Crítica | A Morte Te Dá Parabéns

Antes de entrar em qualquer mérito sobre A Morte Te Dá Parabéns, é interessante apontar para o quão frutífero o horror experimental tem sido de uns tempos pra cá, e mais ainda para o quanto a produtora deste novo hit do gênero, a Blumhouse, vem desempenhando um papel notável na produção dessa nova safra. Fundada por Jasom Blum, a produtora é responsável por títulos que avivaram novamente as realizações de baixo orçamento, que dão quase que o total controle da obra a seus responsáveis, permitindo aí uma nova linha de filmes de horror que sempre parecem vir com um pé fora da caixinha, tal qual os recentes sucessos de M. Night Shyamalan, A Visita e Fragmentado, o extremamente lucrativo Corra!, as bem-sucedidas franquias Uma Noite de Crime, Sobrenatural e Atividade Paranormal, e por aí vai. São trabalhos que apontam para mentes que merecem nossa atenção.

Dando início ao que nos interessa de fato, A Morte Te Dá Parabéns igualmente se encaixa nestes casos onde o investimento barato, mas a liberdade criativa por trás da narrativa, encontra seu resultado mais que satisfatório na resposta numérica do público junto à ida do filme para as telas grandes: orçado em quase 5 milhões, o novo longa de Christopher Landon (de Como Sobreviver a um Ataque Zumbi) já arrecadou mais que o tripo de seu custo, e analisando o que nos é entregue aqui, este misto assumido (até mesmo em diálogo) de Feitiço no Tempo com a vibe slasher debochada de Wes Craven com seus Pânico se revela como uma das mais divertidas surpresas no que se refere a compreender tanto o gênero com o qual está mexendo como com os clichês que irá chacoalhar dentro de um pacote aparentemente banal, mas bastante surpreendente sobre como trata seu material.

Gerando pouco interesse a partir de sua premissa (e também junto ao trailer nada chamativo), nos obriga a acompanhar Tree (Jessica Rothe, que ninguém lembra, mas interpretou uma das amigas de Emma Stone com vestido colorido em La La Land – Cantando Estações), uma jovem universitária mimada, sarcástica, fria e insensível que parece maltratar todos ao seu redor e os manipula apenas pelo próprio interesse. No dia de seu aniversário, Tree é assassinada e retorna para o dia anterior, assassinada novamente logo após o fim deste e descobrindo que está presa a este looping, só podendo sair dele caso descubra quem tanto a persegue.

Se a comparação do trabalho de Landon (que escreveu o roteiro ao lado de Scott Lobdell) com o feito de Craven e seu Ghostface é válida (mas é claro, Pânico segue intocável no que se refere a sua influência e importância), é graças ao modus operandi com que A Morte Te Dá Parabéns é levado a frente, tendo início como um típico horror B que elabora seus personagens e situações através dos mais variados estereótipos, para, não muito tempo depois, brincar com seus elementos ao bel prazer para assumir-se como uma autêntica sátira a tudo e a todos, seja ao gênero, ao moralismo tão presente em produções semelhantes, ou ao próprio achismo do público em ter certeza dos caminhos por onde o filme irá enveredar.

Claro que A Morte Te Dá Parabéns está bem longe de ser o filme mais imprevisível do mundo, uma vez que o fechamento do plot sobre quem é o assassino é perfeitamente previsível (e nem mesmo o filme é sutil nisso) e todos os elementos presentes aqui já foram vistos e revistos em diversos outros filmes. Porém, há tanta vontade e bom-humor nos desdobramentos do roteiro de Landon e Lobdell que chega um momento em que você admite que os rumos e surpresas ao longo dos 90 minutos de projeção são mais surpreendentes do que aparentam. A dinâmica com as voltas no tempo, em especial, são particularmente espertas, ágeis nos momentos certos para que o público não se canse daquela repetição (a montagem acelerada com os vários dias se passando é divertidíssima), além de um humor tão natural à própria proposta que A Morte Te Dá Parabéns pode até mesmo ser a experiência cômica mais engraçada do ano.

Jessica Rothe, por sinal, também se torna um dos grandes méritos para que o filme se faça tão funcional, isso graças ao carisma com que a desconhecida atriz carrega uma personagem inicialmente quase impossível de se importar. Visivelmente se divertindo na pele de Tree, todos os grandes momentos do filme são de Rothe, que equilibra perfeitamente sua veia cômica com o senso de tensão e nervosismo por estar sendo perseguida. Uma presença notável dentro de um gênero que, infelizmente subestimado, não lhe trará a atenção merecida no momento.

Com uma excelente tirada final que nos faz terminar a projeção com um enorme sorriso no rosto, A Morte Te Dá Parabéns se beneficia de sua total falta de ambições ou desejo por criatividade para se ater a uma execução coerente e espirituosa, cheia de personalidade própria e um nível de entretenimento que já o coloca no patamar dos melhores entretenimentos recentes desse gênero.

A Morte Te Dá Parabéns (Happy Death Day) — EUA, 2017
Direção:
 Christopher Landon
Roteiro: Scott Lobdell
Elenco: Jessica Rothe, Israel Broussard, Ruby Modine, Charles Aitken, Laura Clifton,  Jason Bayle, Rob Mello, Rachel Matthews, Ramsey Anderson
Duração: 96 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Somente há sinal de vida aqui quando o cinema está presente. E quando ele está, são as cores de Almodóvar, a frieza de Kubrick e o suspense de Shyamalan que me encantam. Um cinéfilo em constante construção.