Dagover transmite bem o desespero crescente ao longo do filme, criando uma mocinha que pode chegar a despertar a antipatia do público devido ao egoísmo que apresenta em alguns momentos “Em nome do Amor”, mas que justamente por isso torna-se mais multifacetada que a maioria das personagens femininas deste período, especialmente ao ser posta diante de um grande dilema moral no 3º ato da narrativa.

A leitura de Bernhard Goetzke para a Morte também merece destaque. Embora surja imponente e misteriosa, com suas vestimentas pretas e chapéu de aba larga, a Morte criada por Lang e Goetzke nunca adquire características monstruosas, malignas, ou mesmo jocosas, como a famosa Morte de Ingmar Bergman em O Sétimo Selo (que tem inspiração assumida no filme de Lang). A Morte desta obra, como o título diz, está cansada de ver o sofrimento que tem que infligir aos seres humanos em nome da Divina Providência, como percebemos na bela cena em que ela precisa extinguir a vela que representa a vida de um bebê. Goetzke surge em cena como a Morte sempre com uma expressão cansada e séria no rosto, deixando entrever de forma muito sutil alguma tristeza. O desafio proposto à jovem amante não é um jogo sádico, mas um reflexo de seu cansaço, pois embora a Morte claramente não acredite que o Amor da jovem possa impedi-la de fazer o que tem que fazer, ela gostaria que fosse possível.

A Morte Cansada ainda é um trabalho de um diretor relativamente inexperiente e que ainda realizaria suas obras mais de maior destaque, mas que ainda assim, demonstra o grande talento de Fritz Lang. Visualmente impressionante e extremamente influente (Luis Buñuel apontaria o longa-metragem como o filme que o fez querer ser cineasta) A Morte Cansada propõe discussões um pouco mais existencialistas que outras obras do Expressionismo Alemão, mas é indiscutivelmente uma importante parte do movimento que marcou a História do Cinema.

A Morte Cansada (Der Mude Tod), Alemanha, 1921.
Direção: Fritz Lang.
Roteiro: Fritz Lang e Thea Von Harbou.
Elenco: Lil Dagover, Bernhard Goetzke, Walter Janssen, Rudolph Klein Rogge, Hans Sternberg, Erich Pabst, Neumann Schüller, Georg John.
Duração: 98 Min.

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