Crítica | A Mosca (1986)

Refilmagem do clássico A Mosca da Cabeça Branca, tradução intersemiótica do conto The Fly, de George Langelaan, A Mosca é um dos principais filmes da respeitada carreira de David Cronenberg. O tumultuado processo de produção que envolve reescrita de roteiro, mudança de diretor e apertos no orçamento pode ser observado na análise de Medo da Carne: Lava/Pupa/Metamorfose, documentário lançado em 2005, produção que faz uma análise retrospectiva do filme em duas horas e meia de imagens de bastidores e entrevistas. Aqui, vamos nos ater ao filme em questão e algumas de suas possibilidades interpretativas. Uma delas é a identidade, algo basilar em toda a estrutura cinematográfica de Cronenberg, além das possibilidades de reflexão do filme em paralelo aos pontos levantados em A Transparência do Mal: Ensaios Sobre os Fenômenos Extremos, do filosófico Jean Baudrillard, pertinente também para pensar outras produções do cineasta. Em linhas gerais, o texto expõe que vivemos na era da pós-orgia, um período onde nada mais desaparece pela morte, mas por proliferação, contaminação, saturação, etc.

O que seria exatamente isso? E o que tem a ver com A Mosca? Lá vamos nós! Para Baudrillard, a orgia pode ser pensada como o momento explosivo de intensa explosão da modernidade, uma fase conhecida pela liberação de todos os nossos domínios. Os seres humanos demarcaram uma extensa corrida por caminhos da produção e superprodução virtual de objetos do cotidiano, algo que permitiu a promoção de signos, mensagens e ideologias em excesso. O corpo, anteriormente mencionado como metáfora da alma e do sexo, tornou-se o lugar da deterioração, da metástase, numa promiscuidade mútua, parte de um encadeamento mecânico de todos os processos que o circunda. Para o autor, há uma besta hospedada dentro de cada um, escondida pelos códigos de civilidade já interpretados pela psicanálise no passado, seara discursiva que envolve os limites entre o homem e o animal, entre a civilização e a barbárie. Tudo é fusão e até a fusão pode ruir.

E na ruína de Seth Brundle que A Mosca desenvolverá a sua narrativa de 96 minutos, econômica para a exposição de tantas discussões complexas, mas adequada para a proposta de entretenimento que se propõe. Ao evitar se alongar demais, o filme delineia os seus conflitos e reflexões de maneira prática. O resto fica para nós, na interpretação. A mudança do nosso protagonista passa pelo biológico. A besta interna remodela a sua identidade, escondidas pelas generosas camadas de maquiagem dos códigos estabelecidos pela mencionada instância de civilização. A mosca e o cientista adentram as discussões de Baudrillard sobre o duplo, a mais antiga prótese que baliza a história do corpo humano. Segundo o autor, da mesma maneira que a sombra, a alma ou a imagem no espelho. Quando esse duplo se torna visível, a morte se torna iminente. É a sua presença assustadora e inevitável, preocupação que perfaz um longo percurso na trajetória de Cronenberg como cineasta que também escreve a maioria dos filmes que dirige.

Desde o seu primeiro filme para exibição no circuito cinematográfico, David Cronenberg apresenta ao público personagens envolvidos em esquemas escusos entre experimentos científicos e seus desdobramentos em pequena ou larga escala. São tramas com personagens que durante as suas transformações físicas e psicológicas, comportam-se dentro de novas existências. Em depoimentos ao longo de sua carreira verborrágica, constantemente exposta em entrevistas e documentários, algo ótimo para nossas observação diacrônicas em relação aos seus filmes, o cineasta afirmou que através de toda a sua obra, a temática da transformação se faz presente, num interesse seu voltado para o estudo da identidade e de sua fragilidade num século de mudanças comportamentais constantes, oriundas da evolução frenética da tecnologia, do capitalismo e da incapacidade humana de assimilar tantas revoluções concomitantes. Grifo meu nas últimas considerações, observação que parte da análise não apenas de A Mosca, mas da visão panorâmica do “cinema” de David Cronenberg.

Na produção em questão, Seth Brundle (Jeff Goldblum) é um pesquisador envolvido num processo de desenvolvimento de uma máquina de teletransporte. Da máquina A para a máquina B, a estrutura biológica do teletransportado é decomposta e recomposta com perfeição. Esse ao menos é o planejamento da criação que cumpre devidamente a sua missão durante o “teste final” apresentado mais adiante. Ele é um homem que sofre enjoos em seus deslocamentos, uma necessidade dramática que dialoga com o seu interesse por experimentos científicos. Inicialmente, o personagem realiza um teste utilizando um animal, algo que não sai conforme o planejado. Irritado por causa dos conflitos sentimentais de uma relação ainda preambular com a Veronica (Geena Davis), Seth decide ampliar as possibilidades de sua invenção. Ele agora será o próprio alvo do teste. O inesperado, no entanto, ocorre.

Ao adentrar na máquina, Seth não percebe que junto há uma mosca posicionada num ponto discreto, onde apenas nós podemos observar, graças ao destaque do plano detalhe oriundo da eficiente direção de fotografia de Mark Irwin. Resultado: o seu corpo acaba geneticamente fundido com o material biológico do inseto e em questão de tempo a aparência do personagem vai aproximar-se das características do inseto, num terrível processo de transformação que caminha para um epílogo trágico. Aos poucos, Seth torna-se ciente de sua situação e destino, mas por se tratar de um experimento, vai permanecer cotidianamente, como no conceito do filósofo Gilles Deleuze, em puro “devir”. Tudo pode acontecer e mudar a ordem das coisas. A montanha-russa narrativa não nos locomove pela obviedade: não sabemos se o que vem é uma curva, um looping ou uma faixa de trilhos retilínea. Quanto mais a identidade de Seth se transforma, mais o relacionamento dele com Veronica se modifica.

Antes de dar continuidade, é importante ressaltar a inserção da personagem na vida. Eles se conhecem durante um evento repleto de cientistas. Veronica está no local para cobrir uma matéria da revista onde trabalha. Eles se encontram, conversam, ela é convidada para conhecer a sua máquina chamada telepod e os dois, aos poucos, iniciam um relacionamento. O interesse dela à primeira vista é ser a jornalista responsável por cobrir a invenção, mas Seth resiste, numa postura alérgica aos holofotes midiáticos. Ele que aprimorar a sua criação e esperar mais antes da divulgação de sua pesquisa. Além da ciência, a vida sentimental parece ganhar um rumo novo, haja vista a entrada da carismática, gentil e inteligente jornalista em seu cotidiano. Há, no entanto, um conflito. Seu nome é Stathus Borans (John Getz), editor de Veronica e antigo companheiro. A dupla ainda possui questões não resolvidas de um relacionamento no passado ainda recente. Achamos que Borans terá uma presença negativa num filme maniqueísta, mas o roteiro reverte os padrões clássicos dos manuais de dramaturgia e flerta com a transformação de personagens que não estão cristalizados em arquétipos comuns, tais como herói e vilão.

Nós, espectadores, voyeurs desta situação considerada abominável, vamos nos manter em constante suspensão, assim como os próprios personagens. Se ele se relacionou sexualmente com a jornalista, há a chance de uma gravidez? O que acontecerá com Seth? É o que acompanharemos num filme onde não há rigidez de gênero: o cineasta David Cronenberg mescla elementos do horror, do fantástico e do terror biológico, numa produção que se mostra bastante versátil, bem como eficiente em seus aspectos estruturais: a maquiagem é abominável, nojenta, assinada por Chris Walas, supervisor dos efeitos especiais, profissional já estabelecido na indústria na ocasião de produção deste clássico moderno do horror e da ficção científica. É neste setor que o grotesco se faz presente, exaltado pela gosma e pelo corpo asqueroso de Seth, um cientista com desenvolvimento dramático igualmente grandioso. Ronald Sanders, na edição, concede ao filme o ritmo ideal entre as cenas de ação e os diálogos explicativos e pontuais do roteiro reeditado pelo cineasta, baseado na versão anterior de Charles Edward Pogue.

Numa fusão equilibrada entre os elementos visuais e os desdobramentos dramáticos, o foco nas consequências psicológicas oriundas dessa mudança na vida de Seth ajudou a colocar A Mosca no patamar das narrativas eficientes em suas reflexões sobre o impacto da ciência na sociedade. O design de produção de Carol Spier permite que possamos contemplar as mudanças de Seth no campo da visualidade não apenas corpórea, mas cenográfica, haja vista o uso do famoso set giratório, utilizado por Fred Astaire em sua clássica sequência de dança que se movia do chão para o teto, ideia também presente na cena do assassinato de Tina, um dos pontos altos da fotografia de A Hora do Pesadelo, de Wes Craven. Os objetos colados para não se deslocarem, o apartamento do protagonista que parece uma zona industrial abandonada, dentre outros detalhes do setor nos demonstra a busca por contar uma história da melhor maneira possível. Outro ponto relevante para ser delineado é o design de som supervisionado por Wayne Griffin, setor que nos permite adentrar na zona psicológica de Seth e sua transformação num monstro com propriedades de um inseto.

Salvaguardadas as devidas proporções, há traços da obra de A Metamorfose, de Franz Kafka, na refilmagem de A Mosca da Cabeça Branca, clássico de 1958, com Vincent Price, denominado apenas como A Mosca, sob a direção do eficiente David Cronenberg, em 1985.  Rejeição, inadequação social, mutações físicas e psicológicas apresentam semelhanças e diferenças entre o aclamado conto literário e a polêmica produção cinematográfica, ambos ótimos materiais para um exercício de literatura comparada. No terreno da estética da recepção, há uma numerosa linhagem de interpretações para a produção. Talvez a mais interessante seja a metáfora entre a mutação de Seth e a relação da ciência frente aos desafios do vírus HIV nos anos 1980. Para alguns críticos e estudiosos o filme pode ser pensado como uma espécie de representação dos medos diante do desconhecido. De fato, há uma linha de coerência neste tópico interpretativo.

Em 1986, muitos estudos ainda tentavam compreender o vírus HIV e a metamorfose corporal de Seth, que lhe apresentava surpresas a cada instante, não fica muito longe da relação entre os infectados na época e os impactos de um vírus que naquele período ainda passava por uma fase desvendamentos. A relação com o corpo, a tecnologia, a ciência, o sexo, a morte e as enfermidades são parte das palavras-chaves que integram parte da obra de David Cronenberg. No desenvolvimento de Calafrios, de 1975, e Enraivecida na Fúria do Sexo, de 1977, o cineasta trouxe temática sobre a presença vírus tomando o corpo de pessoas e causando destruição massiva, além da aniquilação dos limites para o que chamamos de civilização. Ademais, indicado ao BAFTA, ao Saturn Awards e ao Oscar nas mais variadas categorias técnicas, A Mosca é um filme de 96 minutos que é puro devir: há acontecimentos que fogem da ordem esperada e as metáforas sociais fizeram a “festa” de muitos acadêmicos que estudam o filme ainda na contemporaneidade.

Como era de se esperar, uma continuação foi engatilhada logo após o estabelecimento do sucesso deste primeiro filme. Tal como Scanners – Sua Mente Pode Destruir, produção cronenberguiana que também ganhou continuação, a sequência é inferior, desde o roteiro com situações óbvias demais ou desenvolvimento da ação, mais voltada aos anseios do cinema comercial que nós todos amamos como forma de entretenimento, mas que não precisa esvaziar suas reflexões para se fazer divertido, não é mesmo? Com A Mosca, a carreira de David Cronenberg demonstrou também ser puro devir, num feixe rizomático de temas que foram se espalhando ao longo da história recente da cultura cinematográfica e, por meio de tópicos sempre semelhantes, mas com abordagens diferentes, transformando-se continuamente, tal como os personagens de seus filmes controversos e polêmicos. Ao final da sessão, nos damos conta da possibilidade de discutirmos o impacto do grotesco numa sociedade acostumada e desinteressada em nada que não seja voltado aos padrões estéticos do belo, numa transformação dos deslocados em “monstros” estigmatizados, em pânico diante de suas condições que não se assemelham ao que é cultuado em nossa sociedade das aparências.

A Mosca (The Fly) – Canadá, Estados Unidos e Reino Unido. 1986.
Direção: David Cronenberg.
Roteiro: Charles Edward Pogue e David Cronenbeg, baseado no argumento de George Langelaan.
Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz, Leslie Carlson, Michael Copeman, David Cronenberg, George Chuvalo, Carol Lazare.
Duração: 96 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.