Crítica | A Morte lhe Cai Bem

Death-Becomes-Her PLANO CRITICO FILME A MORTE LHE CAI BEM CRITICA

Robert Zemeckis sempre se mostrou um grande cineasta por diversos motivos. Dentre eles, destaco sua excepcional habilidade em combinar visualmente a realidade com elementos fantasiosos e/ou impossíveis de serem reproduzidos na prática. Por exemplo, Uma Cilada para Roger Rabbit trazia um detetive de carne e osso em um mundo habitado por desenhos animados, e Forrest Gump: O Contador de Histórias viria a apresentar o personagem-título lado a lado com figuras históricas até então falecidas – composições bem sucedidas graças aos efeitos visuais. Assim, o que faz esses dois filmes tão eficazes é o fato de não minorar os traumas do detetive em prol do absurdo fantástico, bem como compreender que o significado das conquistas de Gump jamais poderiam ser superadas pela sua divisão de tela com ícones como John Lennon. E é justamente nessa coexistência entre o apuro visual e o arco dramático dos personagens que este A Morte lhe Cai Bem sofre seu principal deslize.

Roteirizado por Martin Donovan e David Koepp, o filme acompanha os esforços de Helen (Goldie Hawn) em manter seu noivo Ernest (Bruce Willis) em seus braços; porém, sem sucesso, ele rapidamente é seduzido pela atriz Madeline (Meryl Streep). De coração partido, Helen jura vingança pelo que sofreu, e anos depois do ocorrido, surge inesperadamente belíssima e pronta para reconquistar o antigo amor e dar o troco em Madeline. Esta última, por sua vez, se encontra bem mais envelhecida, e ao ver a elegância daquela que outrora humilhou, decide recorrer a Lisle Von Rhuman (Isabella Rossellini), misteriosa mulher que lhe promete o fim do envelhecimento, bastando apenas que ela beba uma poção para que volte a ser como sempre quis.

A partir dessa premissa, o longa vai flertando com as ideias da juventude eterna e da imortalidade, até que finalmente as abraça na segunda metade da projeção, onde se encontram seus momentos mais inspirados. Troncos esburacados, corpos estilhaçados em vários pedaços, pessoas descascando, cabeças deslocadas e pescoços retorcidos surgem com efeitos visuais muito bem inseridos e que não chamam atenção para si – aqui e ali, vemos que se tratam de criações digitais, mas nada que afete nossa experiência.

Nesse cenário, Zemeckis e a dupla de roteiristas aproveitam para brincar com a vaidade das pessoas (especialmente das celebridades) e com as cirurgias plásticas que muitos se submetem em busca de retardar o envelhecimento e se manter imutável ao longo dos anos. E são nesses instantes que A Morte lhe Cai Bem conquista o espectador, com um humor leve e despretensioso, por vezes sutil, por vezes tendendo ao pastelão (uma briga com pás se revela particularmente divertidíssima), mas sem deixar a sátira sobre a vaidade de lado – e felizmente, Donovan e Koepp dosam esse comentário na medida certa, não permitindo que isso tome conta da narrativa e torne tudo maçante e repetitivo.

Ademais, a direção de Zemeckis conta com alguns altos e baixos, mas que são relevados pelo ritmo e atmosfera agradáveis de sua obra: por um lado, o cineasta extrai humor através da decupagem ao brincar com nossa percepção de espaço, trazendo personagens rolando por extensas escadas quando essas pareciam ser muito mais curtas em um primeiro momento; por outro, uma cena que traz Ernest em primeiro plano falando ao telefone enquanto algo estranho acontece com certo personagem em segundo plano cria um suspense que demora demasiadamente para ser sanado, gerando expectativa muito grande para uma reação óbvia do personagem em foco.

Outra força do longa reside em seu elenco principal. A dinâmica entre as personagens de Meryl Streep e Goldie Hawn é deleitosa de se ver, tanto na rivalidade – com ambas criando um obstáculo eficaz uma para com a outra – quanto na parceria – suas ideias para manterem o disputado homem por perto rendem bons momentos. Enquanto isso, Bruce Willis se vira como pode em seu papel, já que o cirurgião plástico Ernest se revela um personagem mais desinteressante do que deveria; assim, o fato dele ser o grande responsável por boa parte das ações de Helen e Madeline apenas funciona graças aos esforços do elenco. Por fim, Isabella Rossellini aproveita que sua Lisle Von Rhuman e os aposentos em que esta surge remetem as civilizações da Antiguidade para esbanjar sensualidade e mistério.

Assim, se anteriormente apontei que o filme possui os melhores momentos apenas na segunda metade, é porque na parcela inicial, enquanto prepara a atmosfera fantástica, A Morte lhe Cai Bem não sai do lugar-comum e mal consegue deixar de ser monótono. Portanto, o espectador investe tempo significativo em um material pouco atraente e por vezes dispensável – há uma cena que mostra toda uma conspiração de assassinato que, por mais bem filmada que seja com suas angulações e movimentos de câmera elegantes, existe apenas por capricho dos realizadores.

SPOILERS!

Mas o pior é que, depois de tanto tempo gasto na criação de uma história de vingança (nesse ponto já estamos na última meia hora de projeção) que poderia render mais bons momentos de embate, tudo se resolva com uma simples conversa entre Helen e Madeline que dura poucos minutos – o que gera certo desgosto, já que o filme nos informa que Helen guardou as mágoas por anos e mais anos. E aí então a película muda totalmente de abordagem, focando na tentativa da dupla de permanecer com a aparência jovial – o que, mesmo rendendo pontos altos da narrativa, acaba jogando fora todo o desenvolvimento que a personagem de Goldie Hawn havia tido até então.

Portanto, A Morte lhe Cai Bem oferece um entretenimento agradável e curioso, ainda que tenhamos a impressão de que estamos diante de ideias e conceitos preciosos que não foram encachados na trajetória dos personagens com todo o potencial que possuem. De tal modo, mesmo com um roteiro mal trabalhado em alguns pontos, e ainda que não seja conciso em sua proposta como os trabalhos que cito no começo do texto, o filme se alavanca em um elenco regular que cumpre o necessário e em efeitos visuais bem utilizados para gerar humor e compor o universo criado. Ver astros como James Dean inseridos no contexto do filme traz ao espectador um sentimento agridoce, nos lembrando com pesar e certa gratificação daqueles que nos deixaram tão precocemente.

A Morte lhe Cai Bem (Death Becomes Her, EUA, 1992)
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Martin Donovan e David Koepp
Elenco: Meryl Streep, Bruce Willis, Goldie Hawn, Isabella Rossellini, Ian Ogilvy, Adam Storke, Nancy Fish, Alaina Reed-Hall, Michelle Johnson, Mary Ellen Trainor
Duração: 104 min.

LUIS EDUARDO BERTOTTO . . . Quando vi pela primeira vez Marty McFly viajar para 1955, passei a me interessar pelo fabuloso e caótico processo construtivo de um filme. Desde então, venho me fascinando e me surpreendendo cada vez mais pela composição das mise-en-scènes e a forma com que elas enriquecem o universo de uma produção cinematográfica. Não apresento restrições a gêneros e épocas – pelo contrário, apenas tenho uma leve queda pela explosão criativa dos anos 70 e possuo uma adoração descomunal pela obra de Scorsese. Em suma, um estudante de engenharia civil que, em meio à correria do dia a dia, encontra abrigo na arte das imagens em movimento e no som psicodélico e poético de Floyd.