Crítica | A Morte de Stalin (2017)

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Publicada em dois volumes, entre os anos de 2010 e 2012, a minissérie francesa A Morte de Stálin: Uma Verdadeira História… Soviética, de Fabien Nury (roteiro) e Thierry Robin (arte) propunha um olhar de bastidores para o que [provavelmente] aconteceu em torno da máquina política soviética, quando Josef Vissariónovitch Stálin morreu, em 5 de março de 1953. Assim como a versão em quadrinhos, o elemento “documental” até pode ser encontrado aqui, mas seria produto de mente sandia cobrar profundo e engajado realismo histórico de uma comédia dirigida e co-escrita por Armando Iannucci, de Conversa Truncada, The Thick of It e Veep.

Especializado em satirizar ambientes, personalidades e cargos políticos, Iannucci realizou uma adaptação respeitável da HQ francesa e chegou a um ponto interessantíssimo de sua carreira, com características técnicas bastante lapidadas, especialmente na forma de dirigir cenas em que muitos diálogos se encadeiam, e na maneira stalker com que acompanha os atores pelo cenário, registrado, quase sem querer, a ideia de constante perseguição, vigilância e medo que cidadãos e  até os dirigentes do Partido Comunista Soviético tinham de falar algo coisa errado, para a pessoa errada. Se olharmos com cuidado, veremos na obra uma pontual precisão factual, notadamente em relação às datas, locais escolhidos para as ações e alguns destinos de personagens. É importante, porém, não querer tomar a película por um documento histórico ou cobrar dela fidelidade absoluta com o que aconteceu entre março (quando Stálin morreu) e dezembro (quando Beria foi executado) de 1953.

Por se tratar de um filme de humor negro e com personalidades históricas, algumas discussões a respeito da “necessidade” ou “validade” de se fazer humor com esses indivíduos ou regime político vêm à tona, o que pode trazer uma discussão interessante sobre limites ou tipos de abordagem do humor para essas grandes tragédias da humanidade (na verdade, tendendo a cair no abismo ético-moral e não chegar a lugar nenhum), todavia, a pergunta “por que não?” também salta aos olhos nessa situação. Assim como o excelente Ele Está de Volta (2015), A Morte de Stalin pega um dos grandes assassinos da humanidade, líder de um dos regimes mais infames que já existiram, e utiliza do humor para olhar as entranhas desse governo, como a roda política funciona — quer seja em uma ditadura, ou em uma democracia — e quais são os métodos que certos políticos utilizam para chegarem ou se manterem no topo.

Embora o elenco seja aplaudível por completo, vale destacar as interpretações de Simon Russell Beale como o temido Beria; Jeffrey Tambor como Malekov, o fraco sucessor de Stálin, que permaneceria pouco tempo no cargo; e Steve Buscemi como Khrushchov, o astuto piadista do escalão que, de bonzinho, só tinha a cara e o fingimento de ser bonzinho mesmo. Dos figurinos de cada um à forma como o diretor os coloca em cena, temos um show de arquétipos e estereótipos políticos de um regime totalitário, confabulando sobre quem deveria assumir qual Ministério, quem deveria ser executado, quando a cidade deveria ser fechada ou aberta… As piadas envolvendo esses aspectos são rápidas e o roteiro não insiste em situações medonhas, sempre buscando no cinismo e até na crítica ao regime, um motivo para o riso e a alfinetada espirituosa, conseguindo isso ao expor as fraquezas dos personagens ou as fraquezas, contradições e absurdos do regime.

A linha narrativa com os filhos de Stálin e alguns blocos de prisões e soltura no meio do filme careciam de um pouco mais de cuidado, especialmente em suas finalizações, mas nada que comprometa de verdade a obra. O público não enfrentará nenhum problema de ritmo (a montagem aqui é certeira) e não verá o roteiro se acovardar diante de situações como o extermínio de artistas, Gulags, expurgos, permissões de assassinato pelos próprios membros do governo e falsas acusações levadas a cabo, com o conhecimento de todos. Não é de se espantar que a obra tenha sido banida da Rússia e também em países como Belarus, Cazaquistão e Quirguistão. Algumas verdades ainda parecem muito difíceis para determinadas nações e/ou máquinas estatais. Não é, Brasil?

A Morte de Stálin (The Death of Stalin) — EUA, França, Bélgica, Canadá, 2017
Direção: Armando Iannucci
Roteiro: Armando Iannucci, David Schneider, Ian Martin, Peter Fellows (baseado na obra de Fabien Nury e Thierry Robin)
Elenco: Olga Kurylenko, Tom Brooke, Paddy Considine, Justin Edwards, Adrian McLoughlin, Simon Russell Beale, Jeffrey Tambor, Steve Buscemi, Michael Palin, Paul Ready, Yulya Muhrygina, Andrei Korzhenevskiy, Roger Ashton-Griffiths, Jeremy Limb, Andy Gathergood
Duração: 107 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.